Dia Europeu do Enfermeiro Perioperatório

  • 15-02-2026

 

“A nossa maior vitória no Bloco Operatório é aquilo que não aconteceu: o erro que foi evitado.” João Vital

  

Assinalamos hoje o Dia Europeu do Enfermeiro Perioperatório. Para celebrar esta data, a Secção Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros dá voz a dois profissionais da Unidade Hospitalar de Faro (ULSALG) que personificam o rigor, a competência e o compromisso com a excelência: a Enf.ª Leonor Terrasêca e o Enf. João Vital.

 

Num contexto de alta complexidade tecnológica, onde a segurança é construída ao detalhe e em equipa, estes enfermeiros assumem a responsabilidade de garantir cuidados tecnicamente diferenciados e profundamente humanizados. Ambos partilham um percurso de dedicação contínua à especialização, frequentando atualmente o Mestrado em Enfermagem Médico-Cirúrgica na área de Enfermagem à Pessoa em Situação Perioperatória.

 

Da preparação à recuperação, o enfermeiro perioperatório é a presença determinante num dos momentos de maior vulnerabilidade do utente. É neste equilíbrio entre a precisão técnica e o cuidado humano que os nossos convidados constroem, diariamente, a sua prática profissional.

 

Leonor Terrasêca, natural de Matosinhos e licenciada pela ESEP em 2007, iniciou o seu percurso no Hospital do Litoral Alentejano. Desde 2009 integra o Bloco Operatório de Faro, onde alia a experiência clínica à formação avançada na Escola Superior de Saúde Egas Moniz. João Vital: Licenciado pela Escola Superior de Saúde de Beja, consolidou a sua carreira nas diversas vertentes do perioperatório - da anestesia à instrumentação e UCPA. Com formação complementar em Gestão e Liderança, encara a especialização como um compromisso ético inegociável com a segurança dos cuidados.

 

Descubra as motivações, os desafios e a visão destes profissionais sobre a importância da formação contínua num hospital de referência.

 

Leia aqui a entrevista completa

 

 

P: O que vos atraiu na Enfermagem Perioperatória e como tem sido a vossa aposta na formação contínua no Hospital de Faro?

 

Leonor Terrasêca:

“Sou natural de Matosinhos, mas vivi e estudei na cidade do Porto onde conclui a licenciatura em Enfermagem na Escola Superior de Enfermagem do Porto em 2007.

Quando escolhi o curso de Enfermagem, ainda não tinha noção concreta dos desafios que iria enfrentar nem do que verdadeiramente poderia esperar da profissão. O que sabia, e reconhecia em mim, era o gosto pelas áreas da biologia e da psicologia e, sobretudo, a vontade e a capacidade de compreender os outros e de querer contribuir para o equilíbrio e a harmonia. Sem querer soar excessivamente sentimental, foi esse o impulso que, na altura, me guiou.

Não consegui empregar-me na minha cidade, e por isso rumei ao sul. Após uma breve passagem pelos cuidados de saúde primários na cidade de Olhão, findo o meu contrato precário de 3 meses, consegui colocação no Hospital do Litoral Alentejano. Foi no Alentejo que a porta do Perioperatório se abriu para mim, não por escolha, por sorte! Na altura ainda recém-licenciada perante um contexto ainda desconhecido sabia apenas que seria exigente, desafiante e eu estava pronta para me dedicar totalmente. Investi na minha constante formação em áreas que considerava aprimorar para além do curso de base.

Em 2009 mudei-me para Faro, por questões pessoais, onde exerço desde então funções enquanto enfermeira no Bloco Operatório da Unidade Hospitalar de Faro (ULSALG), a minha segunda casa.

Atualmente frequento o Curso de Mestrado em Enfermagem Médico-Cirúrgica na área de Enfermagem à Pessoa em Situação Perioperatória na Escola Superior de Saúde Egas Moniz. Aceitei este desafio, estimulada por parte da minha enfermeira gestora, “arrastada” pelo meu colega João e claro com o total apoio da minha família, uma vez que a deslocação 3 dias por semana de Faro até Almada não é uma decisão que se tome sem o enorme suporte daqueles que nos rodeiam. Resumidamente, o Algarve não nos oferece ainda a formação na nossa área de intervenção, e embora sempre tivesse feito parte dos meus planos de vida, não tinha ainda surgido a oportunidade para abraçar este novo desafio até agora.”

