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11-02-2026
Dia Mundial do Doente
“Obrigada por me terem tratado e amado tão bem.”
No Dia Mundial do Doente, Luciana recorda o momento em que a sua vida mudou drasticamente. Além da medicina de ponta, foi o amparo da equipa de enfermagem do IPO de Lisboa, que a ajudou a reconstruir não apenas o rosto, mas também a vontade de viver. Longe da sua cidade natal, sem família por perto e marcada pelas restrições impostas pela pandemia de COVID-19, encontrou nesses profissionais a força para continuar a recuperar, o cuidado, a presença e a humanidade, que lhe fizeram companhia na doença e na solidão.
Natural do Porto, Luciana Carvalho Mendes é palestrante e influencer. Tornou-se um rosto conhecido dos portugueses através das suas participações em diversos programas de televisão e entrevistas a órgãos de comunicação social. A sua vida, repartida entre o Norte e Lisboa, viria a mudar de forma inesperada, dando lugar a um percurso público de resiliência e coragem que tem inspirado milhares de pessoas a enfrentar o diagnóstico oncológico com uma nova perspetiva.
A sua história, marcada pela descoberta inesperada de um osteosarcoma na maxila através de uma simples fotografia, é hoje um símbolo da importância da literacia em saúde e da persistência na procura de respostas.
Luciana não é apenas uma sobrevivente; tornou-se uma voz ativa junto de outros doentes oncológicos, dando força a quem está a viver hoje o mesmo caminho que ela percorreu. Defensora da humanização dos cuidados hospitalares, partilha sem reservas as cicatrizes físicas e emocionais de um processo que a levou ao limite. Conheça aqui a sua história:
Foi a tirar uma simples selfie que a minha vida mudou. Olhei para a foto e rapidamente reparei que havia algo de estranho na minha cara, o meu nariz estava ligeiramente alterado no lado esquerdo, fui para a frente do espelho e levantei o lábio, na gengiva vi um ponto branco e pensei “estou com um abcesso”.

Estávamos em pleno covid e foi complicado arranjar dentista mas a muito custo consegui, lá foram muito práticos, disseram-me que era um abcesso e deram-me antibióticos mas não me fizeram efeito. Passei por 4 dentistas que me fizeram as maiores atrocidades dentro da boca até encontrar uma dentista que já tinha estagiado no IPO de Lisboa, e, ao ver o meu estado decidiu fazer uma biopsia e enviar para análise. “Podem-me chamar de louca mas eu quero saber o que isto é” foram as palavras dela.

Após a biópsia, a minha cara inchou muito e eu fiquei em pânico, entretanto o resultado chegou e era maligno, um cancro raro com um nome ainda mais estranho - osteosarcoma. Um cancro raro no osso da minha maxila. Arregacei as mangas e comecei logo a pesquisar sobre ele, queria saber mais, aprender, proteger-me, ter conhecimento mas só me aparecia morte. Mas eu não me resignei, fui mais longe, entrei em fóruns, falei com meio mundo até encontrar vida. Procurei por pessoas que tivessem tido o mesmo diagnóstico e que tivessem saído com vida. E encontrei.

Rapidamente fui encaminhada para o IPO de Lisboa, sem reservas, disseram me iam retirar osso e carne da minha perna para reconstruir a maxila. Eu nem pensei, só quis que o cancro deixasse de viver rent free no meu corpo. Tive dois dias para chorar e chorei intensamente, alinhei as ideias e entrei no IPO com um mindset de cura.
Uma cirugia de 14 horas onde acordei sem andar e sem falar mas tinha compensado pois o cancro tinha saído todo, com margens limpas. Parte de mim sentia-se vitoriosa, a outra evitava o espelho. Tinha a cara super inchada, estava irreconhecível, o tumor tinha saído mas com el tinha levado os meus dentes de cima.

Comecei então a tirar todos os dias às 7 da manhã uma selfie para perceber a minha evolução, fui recuperando a olhos vistos.
Pensava eu estar livre e ir para casa quando veio a notícia de que tinha que fazer quimioterapia de prevenção. Não bastava estar inchada, sem dentes como também ia ficar sem cabelo. O cabelo que ajudava a disfarçar e esconder a minha cara mutilada. Morri por dentro, tive medo. Pensei logo: “agora é que vou ficar feia”.

Sou internada para o primeiro ciclo e não só tenho as cicatrizes na cara como também tenho um ferida aberta enorme na perna com os tendões à vista. Chamo a enfermeira e pergunto quem me vai fazer o curativo ela diz-me que vai chamar duas enfermeiras peritas em feridas, eu que nunca tinha ouvido falar nisso, duvidei.

Passado um pouco chegam à minha cama a Enfermeira Helena Vicente e a Enfermeira Dora Franco e olham para a ferida da minha perna e dizem “que linda”, eu fiquei confusa, como é que poderiam olhar para uma perna deformada e com uma ferida aberta e ousar chamá-la de linda? Mas elas tinham razão pois conseguiram ver beleza no meio do caos. A partir daí, começaram a ser presença assídua na minha vida pois todas as semanas tinha consulta com elas. Eu usava um penso de baixa pressão, o pico 7 e elas mudavam-me o penso e acalmavam-me o coração pois a cada semana que passava a minha saúde ia-se deteriorando.
As enfermeiras do IPO de Lisboa criaram também um grupo comigo no whatsapp onde eu ia mandando os updates sobre a minha perna enquanto estava em casa. Acompanharam o meu processo mesmo depois do expediente.

Um dia, chegaram ao pé de mim com uma prenda, era um anel em prata com uma borboleta. Símbolo de força, beleza e renascimento porque elas acreditavam que eu ia ficar uma linda borboleta. Quando vi, chorei, pelo gesto e por sentir que acreditavam na minha cura quando todos à minha volta ( eu incluída ) acreditavam que eu não ia conseguir. Nunca me esqueci desse gesto. E elas tinham razão, eu voei.

Perdi imenso peso, comecei a andar de cadeira de rodas, perdi o brilho e muitas das vezes perdi a vontade de viver. Eu sou do Porto mas naquela altura vivia em Lisboa, época de covid, estava isolada de tudo e de todos e elas foram a minha família. Lembro-me de uma vez lhes ter pedido para baixarem a máscara para poder ver as suas faces, queria saber como eram para um dia poder agradecer-lhes se passasse por elas na rua.
Porque os curativos não só me curavam a perna como também me iam curando a alma, mostraram-me humanidade na mais pura das formas. Só queriam que eu sobrevivesse.
Foram cruciais na fase mais dura da minha vida, com elas chorei, com elas ri e com elas sobrevivi.
Foi no meio de um hospital virado do avesso por causa do COVID, com pessoas tapadas dos pés à cabeça, só com os olhos de fora, que eu conheci o que era o verdadeiro amor.
Porque o amor não tem que ser só com quem nós conhecemos, o amor está em todo o lado, até num simples curativo.
Obrigada por me terem tratado e amado tão bem.
Luciana Carvalho Mendes
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