Dia Internacional da Saúde Mental - 10 de outubro

  • 10-10-2025

 

 

Em Portugal e na Europa, os indicadores são claros: a saúde mental deteriorou-se de forma preocupante, especialmente após a pandemia. Segundo o Eurobarómetro de junho de 2023, 46% dos europeus enfrentaram problemas psicossociais como ansiedade ou depressão no último ano, sendo estas as perturbações mais comuns. Antes mesmo da pandemia, mais de 84 milhões de pessoas na União Europeia já viviam com algum tipo de doença mental.

 

Perguntemos então se, mais do que reflexões e análises, não será tempo de ação?

 

Sob a égide "Saúde mental em contextos de emergência humanitária”, vejo a obrigação de elencar alguns factos:

A Organização Mundial da Saúde confirma que a pandemia agravou o sofrimento psicológico a nível global, enquanto a Comissão Europeia alerta para as dificuldades no acesso a cuidados especializados. Um em cada quatro cidadãos europeus teve obstáculos ao procurar apoio em saúde mental.

 

 

Em Portugal, a realidade não é muito diferente. Um estudo recente da Escola Superior de Enfermagem de Lisboa (ESEL) revela que a maioria dos portugueses reconhece sofrer de problemas de saúde mental, mas apenas 3% procura terapia. O estigma, a falta de recursos e a dificuldade de acesso continuam a ser barreiras significativas num país onde o sofrimento silencioso ainda é regra.

 

Ora, assumo que parece que vivemos numa emergência de humanidade e não só humanitária. Se não, veja-se:

Pobreza, discriminação, conflitos económico-financeiras, invisibilidade dos mais vulneráveis, alienamento do sofrimento, políticas centradas nos indicadores e não nas pessoas. Um sem número de factos.

 

Parece que se tenta resgatar a humanidade do abismo, mas mantendo tudo igual.

 

Veja-se o exemplo da saúde em Portugal. Os enfermeiros não conseguem exercer a sua profissão de forma digna: quem está na linha da frente, é empurrado para uma realidade que teima em não mudar (há muitos anos). Porque a doença é a abordagem última de um sistema que deveria ser de promoção da saúde. Mas os enfermeiros não o podem fazer. Porquê? Jornadas longas, escassez de recursos, falta de reconhecimento e ambientes de trabalho exigentes contribuem para este desgaste profundo, que tem impacto direto não só na vida dos profissionais, mas também na qualidade dos cuidados prestados à população. Logo, deixa de existir espaço para a qualidade de vida, para o exercício pleno da sua profissão. Mas, mais grave, para dotar a população de uma saúde robusta, responsável, e acima de tudo, de qualidade. Em Portugal, cerca de 42% dos enfermeiros apresentam níveis moderados ou elevados de burnout, quadro caracterizado por exaustão emocional, despersonalização e perda de realização pessoal. O estudo NursesMH Survey 2024, da ESEL, com quase 1900 enfermeiros, mostra que 74,3 por cento percecionam negativamente a sua saúde mental, 87,4 por cento reportam sintomas de ansiedade e insónia, e quase 30 por cento reconhecem sintomas de depressão grave.

 

Devemos intervir nesta realidade, antes que seja tarde de mais.

 

Também no ensino superior há dados preocupantes. Num estudo de 2022-2023 em seis universidades portuguesas cerca de 22,9 por cento dos estudantes relataram diagnóstico de doença mental, quase metade desses casos diagnosticados após a pandemia de COVID-19. Que cuidados na área da saúde mental garantimos para estes jovens?

 

Poderia avançar com mais factos, mas tal como referi no início, é tempo de ação.

 

O enfermeiro especialista em saúde mental desempenha aqui um papel fundamental: é ele quem está capacitado para avaliar, intervir e acompanhar pessoas em sofrimento emocional, promovendo o bem-estar, prevenindo o agravamento das perturbações mentais e apoiando as famílias. Estes profissionais são também agentes de transformação social, ao contribuírem para combater o estigma, promover a literacia em saúde mental e criar ambientes de trabalho mais saudáveis.

 

Mas para tal, é necessário que se mudem as políticas de saúde. Os enfermeiros estão disponíveis, como sempre.

 

Que hoje seja o início do compromisso dessa mudança na saúde e na enfermagem: O enfermeiro especialista em saúde mental e psiquiátrica José Carlos Santos foi designado coordenador clínico da Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico 1411. A mudança começou, tendo a qualidade e o rigor científico como premissa e garantia de segurança e sucesso.

 

Neste Dia Mundial da Saúde Mental,” olhemos para a saúde mental como um direito e uma prioridade coletiva, que não deve ser subjugada por interesses.

 

É essencial olhar para dentro do sistema de saúde e reconhecer que proteger os enfermeiros, aqueles que tantas vezes colocam o bem-estar dos outros à frente do seu próprio, é também um ato de cuidado e de justiça e, acima de tudo, a garantia de um compromisso com a saúde dos cidadãos.

 

Ângelo Marinho

Secretário do Conselho Diretivo Regional