 

João Vital:

“A minha jornada na Enfermagem Perioperatória não foi um acaso, mas uma escolha. Nasce do fascínio pelo rigor e pela complexidade de um ambiente altamente tecnológico onde a precisão é a norma. Mais do que a multiplicidade técnica, atraiu-me a responsabilidade de ser o último recurso de segurança da pessoa num momento de total vulnerabilidade e inconsciência, onde cada gesto conta e onde a segurança é construída pelo detalhe.

A minha aposta na formação contínua tem sido uma via de dois sentidos, entre a iniciativa pessoal e a capacidade de resposta à exigência crescente do nosso serviço e de um centro hospitalar de referência.

Para quem vive a realidade diária de um serviço com este nível de exigência a especialização não é apenas um destino, mas também um compromisso ético. Pois para prestar cuidados de excelência num bloco moderno, a atualização sobre as novas tecnologias e protocolos de segurança deve ser continua, constante e proativa.”

 

 

P: O que distingue a Enfermagem Perioperatória de outras áreas da enfermagem, tendo em conta a complexidade técnica e a vulnerabilidade da pessoa em contexto cirúrgico?

 

Leonor Terrasêca:

“Antes de abordar a especialidade do Perioperatório, é importante esclarecer que este termo se refere ao período que começa com a indicação cirúrgica e se estende até à recuperação e reabilitação da pessoa, permitindo a sua reintegração na vida diária e na sociedade.

Vou-me focar mais na intervenção dos enfermeiros em contexto de Bloco Operatório, que é a minha área de intervenção. Ser enfermeiro neste contexto é de extrema exigência, centrado sempre na individualidade da pessoa, cada vez mais focada na capacidade de empoderar o doente, adaptando individualmente cada caso tão único, neste período de vulnerabilidade máxima.

O Enfermeiro de BO atua em diversas valências, desde a área da visita pré-operatória, acolhimento no BO, participação no ato anestésico, preparação antecipada de todo o material necessário para a intervenção cirúrgica, participação no ato cirúrgico, até aos cuidados no pós-operatório imediato, podendo inclusivamente participar nas recentes equipas de Dor Aguda no Pós-operatório.

Somos responsáveis por acompanhar a pessoa desde que dá entrada até ao momento da sua saída do BO, cumprindo o nosso dever de advocacia e de proteção da sua vontade. Não posso deixar de referir o conceito de “Consciência cirúrgica”, constante no nosso regulamento das competências específicas na área do perioperatótio, que é a capacidade ética e moral que nos orienta na nossa prática agindo em benefício da pessoa independentemente de fatores externos. Em resumo, a consciência cirúrgica é o compromisso ético interno que me permite sair do BO ao fim do turno com a certeza de que não comprometi, em momento algum, a segurança de quem confiou a vida às minhas mãos.

Importa destacar que o BO é um local de tecnologia de ponta, onde a preocupação mundial com a segurança transformou a nossa prática. Recentemente, disseram-me em tom de brincadeira que os enfermeiros peioperatórios são “viciados em check-lists”. Eu confirmo. A nossa especialidade, em constante crescimento, inspira-se nos protocolos de segurança da Aviação civil e Marinha para garantir que nada falha. Para nós, cada check-list é um passo em direção ao nosso único objetivo: Cirurgia Segura e Erro Zero.

A Enfermagem Perioperatória transcende a simples humanização do ambiente cirúrgico, fundamenta-se no rigor científico e na atualização constante. Esta área exige um forte compromisso com a Segurança do Doente e a Gestão do Risco, integrando a Prevenção e Controlo de Infeção como prioridades. A excelência destes cuidados sustenta-se numa comunicação eficaz, num trabalho de equipa coeso e numa cultura de melhoria contínua.”

 

 

João Vital:

“O que nos distingue verdadeiramente é a gestão da empatia neste ambiente técnico e a nossa intervenção durante a situação de vulnerabilidade absoluta da pessoa.

Enquanto em outras áreas a enfermagem capacita a pessoa para o autocuidado tornando-a parte ativa do processo, no Bloco Operatório a pessoa deposita em nós a sua vida, consciência e dignidade. Nós somos os seus olhos, a sua voz e a sua proteção enquanto esta está privada de consciência.

