Histórias que inspiram

Quatro Décadas de Dedicação à Enfermagem

  • 19-10-2025

 

Manuela Amaral: Uma Vida Inteira a Cuidar e a Transformar a Enfermagem

 

Há percursos que se tornam faróis para todos os que abraçam a enfermagem. A história de Maria Manuela Amaral de Sousa é um desses exemplos. Ao longo de uma vida dedicada a cuidar, formar e transformar, construiu uma carreira marcada pela coragem, pela visão e por um profundo compromisso com a profissão e respeito pelo outro. Hoje, olha para trás com orgulho pela missão cumprida e pela marca deixada nos lugares por onde passou. Entre os muitos momentos que recorda, destaca-se a conquista da autonomia da enfermagem e a sua dignificação, uma vitória que ultrapassa a esfera pessoal e representa um marco para toda a enfermagem em Portugal. O seu legado continua a inspirar gerações de profissionais que veem na sua trajetória a prova de que a dedicação e a determinação podem transformar a prática de cuidar.

 

 

“Falar de uma vivência de 40 anos não é fácil, mas sinto-me uma privilegiada, o meu percurso profissional acompanhou a grande evolução da Enfermagem quer em complexidade e diferenciação de cuidados, quer em reconhecimento social e formativo. Quando comecei a minha carreira, em 1981, a realidade da enfermagem era muito diferente não existia ainda um modelo diferenciador de cuidados, o modelo biomédico dominava, nós fazíamos múltiplas tarefas, mas sem verdadeiro poder de decisão. As mudanças dentro dos serviços eram difíceis, trabalhava-se à tarefa e sobre as ordens médicas, mas as enfermeiras recém-formadas já traziam uma perspetiva diferente do que é ser enfermeiro, sabem questionar e discutir o porquê dos cuidados. Começa a mudança do tratar para cuidar, de ouvir o doente e deste ter direito a dar a sua opinião.

 

 

“A primeira carreira de enfermagem (Dl 305/91, de 13 de novembro) foi um grande passo no reconhecimento científico e social da profissão. Foi no final da década de 70 que nasce o SNS (1979) que consagra o direito à saúde como um bem universal e gratuito e se começa a assistir à valorização social dos enfermeiros, no caminho para a autonomia muito pretendida.” Estas palavras, ditas na primeira pessoa por Manuela Amaral, são o ponto de partida para uma viagem de mais de quatro décadas dedicadas à enfermagem, à ética, à formação e à transformação da profissão em Portugal.

 

 

Nascida em Lisboa a 15 de fevereiro de 1960, Maria Manuela Amaral de Sousa iniciou o Curso Geral de Enfermagem em 1978, na Escola Calouste Gulbenkian, em Lisboa, numa altura em que se começava a valorizar a promoção da saúde e a prevenção da doença começavam a ganhar relevância. A sua primeira experiência prática, foi o levantamento das condições de vida em zonas urbanas e rurais, onde a apenas 20 km de Lisboa, se deparou com realidades de isolamento, analfabetismo, ausência de cuidados básicos de saúde, eletricidade, água canalizada, esgotos - uma vivência que moldou a sua visão sobre o papel social da enfermagem, apesar de ter optado pelos cuidados hospitalares.

 

 

Recorda a sua entrada na enfermagem, contra a vontade paterna, que queria que seguisse Medicina “na altura ser enfermeira ainda não era socialmente muito bem aceite”. Por pressão e compromisso, no 2º ano de enfermagem, iniciou o Curso de Medicina e foi fazendo os dois em simultâneo, tendo desistido no 4ºano, já a trabalhar como enfermeira, “Nunca quis ser médica, queria era cuidar do outro, cuidar dos doentes, estar junto era isso que a enfermagem me permitia.”

