-
14-02-2014
Dia Internacional da Criança com Cancro – 15 de fevereiro – “Heróis todos os dias”
Heróis todos os dias.
Ter um filho com cancro é uma esmagadora experiência de vida para os pais (Kars, et al., 2007), envolvendo toda a família. Confrontados com uma realidade que se veem obrigados a aceitar, do diagnóstico ao início do tratamento não lhes sobra tempo para muito mais do que perguntar: “porquê?”. Uma pergunta que se perpetua ao longo de todo o processo.
Os exigentes esforços de adaptação são visíveis todos os dias nos rostos destes pais e destas famílias. A mudança de hábitos e rotinas impõe-se como uma inevitabilidade, falamos de famílias que se reorganizam, pais, avós e tios que se revezam para acompanhar a criança doente nunca esquecendo os irmãos, quando existem.
O dia-a-dia da criança com doença oncológica é marcado por diversos fatores que desencantam um mundo que se desejaria encantado. São os tratamentos morosos e o quão dolorosos; os internamentos prolongados e tantas vezes inesperados; são “os brancos” que descem, as plaquetas que acompanham e a hemoglobina que vai de arrasto; é a febre omnipresente; são os cateteres (centrais) que deixam de funcionar, os abocaths que se aproximam, que picam… e isso dói! São os pensos e os inúmeros adesivos que colam demasiado ou que descolam; são os antissépticos que estão frios… e arrepia e arde ao mesmo tempo! É a pele que fica mais pálida, é a almofada que rouba cabelos durante a noite… É a comida que não sabe bem, nem apetece; é a boca que dói; é o corpo cansado e dorido; são as saudades dos amigos, das idas à escola, das corridas e dos banhos sem limitações…
Costuma dizer-se, em jeito de comparação, que determinada ação é “tão fácil como tirar um doce a uma criança” pois o mesmo não se poderá dizer face a um sorriso. Por vezes, esse é um verdadeiro desafio: obter um sorriso de uma criança nestas condições.
É neste contexto hostil que se distingue e afigura fundamental a intervenção do enfermeiro. Somos nós que ocupamos uma posição privilegiada por acompanharmos “à cabeceira” a criança e família em todos os momentos desta transição (Meleis, 1994). “Cuidar brincando” é uma das máximas da enfermagem pediátrica, brincar e fantasiar uma realidade tão dolorosa terá de ser um dos principais intuitos da equipa que cuida a criança com doença oncológica. Fazer valer a competência humana, nas mais variadas formas que esta pode assumir, e agir como facilitador deste processo de transição (Meleis, 1994) será o propósito da nossa atuação. Num mundo de “pequenas coisas” mas onde tudo, na verdade, é grande. “Onde só existem heróis”, escreve António Lobo Antunes numa crónica recente sobre o ambiente num serviço de oncologia. Um mundo de crescidos de palmo e meio, de gigantes, de príncipes e princesas… cuja beleza exterior e a alegria interior os distingue e nos contagia. Uma beleza que, à semelhança do que defendia Lavoisier, não se cria, não se perde, apenas se transforma.
Neste dia, em que são reis e não príncipes, fica um registo em nome daqueles que acompanham de perto a batalha travada por estes guerreiros. Heróis todos os dias.
Enfermeira Catarina Bernardo Santos nº 5-E-72996
PA/gm