 

Diferencia-nos a capacidade de aliar uma alta tecnicidade e rapidez de decisão que dominamos com rigor, a um cuidado humanizado que, embora invisível para quem vê de fora, é absolutamente vital para quem está na mesa de operação. Atuamos na segurança cirúrgica, na preparação e antecipação de necessidades de material, na antecipação de possíveis complicações ou situações de risco, na vigilância constante ou na proteção da pessoa no posicionamento. Somos elementos decisivos num marco importante do processo de cura da pessoa que é o primeiro passo para a recuperação do seu estado de saúde.

Não cuidamos apenas de uma patologia cirúrgica, gerimos um ecossistema de risco para garantir que a dignidade e segurança da pessoa permanecem intactas durante todo o percurso.

O ambiente físico em Bloco é fechado, mas o nosso olhar sobre a pessoa é holístico e focado nos detalhes que salvam vidas.”

 

 

“No Bloco Operatório a pessoa deposita em nós a sua vida, consciência e dignidade. Nós somos os seus olhos, a sua voz e a sua proteção enquanto esta está privada de consciência.” João Vital

 

 

P: Num ambiente tão exigente como o Bloco Operatório, como se traduz na prática a colaboração e o trabalho entre equipas e de que forma essa sintonia influencia a segurança do doente?

 

 

Leonor Terrasêca:

“É com orgulho que digo que estamos num momento de viragem, pois a recente remodelação e inauguração do nosso Bloco Operatório veio dotar o Algarve de infraestruturas modernas e diferenciadas. Mas as paredes novas, por si só, não garantem qualidade; é o nosso trabalho que lhes dá vida.

Na saúde ninguém trabalha sozinho, e no ambiente crítico de um Bloco Operatório, a coesão é o nosso maior fator de segurança. A excelência dos cuidados perioperatórios não depende de atos isolados, mas de uma equipa multidisciplinar sincronizada. É importante destacar que este investimento na qualidade é um esforço coletivo.

No Bloco Operatório, ambiente conhecido como restrito, é o local onde se cruzam múltiplas classes e especialidades profissionais, desde os enfermeiros aos técnicos auxiliares de saúde, médicos anestesistas, médicos cirurgiões, técnicos de diagnostico e terapêutica, farmacêuticos, terapeutas da fala, técnicos do serviço de aprovisionamento, tudo peças essências para o seu funcionamento, uma cadeia com múltiplos elos a trabalhar apenas com um único objetivo: oferecer os melhores cuidados de saúde.”

 

 

João Vital:

“No Bloco Operatório, o conceito de (Eu) dá lugar a um (Nós). Embora exista uma hierarquia funcional necessária, a responsabilidade pela segurança é rigorosamente partilhada por todos os elementos da equipa multidisciplinar.

A nossa colaboração manifesta-se através de uma consciência situacional partilhada em que todos sabemos, a cada segundo, em que fase estamos da cirurgia e o que pode falhar a seguir.

A nossa sintonia, tanto pessoal como profissional, tem um impacto direto e mensurável, ela reduz o stress, o ruido, o tempo cirúrgico é otimizado e o erro não encontra espaço para se propagar, pois, é intercetado pela vigilância da equipa antes de chegar à pessoa.

Esta colaboração manifesta-se também na antecipação, um enfermeiro instrumentista que conhece o cirurgião antecipa o passo seguinte, bem como um enfermeiro circulante em sintonia tem a capacidade de ler sinais e antecipar alguma necessidade sem que o instrumentista precise de verbalizar. Essa sintonia pessoal e profissional funciona como uma rede de segurança adicional.

Uma cirurgia de sucesso é o decorrer de intervenções executadas em harmonia por todos os profissionais numa sala onde há tecnologia complexa, prazos curtos e decisões críticas.”

 

 

P: O que vos motiva diariamente a continuar nesta área e que significado tem, para cada um, entrar no Bloco Operatório todos os dias?

 

 

Leonor Terrasêca:

“Todos os dias escolho a Enfermagem do Perioperatório, escolho procurar novos conhecimentos nesta área, a minha motivação atualmente é a convicção de que os algarvios e os milhares de visitantes que o Algarve acolhe anualmente, merecem cuidados perioperatórios de excelência, ao mesmo nível de qualquer grande centro nacional. A geografia não pode ser uma barreira à qualidade. Por isso, apesar da escassez de formação especializada na região, nunca me acomodei. O meu percurso, desde as inúmeras formações em serviço até à atual frequência do Mestrado, reflete essa busca incessante por trazer o melhor conhecimento técnico para dentro das nossas salas operatórias.”