Em setembro de 1981, iniciou funções no Hospital de Santa Maria, onde passou por serviços tão distintos como Medicina, Medicina Operatória, Urgência Geral e Cirurgia Cardio-Torácica e Puerpério. Em 1989, iniciou a especialização em Saúde Materna e Obstétrica, concluída em 1990. No ano seguinte, tomou posse como enfermeira especialista na Maternidade Dr. Alfredo da Costa (MAC), onde viria a construir grande parte da sua carreira.

 

 

“Na área da saúde materna, havia grandes lutas e necessidades de reconhecimento e de mudança, mas também havia espaço para discutir ideias e compromissos em equipa. Estávamos na altura da discussão das teóricas de Enfermagem e da construção de planos de cuidados, assim como da classificação de doentes por grau de dependência. Se tivesse que destacar um período no meu percurso profissional era a década de 90 e os primeiros anos do novo século, terminei a especialidade (1990), iniciei funções na MAC (1991), tive oportunidade de abrir um serviço, num novo hospital (Garcia de Orta), com uma filosofia de cuidados diferente, que permitia uma grande autonomia na vigilância da gravidez aos enfermeiros especialistas (1991/93), fui mãe (1992), assisti à grande evolução da Medicina Materno Fetal, terminei o mestrado (1996), assisti à publicação do REPE (1996), que rompe com a subordinação dos cuidados de enfermagem, ao definir a sua autonomia e complementaridade com as outras profissões da saúde e, mais que tudo, o reconhecimento do direito da profissão se autorregular, com o nascimento da Ordem dos Enfermeiros. (1998), iniciei funções de chefia (1999)”

 

 

Como enfermeira chefe/gestora, nestes últimos 25 anos, procurei sempre ver a pessoa por trás do profissional, ir ao encontro das suas necessidades pessoais e familiares para que, quando estão de turno os cuidados sejam a prioridade, nunca concordei com a expressão de que devemos deixar os nossos problemas à porta, para se prestar bons cuidados e entender o outro temos de ser pessoas e não máquinas, os utentes entendem que podemos não estar bem, não entendem a falta de disponibilidade e antipatia. É preciso saber acolher, o respeito vem do exemplo, do reconhecimento. Coordenar uma equipa, é conhecer bem cada um dos seus elementos, as suas competências, os seus pontos fortes e fracos e como os usar para potenciar o trabalho da equipa. Sempre fui exigente com o cumprimento das regras, mas sempre procurei ser justa, sempre gostei de incentivar à formação, ao desenvolvimento profissional, à participação em novos projetos, tal como eu procurei fazer, sempre pensei que é através do saber aliado à experiência que se pode melhorar a qualidade dos cuidados que prestamos e conseguir a necessária satisfação pessoal”

 

Compromisso com a Profissão e com a Mudança

 

Entre 1999 e 2007, desempenhou funções como vogal nacional do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Enfermeiros, contribuindo para decisões éticas e estruturantes da profissão.

“Fazer parte dos órgãos sociais da OE, nos dois primeiros mandatos permitiu-me lidar de perto com algumas das maiores referências da enfermagem portuguesa, as nossas primeiras bastonárias, Mariana Diniz de Sousa e Augusta Sousa, ser vogal e secretariar o plenário e a 2ª secção dos Conselhos Jurisdicionais, presididos por Margarida Vieira e Lucília Nunes, permitiu-me crescer e aprender sobre a profissão não só com os outros membros dos órgãos, mas com enfermeiros de todo o país e Ilhas. Foi um período de muito trabalho, reflexão, exigência e responsabilidade, mas muito gratificante por sabermos estar a fazer caminho”

 

 

“Com a criação da Ordem dos Enfermeiros surgiu uma valorização e responsabilização da profissão, pela proteção daqueles de quem cuida e pelos seus deveres e direitos deontológicos. Ainda assim, sinto que hoje estamos a regredir em vários aspetos: muitos enfermeiros preferem que lhes digam o que fazer, em vez de assumirem a sua autonomia.

