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16-02-2021
Sinais de liderança
Sinais de liderança
Estranho que se diga que o processo de vacinação contra a Covid-19 está a correr bem, tirando os abusos, os fura filas e os esquemas dos chicos espertos. Aliás, foram estes episódios que desencadearam a demissão de Francisco Ramos à frente do grupo de coordenação. São eles que minam a credibilidade do plano e fazem crescer a desconfiança dos cidadãos.
Numa altura em que o País batia todos os recordes de número de mortos e infectados, assumindo nesta matéria a liderança de várias estatísticas internacionais, centenas de vacinas eram desviadas do caminho prioritário. Que é como quem diz, do verdadeiro caminho. Não há plano, nem liderança, que resista a esta subversão, até porque temo que não conheçamos a verdadeira dimensão do processo de vacinação indevida.
Não basta o poder político sinalizar que os prevaricadores vão ser punidos. É preciso garantir que os abusos não voltam a acontecer. Dito de outra forma, é preciso organizar o processo de forma a evitar estes esquemas. As últimas notícias não nos deixam particularmente tranquilos nesta matéria, mas há sinais de esperança. A nova liderança do plano de vacinação parece indicar um caminho novo, um horizonte de mudança.
A chegada do Vice-almirante Gouveia e Melo sinaliza, desde logo, uma alteração de princípio. Ao convocarmos um militar para a coordenação de um projecto desta envergadura, estamos a reforçar o interesse nacional da empreitada e a colocá-la no centro das nossas vidas. De um militar espera-se que esteja ao serviço do País, não de um Governo, de um partido, ou de uma qualquer fação. Aliás, foi isso que retive, desde logo, na sequência da primeira reunião que tive com o novo coordenador do plano de vacinação. Gouveia e Melo assumiu esta liderança como uma missão patriótica, não veio para agradar, mas para servir. Parece ter uma visão clara de como quer concretizar o plano, mas não se recusa a ouvir quem está no terreno. É mais um bom sinal. Outro é a sua intenção de vacinar, quanto antes, todos os profissionais de saúde, de forma a garantir que Portugal dispõe dos recursos humanos necessários para enfrentar este combate.
Em tempos de incerteza, as lideranças querem-se firmes e impermeáveis a pressões, determinadas e com capacidade de estabelecer pontes entre os vários agentes envolvidos. São estes os primeiros sinais que retive da chegada do Vice-almirante Gouveia e Melo. Para bem do País. O nosso futuro colectivo depende do real sucesso deste plano.
Leia a opinião quinzenal da Bastonária, Ana Rita Cavaco, na revista Sábado. Artigo exclusivo, agora às segundas-feiras, de duas em duas semanas, no site da Sábado:
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/ana-rita-cavaco/detalhe/sinais-de-lideranca
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