 

 

João Vital:

“O que me motiva diariamente é o desafio constante que é o exercício profissional em contexto de Bloco Operatório. Muitas vezes, a nossa maior vitória no Bloco Operatório é aquilo que não aconteceu. É o erro que foi evitado, a complicação que não chegou a surgir porque estávamos um passo à frente.

Entrar no bloco é saber que, naquele dia, vamos ser determinantes na mudança do percurso de saúde de alguém. Houve momentos marcantes, desde cirurgias de urgência onde a coordenação e atuação breve da equipa salvou uma vida em minutos, até ao simples agradecimento da pessoa no pré-operatório que confia em nós ou de um familiar/pessoa de referência que fica tranquilizada ao ser notificado que a pessoa se encontra bem e confortável.

É esta combinação de adrenalina relacionada à parte técnica com o privilégio de sermos os últimos rostos que a pessoa vê antes de adormecer que me faz dizer: “É isto que quero fazer!”.

 

 

P: Como perspetivam a evolução da Enfermagem Perioperatória no Hospital de Faro e que mensagem gostariam de deixar aos enfermeiros que ponderam seguir este caminho?

 

 

Leonor Terrasêca:

“A nossa população residente chega a triplicar no verão, ultrapassando o milhão de pessoas. Isto significa que o nosso Bloco Operatório deixa de ser um serviço regional para se tornar, na prática, um hospital de grande afluência gerida diariamente. Recebemos picos de afluência na urgência que se convertem imediatamente em pressão cirúrgica, desde a traumatologia rodoviária e de lazer até à patologia aguda em turistas que, longe de casa, precisam de nós. Gerir este aumento de afluência, muitas vezes com barreiras linguísticas e culturais, exige de nós uma flexibilidade e uma resistência que poucas outras regiões enfrentam com esta intensidade.

O nosso Bloco Operatório proporciona cuidados de excelência, suportados pelas mais recentes tecnologias e abrange múltiplas especialidades cirúrgicas. A equipa de enfermagem está totalmente dedicada a prestar cuidados de saúde de acordo com os mais elevados padrões de qualidade. A segurança no perioperatório constrói-se nos pormenores e no estrito cumprimento das normas. É esta cultura de segurança que transmitimos aos novos colegas, garantindo que o elevado padrão de qualidade se mantém para todas as pessoas que recorrem ao nosso serviço.

Não poderia estar mais feliz pelo convite para celebrar, através das nossas palavras, o Dia Europeu do Enfermeiro Perioperatório. É uma oportunidade única de abrir as portas do nosso “mundo fechado” e mostrar a dedicação que existe em cada procedimento. Falar sobre o que fazemos no Hospital de Faro é falar de segurança e de superação. É um privilégio sermos porta-vozes desta missão num dia tão simbólico para os Enfermeiros do Perioperatório.”

 

"Mais do que a multiplicidade técnica, atraiu-me a responsabilidade de ser o último recurso de segurança da pessoa num momento de total vulnerabilidade e inconsciência, onde cada gesto conta e onde a segurança é construída pelo detalhe." Leonor Terrasêca

 

João Vital:

“Vejo o futuro da enfermagem perioperatória no Hospital de Faro com grande otimismo, focado na inovação tecnológica, na diferenciação e humanização dos cuidados.

Aos novos enfermeiros, deixo um desafio: não temam a complexidade do Bloco e não se deixem intimidar pelas máquinas. Procurem a excelência técnica, mas nunca deixem que o metal dos instrumentos vos arrefeça o coração. A técnica aprende-se, mas a atitude ética e o espírito de equipa são o que realmente define um enfermeiro de referência.

 

O bloco operatório exige uma resiliência enorme e uma atenção ao detalhe quase obsessiva, mas oferece em troca a gratificação única de participar no momento crítico e determinante do processo de cura. Ser enfermeiro perioperatório é dominar a arte de manter a calma no centro do furacão, garantindo que, para a pessoa, aquele momento seja apenas o início de uma recuperação segura, é parte de quem somos, por isso apesar do cansaço trabalhamos todos os dias com a certeza de que fazemos a diferença na vida de alguém.