Olhar o Presente Perspetivar o Futuro - a Enfermagem de Reabilitação em Debate - 10 de julho de 2015

  • 14-07-2015

A Secção Regional do Sul no dia 10 de Julho, concretizou mais um momento de partilha e debate, desta vez com os enfermeiros especialistas em enfermagem de reabilitação, ao organizar o encontro "Enfermagem de Reabilitação, olhar o presente perspetivar o futuro", o qual envolveu também a Mesa do Colégio da Especialidade de Enfermagem de Reabilitação.
Estiveram presentes cerca de 150 Enfermeiros que puderam conhecer projetos de enfermeiros especialistas de enfermagem de reabilitação, conhecer o trabalho desenvolvido pela Mesa do Colégio da Especialidade de Enfermagem de Reabilitação, bem como participar num debate sobre competências, metodologias de trabalho e cuidados de reabilitação versus cuidados de enfermagem de reabilitação analisando assim o presente para preparar o futuro.

Pela manhã começamos pela exposição do trabalho desenvolvido pela Enfermeira Rosa Gomes intitulado “Um Passo para a Inclusão”, que se traduz num projeto de intervenção precoce com crianças com necessidades de saúde especiais em estabelecimentos de ensino dos 0 aos 6 anos, onde a enfermeira especialista de reabilitação faz a diferença para estas crianças e famílias. Este projeto teve início em 2008, graças à persistência e competência demonstradas, e está em funcionamento 4 horas por semana para as crianças da Unidade de Saúde Familiar da Ramada, realizando um acompanhamento de 36 crianças/famílias em contexto domiciliário. A intervenção da enfermagem de reabilitação pediátrica desenvolve-se na área motora e respiratória, promovendo a autonomia e integração da criança na família e na comunidade, bem como na capacitação da família enquanto cuidadora. Paralelamente, a intervenção da EER passa pela avaliação familiar e como elo mais próximo da família realiza a articulação com os outros técnicos da equipa multidisciplinar e o encaminhamento para os recursos comunitários. A autonomia e precocidade da intervenção da EER são um fator de grande reconhecimento na comunidade, salientando-se que tiveram alta 15 das crianças/famílias e 21 estão integradas em estabelecimentos de ensino com apoio de profissionais de intervenção precoce.

Foi também apresentado pela Enfermeira Susete Amaro, a análise do programa desenvolvido pelos EER do Serviço de Ortopedia do Centro Hospitalar do Oeste, aos utentes submetidos a artropatia cefálica. Este estudo foi aplicado a 156 utentes, internados entre março de 2014 e maio de 2015, submetidos a intervenção EER através de um programa personalizado. A amostra foi constituída por 76,3% de pessoas do género feminino, a maioria (48,1%) com idades entre os 80 e os 89 anos, sendo que a média de dias de internamento após cirurgia foi de 5,3 dias. Os utentes foram avaliados quanto ao grau de dependência, utilizando o Índice de Barthel em vários momentos: antes da queda, pós cirurgia (24/48h) e no momento da alta. Foi identificado que os utentes na sua maioria (37,8%) apresentavam uma dependência leve antes da queda e dependência moderada (39,1%) no momento da alta. Foi ainda identificado que 50,6% dos utentes realiza a marcha no momento da alta. Neste projeto foi possível identificar o impacto da intervenção do EER na diminuição do número de utentes dependentes submetidos a artroplastia cefálica, bem como no número médio de dias de internamento pós cirurgia, comparando com os dados conhecidos da DGS.

A apresentação do projeto “Planeamento de Alta Hospitalar à Pessoa com AVC e o Regresso à Comunidade” foi realizada pela Enfermeira Celina Gomes do Hospital de Vila Franca de Xira. Este projeto, com início em 2011, resulta de um protocolo de cooperação entre o Hospital de Vila Franca de Xira, o Agrupamento de Centros de Saúde do Estuário do Tejo e a Escola Superior de Enfermagem de lisboa, e tem como principais objetivos a definição de estratégias para assegurar a continuidade dos cuidados à pessoa com AVC no regresso à comunidade, a capacitação dos cuidadores da pessoa dependente no domicílio e o acompanhamento telefónico após alta. O resultado conseguido pelo projeto traduziu-se na diminuição dos reinternamentos hospitalares e numa maior autonomia das pessoas vítimas de AVC.

A apresentação com o título “O Impacto do Enfermeiro de Reabilitação na Sustentabilidade do SNS” foi desenvolvida pelo Enfermeiro José Carlos Maio do Centro Hospitalar do Porto, que reportou os resultados de um estudo exploratório-descritivo realizado a utentes submetidos a Prótese Total do Joelho. O estudo demonstrou o impacto da consulta pré-operatória realizada pelos EER, e identificou a necessidade de cuidados de Enfermagem de Reabilitação nos turnos diurnos, com continuidade semanal. O impacto da consulta pré-operatória foi a diminuição do tempo médio de internamento para 6 dias em vez dos 8,4 dias verificados no ano anterior, obtendo-se o ganho de mais de 280,8 dias em camas disponíveis para uma maior acessibilidade dos utentes às cirurgias programadas e traumatologia de urgência, concluindo-se que o EER contribui para a sustentabilidade do SNS, assim seja a vontade política das administrações hospitalares e do próprio ministério da saúde.

