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19-07-2022
A culpa é do povo

O povo tem as costas largas. A história começou a ser contada durante a pandemia, numa lógica populista de colocar portugueses contra portugueses, e sobrevive ainda hoje como estratégia de comunicação do Governo. António Costa continua a mostrar-se incapaz de assumir erros, fazer autocritica e, por isso, inverter o sentido da sua governação.
O País volta a arder depois do choque de Pedrogão e a culpa é da mão invisível. “Os incêndios só ocorrem se uma mão humana, voluntariamente ou por distração, os tiver provocado”. É desta forma, simplista, que o primeiro-ministro resume o problema dos fogos, porque a responsabilidade, para António Costa, também é de quem não sabe que terras tem e não faz o cadastro das propriedades.
O olhar inquisidor de António Costa, paternal, ignora a raiz do problema. O País arde porque grande parte dele está abandonado, fruto da negligência do Estado que não é capaz de apostar em políticas de coesão territorial. Parte do País está esquecido e sem gente porque os sucessivos Governos foram ignorado o êxodo rural, aproveitando esse movimento para fechar serviços públicos e esquecer que lá longe do mar, onde já não mora ninguém, sobra material combustível ao abandono. O País arde porque não há, em grande parte do território, gente que olhe por ele. Em vez de apontar o dedo apenas aos cidadãos, António Costa podia perder algum tempo a redesenhar políticas para fixar gente no Portugal abandonado, mas isso pressupõe reformar e o primeiro-ministro prefere o “31 de boca”.
Esta lógica invertida do Governo colocar o foco nos cidadãos, ora culpabilizando, ora exigindo-lhes serem a chave da solução, veio para ficar e parece estar a fazer escola. Não adoeça durante o verão porque os serviços públicos de saúde estão sobre pressão, e já agora, não ande comboio em horas de muito calor porque as condições de conforto não estão garantidas. É como quem diz, continue a pagar os seus impostos e não espere grande coisa do Estado, até porque, como confessou o próprio primeiro-ministro “o Estado não é segurador universal”. Confuso? Estamos todos. De facto, como disse Thatcher, o problema do socialismo é que só dura até acabar o dinheiro dos outros. Depois, bem, depois a culpa é povo.
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