 

A sua carreira foi também marcada pela formação, abertura de serviços, integração em comissões organizacionais, em projetos e grupos de trabalho, bem como pela participação na publicação de obras de referência, incluindo o “Código Deontológico do Enfermeiro” e o “Estudo sobre as Condições de Trabalho dos Enfermeiros Portugueses”. Colaborou com escolas de enfermagem e foi formadora nas áreas da qualidade dos cuidados, deontologia profissional e aleitamento materno. Em 1996, concluiu o Mestrado em Ciências da Enfermagem, com uma dissertação sobre a garantia da qualidade dos cuidados de enfermagem -construção e validação de instrumentos de medida.

 

Foi vogal nacional do Conselho Jurisdicional da Ordem dos Enfermeiros entre 1999 e 2007, onde participou na criação de orientações, códigos e estruturas fundamentais para a consolidação da profissão. “Fazer parte da Ordem dos Enfermeiros, sobretudo no Conselho Jurisdicional nos primeiros mandatos, foi um marco importante no meu crescimento pessoal e profissional.”

 

Ao longo de quatro décadas, acompanhou as grandes mudanças da saúde pública em Portugal. Desde a emergência do VIH às transformações na obstetrícia. Durante a pandemia de COVID -19, enfrentou um dos maiores desafios da sua carreira: gerir uma equipa de 21 enfermeiros, 7 auxiliares e uma administrativa, num contexto de isolamento entre grávidas e familiares. “Foi uma fase muito dura, mas também uma prova de resiliência.”

 

 

Manuela sempre acreditou que era preciso lutar por direitos e reconhecimento, sindicalizou-se no primeiro dia de trabalho, apesar de anos mais tarde ter saído por discordância com as posições tomadas, nomeadamente com o fim da carreira consagrada no DL437/91, onde ainda se revê. ”Reconheço que a criação da Ordem trouxe valorização à profissão, mas lamento que hoje muitos enfermeiros prefiram que lhes digam o que fazer, em vez de assumirem a sua autonomia.”

 

A sociedade atual, mais individualista, contrasta com os tempos em que havia espaço para discutir ideias e compromissos em equipa. Ainda assim, Manuela vê aspetos positivos nas novas gerações: “Conseguem investir mais na sua vida pessoal, ao contrário da minha geração, que apostava demasiado na carreira.”

Na área da saúde materna, onde sempre houve grandes lutas e necessidades de reconhecimento de competências, Manuela Amaral defende que os enfermeiros especialistas devem assumir mais responsabilidades, “temos capacidade para dar resposta a muitas das necessidades da população, nesta área, mas devemos fazê-lo porque as nossas competências são reconhecidas e não porque há falta de médicos”.

 

 

“Os últimos anos têm sido de resposta às cada vez mais exigentes necessidades de cuidados e de multiculturalidade da nossa população, definição de padrões de cuidados, regulamentação de cuidados, qualidade, segurança, dotações seguras, tecnologias de informação, formação. Hoje sinto orgulho da carreira que construí. Orgulho de sair com a sensação de missão cumprida, de ter deixado marca nos lugares por onde passei. O mais gratificante é olhar para trás e perceber que fiz parte de um processo de mudança, de luta e de afirmação da enfermagem em Portugal. Nada fiz sozinha e muito agradeço a todos aqueles com quem tive o privilégio de me cruzar. A sociedade e as dinâmicas cuidativas mudaram muito, a tecnologia é muito importante, mas o que não gostaria de ver mudar na enfermagem é a proximidade àqueles de quem cuidamos.”

 

Obras publicadas e legado académico

 

Manuela Amaral é autora e coautora de várias obras de referência:

Garantia da Qualidade dos Cuidados de Enfermagem (1999)

Código Deontológico do Enfermeiro: anotações e comentários (2003)

Estudo sobre as Condições de Trabalho dos Enfermeiros Portugueses (2004)

Código Deontológico do Enfermeiro: dos comentários à análise de casos (2005)

 

Estas publicações abordam temas como a qualidade dos cuidados, a ética profissional, as condições laborais e a autonomia da enfermagem.