Outro momento importante do encontro foi a apresentação da Enfermeira Helena Pestana, secretária da Mesa do Colégio da Especialidade de Enfermagem de Reabilitação, com a exposição do trabalho desenvolvido pela Mesa, abordando o programa formativo para a especialidade de enfermagem de reabilitação; o Padrão Documental dos Cuidados de Enfermagem da Especialidade de Enfermagem de Reabilitação; o Core de Indicadores por Categoria de Enunciados Descritivos dos Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem de Reabilitação e por fim as áreas de Investigação Prioritária para a Especialidade de Enfermagem de Reabilitação. Estes documentos são um suporte importante para a melhoria contínua dos cuidados de enfermagem de reabilitação, tendo por objetivos a prestação de cuidados de qualidade e excelência, a construção e consolidação de saberes, e a afirmação das intervenções específicas do EER. Importa transpor a aplicação destes documentos para a prática clínica nos cuidados do EER, e efetuar uma seleção de alguns indicadores sensíveis ao contexto de cada EER, para assim poder potenciar mudanças nas políticas de saúde. Este trabalho foi desenvolvido com o envolvimento de todos os enfermeiros de reabilitação, com a liderança da mesa do colégio da EER.

No período da tarde, realizou-se o debate "Enfermagem de Reabilitação, olhar o presente perspetivar o futuro" moderado pelo Enfermeiro Alexandre Tomás, Presidente do Conselho Diretivo Regional da Secção Regional do Sul. O painel foi composto pelos seguintes comentadores: Enfermeiro Belmiro Rocha, Presidente da Mesa do Colégio da Especialidade de Enfermagem de Reabilitação; Enfermeiro João Santos, Vice-Presidente da Escola Superior de Enfermagem de Lisboa; Enfermeiro Ricardo Jorge Braga, do Hospital de São José, Centro Hospitalar Lisboa Central; Enfermeira Helena Olhicas, do ACES Médio Tejo, UCSP Abrantes, e Enfermeiro Jorge Coelho, da Unidade de Convalescença da Clínica de São Cristóvão, Lisboa.

O Enfermeiro Belmiro Rocha começou por questionar a plateia sobre o conhecimento dos documentos fundamentais para a profissão e a importância de mobilizar os seus conteúdos para uma melhor afirmação dos enfermeiros. Salientou que a Enfermagem de Reabilitação é o colégio com maior número de enfermeiros, indo ao encontro das necessidades de cuidados de saúde. O envelhecimento da população e o aumento de doenças crónicas e/ou incapacitantes constituem oportunidades para os enfermeiros de reabilitação demonstrarem as vantagens dos cuidados EER, pois depois de se ter cuidados especializados pelo EER, será difícil deixar de os exigir. Mencionou a importância da negociação política para incluir enfermeiros especialistas de reabilitação na comunidade, onde a vantagem financeira para o SNS é garantida. Defendeu que o método de trabalho usado nos diferentes contextos deve ser aquele que permite atribuir ao enfermeiro especialista os doentes com mais necessidades de cuidados de enfermagem de reabilitação. O reconhecimento das competências do EER pelos seus pares é fundamental para se conseguir outros desafios, verificando-se uma necessidade de se formalizarem mais parcerias com instituições de ensino para o desenvolvimento da ciência e afirmação da especialidade. Refere, no entanto, que devemos procurar novos caminhos nos estudos de mestrado no sentido de identificar os ganhos económicos para as instituições com o exercício dos EER. O facto de ser a especialidade com mais enfermeiros pode ser uma oportunidade devendo, no entanto, primeiro procurar-se o reconhecimento de valor nos diferentes contextos, para depois atingir um reconhecimento político.

O Professor João Santos começou por recordar a história da especialidade, a qual sendo historicamente uma carreira estável sem necessidade de prestar provas, enfrenta atualmente o desafio do exercício liberal, com a necessidade de se promover os cuidados de enfermagem de reabilitação. Defendeu também que devemos identificar as ameaças e transformá-las em oportunidades, evitando a perda das mesmas para outros profissionais. Afirmou que os EER são os profissionais melhor preparados para ajudar as pessoas com doenças crónicas e com incapacidade física, promovendo a adaptação e a máxima autonomia. Os enfermeiros especialistas em reabilitação são uma mais-valia pela precoce intervenção nas diferentes situações, sendo responsáveis por uma filosofia de cuidados. O EER deve gerir situações clínicas complexas; promover a educação contínua; criar a máxima independência da pessoa; ser um gestor de caso, com uma visão sobre o que é mais vantajoso para a pessoa. O EER tem nos ensinos que realiza a forma onde pode ter maior visibilidade e ganhos em saúde. O futuro passa por manter um ambiente inclusivo, o das pessoas e das suas famílias, redefinindo objetivos em conjunto com todos os atores. O futuro EER deve responder às exigências, assumir novos papéis de educadores e gestores de caso, desenvolver competências e métodos de trabalho que sirvam as instituições, deve induzir uma cultura de qualidade nas instituições. Refere ainda que a investigação é fundamental, mas que os enfermeiros não se devem limitar a esperar que os resultados tragam mudança, devem ser proactivos, mais sistematizados e mais organizados.

