"Um enfermeiro que é reconhecido pelos olhos… pelo olhar"

  • 15-02-2024

"Um enfermeiro que é reconhecido pelos olhos… pelo olhar." A descrição é de quem há muito escolheu uma especialidade talvez não tão conhecida da Enfermagem. O Enfermeiro Perioperatório pode estar mais longe do foco da atenção da maioria, mas tem o papel central nos momentos de vulnerabilidade de quem é submetido a uma intervenção cirúrgica.

 

Neste 15 de fevereiro assinala-se o Dia Europeu do Enfermeiro Perioperatório. Sofia Rita e Ana Vences (43 e 45 anos respetivamente) falam com inequívoca paixão sobre o que fazem. Ambas admitem que acabam por estar um pouco "por trás das luzes". "[O Enfermeiro Perioperatório] é sempre aquele que fica um bocadinho esquecido. É o enfermeiro que a sociedade em geral não tem conhecimento nem da sua existência, nem das suas funções", salienta a Enfermeira Especialista Sofia Rita, do Hospital José Joaquim Fernandes, em Beja.

 

"Talvez porque as exerce num ambiente muito fechado para o exterior e apresenta-se um pouco escondido atrás de fardas pouco personalizadas, largas, normalmente tem uma máscara cirúrgica, barretes, batas… Fica um bocadinho por trás das luzes, digamos assim", acrescenta.

 

Sofia Rita refere o olhar não só como forma de se reconhecer o enfermeiro, mas também como uma importante forma de comunicação. "O bloco operatório, por si só, tem características muito específicas. É um ambiente fechado, frio, pouco acolhedor", realça, reiterando como é essencial falar com o doente e família, abordando os medos e as inseguranças de quem vai ser submetido a uma intervenção cirúrgica. Algo com um peso ainda maior quando uns pais têm de entregar um filho ao Enfermeiro Perioperatório para uma cirurgia.

 

Ana Vences, Enfermeira Especialista no Centro Hospitalar Barreiro-Montijo, reforça esta ideia: "Muito embora o Enfermeiro Perioperatório desempenhe um papel muitas vezes desconhecido pelas pessoas e até pelos pares e outros profissionais de outras áreas de cuidados de saúde, sendo aquele que se encontra por trás da máscara, acredito que com a sua proximidade em relação à pessoa e o seu desempenho eficaz e eficiente, pode fazer a diferença, tornando-se altamente influente na tomada de decisão partilhada e assume uma posição de valor acrescentado para todos."

 

Também realça como o bloco operatório pode ter um ambiente um pouco intimidatório pelas suas inerentes e necessárias características: "O bloco operatório é um serviço com elevada complexidade, sempre em desenvolvimento e evolução, mas nós preocupamo-nos em prestar cuidados de enfermagem seguros e com qualidade, centrados sempre naquela pessoa que está à nossa frente - sem esquecer a família -, que se encontra extremamente vulnerável quer fisicamente, pela patologia que têm, pela doença, quer pela anestesia que está a ser submetida. Nós estamos ali para ajudar a evitar complicações."

 

"O bloco operatório é um ambiente desconhecido para a maioria das pessoas, felizmente. Para outras nem tanto. Procuramos atender às suas necessidades, expectativas, aos medos, procurando sempre respeitar os seus valores, crenças e os seus direitos", afirma.

 

A escolha pelo perioperatório


A Enfermeira Ana Vences reforça a importância de o doente ter alguém com quem comunicar, até porque, recentemente, foi submetida a uma intervenção cirúrgica. "Quando estamos do outro lado, apesar de todo o conhecimento que temos e da nossa experiência da prática diária, as emoções estão à flor da pele e esquecemos que somos nós que fazemos aquilo diariamente com outras pessoas", conta.


Tanto Ana Vences, como Sofia Rita não trocariam por nada o que fazem. Mas, curiosamente, foi algo que, no início da carreira, não ponderaram seguir. Contam como não tiveram particular contacto com a especialidade quando tiraram o curso. No caso de Ana Vences estava na área de oncologia quando, em 2007, numa altura em que ponderava mudar, seguiu as pisadas de colegas até ao perioperatório. "Acabei por experimentar e agora não quero outra coisa", recorda.