O Enfermeiro Ricardo Braga partilhou a sua visão do método de trabalho, ao afirmar que o EER deve ficar responsável pelos cuidados especializados, pela garantia de qualidade e excelência do cuidar, pois na atual situação que vivemos com a carência de recursos humanos, somos levados a diminuir os cuidados de enfermagem de reabilitação, parecendo que os cuidados de enfermagem de reabilitação são um luxo, que só alguns podem ter. Afirmou também que os documentos que a profissão tem são muito importantes, mas falta evidência científica em algumas áreas de atuação, lançando o desafio para a criação de uma base de dados com informação de trabalhos de enfermeiros. Referiu ainda a importância da Ordem dos Enfermeiros liderar um desenho de investigação sobre os ganhos de EER, num contexto macro no país.

A Enfermeira Helena Olhicas identifica que as reformas dos Cuidados de Saúde Primários (CSP) foram importantes, mas que os enfermeiros de CSP passaram a ter muito mais trabalho, nomeadamente com as altas mais precoces, afirmando que são necessários mais enfermeiros especialistas de enfermagem de reabilitação nos CSP. A população está mais envelhecida e com mais comorbilidades, salientando que a capacitação de cuidadores é um trabalho moroso, mas com grande potencial de ganhos em saúde. Identificou ganhos na referenciação atempada dos doentes com necessidades de cuidados de enfermagem de reabilitação no domicílio, bem como na visita ao domicílio para a preparação da chegada a casa da pessoa depois da alta hospitalar. A intervenção dos EER no domicílio passa por uma avaliação das incapacidades e potencialidades do indivíduo, edificando um programa de reabilitação em parceria com o cuidador e com o doente, validando as competências adquiridas dos cuidadores e reformulando o plano de cuidados oportunamente.

O Enfermeiro Jorge Coelho refere a carência de enfermeiros especialistas de enfermagem de reabilitação nas unidades de internamento da RNCCI, mas identifica ganhos importantes com uma intervenção junto da pessoa e do seu cuidador, pois considera a RNCCI como uma porta para o domicílio, sendo que o sucesso das altas está num programa de reabilitação personalizado à pessoa com doença crónica ou incapacidade física.

No debate foi ainda referido que a reforma dos CSP não dá visibilidade ao EER por falta de instrumentos de registo. Os sistemas de informação não ajudam e faltam indicadores sensíveis aos cuidados do EER para melhor negociação com administrações. A temática da aquisição dos produtos de apoio onde os EER possam prescrever sem necessidades de intervenção de outros profissionais está a ser acompanhado pelo colégio da especialidade. Foi também sugerido que se realizem mais reuniões sobre boas práticas desenvolvidas, pois por vezes o enfermeiro de reabilitação está sozinho no seu contexto. Por fim foi referido que os EER têm de lutar por melhores condições e não nivelar por baixo as suas necessidades, a aposta deve ser nos cuidados na comunidade e numa procura e aproveitamento das oportunidades. Quando são tomadas as decisões devem ser tomadas pelas melhores razões, bem como as zonas cinzentas devem ser geridas no terreno caso a caso.

Assim no final deste encontro temos a garantia que os ganhos em saúde da intervenção dos EER são significativos e que é urgente um maior investimento na qualidade dos cuidados com medidas políticas do governo e das administrações, pois o trabalho dos EER já deu provas dos seus resultados, nos diferentes contextos de uma forma informal, bem como nos estudos e trabalhos realizados pelos EER. Foi também salientado pelo Enfermeiro Alexandre Tomás a importância de rever os modelos de financiamento das instituições. Devem ser incluídos valores como a segurança e qualidade dos cuidados tendo por base a utilização de indicadores sensíveis aos cuidados de enfermagem para o normal financiamento das organizações.

Acreditamos qua o valor da profissão depende do contributo individual de cada enfermeiro no seu contexto laboral, como enfermeiros somos o garante da qualidade e segurança dos cuidados sendo imprescindível o envolvimento de todos.

António Simões
Tesoureiro do Conselho Diretivo Regional da Secção Regional do Sul


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CDR-Sul, 14 de julho de 2015

CDR/AS-mm