Sofia Rita recusou por três vezes: "O único motivo foi o desconhecido. Durante o meu curso base, eu passei apenas um dia no bloco operatório, num estágio de observação. Eu não tinha a verdadeira noção do que era ser enfermeira de bloco operatório." Tem 20 anos de carreira, 19 no perioperatório.


"O que me levou a ser Enfermeira Perioperatório foi sobretudo o espírito de missão, o poder acompanhar estas pessoas e famílias em todo este processo e, sobretudo, em situações que considero mais desafiantes para elas, é aquilo que me faz ser enfermeira e, mais especificamente, ser enfermeira no bloco operatório."

 

"Sinto que ser enfermeira de bloco operatório é tentar entender, tentar interpretar cada palavra que é dita por cada pessoa que chega a um bloco que, muitas vezes, não são simples palavras. São pedidos de ajuda, o não a deixar sozinha em nenhum momento, o desmistificar determinadas sensações, determinados medos", refere.

 

As funções

 

Quando se fala de um Enfermeiro Perioperatório, fala-se de diferentes funções. Tudo começa com a consulta de enfermagem de pré-operatório e depois haverá o acompanhamento pós-operatório.

 

No bloco operatório há o enfermeiro de anestesia, enfermeiro circulante (que reúne todas as condições de segurança para que a cirurgia possa decorrer, prepara todos os equipamentos e instrumentos necessários a cada ato cirúrgico), enfermeiro instrumentista (colabora diretamente com a equipa cirúrgica).

 

Tanto Ana Vences como Sofia Rita podem assumir qualquer uma das funções, mas há casos em que alguns enfermeiros – por opção própria ou das unidades de saúde – ficam especificamente com determinada tarefa.


Este processo é para as cirurgias programadas, pois quando há situações de emergência, toda a equipa tem de estar preparada para intervir rapidamente.


Mas há mais um pormenor que é destacado. "A formação contínua é crucial em qualquer área do cuidado, mas assume ainda um papel mais preponderante nos cuidados perioperatórios, pois a evolução é permanente. Todos os dias surgem novas técnicas ou abordagens que requerem uma atualização constante. E os enfermeiros, e muito bem, são muito exigentes no que diz respeito à formação", diz Ana Vences.

 

Casos que marcam

 

Falam sem esconder alguma emoção, principalmente quando recordam momentos que as marcaram. "Acho que as situações com crianças acabam por ser sempre muito mais desafiantes", destaca a Enfermeira Sofia Rita, justificando com os sentimentos que são impossíveis de ocultar, pois além da criança, há também que lidar com a família.


"Nem sempre são situações fáceis de gerir, porque temos de trabalhar com muita emoção envolvida. Há que vivenciá-las, há que sentir, mas ter sempre a noção que temos de realizar as nossas intervenções independentemente daquilo que estamos a sentir, de estarmos tristes com uma situação, de estarmos preocupados. A verdade é que temos de manter as nossas intervenções e executá-las da melhor forma que conseguirmos."


Ana Vences recorda um caso quando estava há pouco tempo no perioperatório, de uma senhora que chegou ao hospital após ter ficado entre um camião e um muro: "Não me esqueço que foi uma agitação completa naquele bloco operatório. Houve logo uma mobilização de toda a equipa para tentar ajudar. Tínhamos cirurgiões gerais, ortopedistas, urologistas na sala. A senhora vinha muito mal, a entrar em choque. Tentou-se cirurgicamente controlar as hemorragias para depois mais tarde ser operado e conseguir-se fazer algo."


"Eu não estava assim há tanto tempo no bloco operatório e dei por mim numa fase, depois de uma grande ação, a pensar ‘e agora, o que vai acontecer a seguir, será que eu consigo dar resposta?’. Damos por nós a ter a ideia que não se domina, não se consegue assumir um bloco assim."


Porém, frisa: "Mas não nos podemos esquecer que somos uma equipa, que estamos sempre acompanhados e que apesar de surgirem dificuldades, obstáculos, em parceria com os restantes elementos, conseguimos ultrapassá-los e alcançar os resultados."


A senhora faleceu já fora do bloco operatório, mas para Ana Vences, assim como as situações difíceis com que Sofia Rita lidou, serviram para evoluir como enfermeiras, dando ênfase ao autoconhecimento para assim estarem preparadas para casos futuros.