Dia Nacional do Doente com AVC

  • 31-03-2026


Com um percurso maioritariamente dedicado às neurociências, Pedro Martins Rego é o atual Enfermeiro Gestor da Unidade Cerebrovascular e Neurorradiologia de Intervenção da ULS São José.

O seu vasto currículo alia a prática clínica hospitalar intensiva - com 16 anos na UCI Neurocirurgia do Hospital de Santa Maria - à integração do cuidar nos cuidados de saúde primários, onde também prestou funções durante 10 anos.

Mestre em Enfermagem Médico-Cirúrgica, e com a licenciatura em Psicologia Clínica e Pós Graduação em Gestão Hospitalar, o seu foco atual centra-se na coordenação e gestão dos cuidados especializados à pessoa com AVC, e na otimização do circuito crítico da Via Verde AVC, onde a liderança da enfermagem pode fazer a diferença e ser o motor para a prestação de cuidados de excelência, na fase aguda (tratamento fibrinolítico e endovascular) e recuperação da pessoa com AVC.

Nesta data em que celebramos o Dia Nacional do Doente com AVC, apresentamos o seu testemunho.

“Cada Minuto Conta: A Liderança e o Impacto Decisivo dos Enfermeiros”

Todos os anos, o Dia Nacional do Doente com AVC convoca-nos para uma reflexão sobre uma das maiores ameaças à saúde pública em Portugal.

 


Em 2026, os dados permanecem um desafio: o AVC continua a ser uma das principais causas de mortalidade e a maior fonte de incapacidade no nosso país. Estima-se que existem 12 milhões de casos por ano, sendo que 1 em cada 4 pessoas irá ter um AVC na sua vida.

 

Estes dados alarmantes não podem ser desvalorizados, e como tal, a mensagem da Organização Europeia de AVC ecoa com mais força do que nunca: “Tempo é cérebro e Cada Minuto Conta”.

Prevenção: Onde a Batalha Começa...

 

A evidência científica é magnânime: muitos AVC podem ser evitados. O controlo da hipertensão, diabetes, sedentarismo e tabagismo são os pilares da prevenção.

No entanto, assistimos hoje a um fenómeno alarmante: por um lado forte iliteracia da população e um aumento de casos em adultos jovens.

 

Este novo perfil epidemiológico exige campanhas de literacia mais agressivas e uma vigilância comunitária constante, programas de articulação entre cuidados hospitalares e cuidados primários mais eficientes, e uma aposta clara onde o rastreio precoce e a integração de cuidados assuma a nossa melhor defesa.

 

No AVC, a rapidez é o fator que separa a recuperação da incapacidade profunda.

A cada minuto de oclusão, estima-se a perda de cerca de 1,9 milhões de neurónios... 120 milhões numa hora!

A Escala dos 3 F’s (Alteração da Face, Força ou Fala) continua a ser uma ferramenta eficaz de alarme para a população em geral, e que na presença de alguma alteração deve obrigar ao contato de imediato com o 112.

Não obstante, a prática clínica revela-nos que a maioria da população não aciona os meios devidos de emergência.

Consequentemente este atraso pode comprometer as janelas terapêuticas vitais, como a trombólise e a trombectomia, aquando a oclusão de um grande vaso.

 

Qual o papel do Enfermeiro: Desde a Prevenção à Reabilitação


O papel do enfermeiro torna-se vital e condutor em toda a cadeia de cuidados. Estes profissionais não são apenas prestadores de cuidados; são gestores de cuidados e arquitetos da recuperação funcional.

Na comunidade, o enfermeiro é um educador por excelência, capacitando cidadãos para o controlo de riscos, para adoção de estilos de vida saudáveis e para o reconhecimento dos sinais de alerta - como já refereciando pivotal para a adoção do melhor tratamento e consequentemente obtenção de melhores resultados funcionais.

Na Fase Aguda (Via Verde): A intervenção do enfermeiro é crítica. Inserido numa equipa multidisciplinar e ciente do seu papel e valor, ele assume um papel de extrema importância na avaliação neurológica, na monitorização contínua da pessoa com AVC e no tratamento fibrinolítico e endovascular, contribuindo para a obtenção dos tempo porta-agulha e porta-punção definidos pelas orientações internacionais, e consequentemente indicadores clínicos dos tratamentos realizados.

 

Na Reabilitação Especializada, a presença de uma equipa de reabilitação é igualmente fulcral para a obtenção dos melhores resultados funcionais. O enfermeiro especialista em reabilitação inicia por norma o seu trabalho 24h após o evento vascular e havendo estabilidade hemodinâmica da pessoa com AVC, combatendo deste modo aos sequelas instituídas, e preparando a pessoa com AVC e a família para a sua recuperação da funcionalidade e autonomia , e o seu regresso ao contexto familiar e social.

 

A luta contra o AVC exige uma resposta integrada e rápida!

 

Como profissionais de saúde, sabemos que o sucesso clínico não depende apenas da tecnologia, mas da organização dos circuitos e da diferenciação das equipas.
Os enfermeiros, pela sua presença constante e conhecimento especializado, são o elemento diferenciador que humaniza e procura tornar eficiente e integrativo o percurso da pessoa com AVC no hospital e a sua integração na comunidade.

Neste Dia Nacional do AVC reforçamos por isso o maior compromisso: investir na enfermagem e nos enfermeiros, porque sabemos o quão são essenciais no circuito do doente.

 

Quando cada minuto conta, cada Enfermeiro, cada especialista em Enfermagem Médico-cirúrgica, cada especialista em Enfermagem de Reabilitação, sabe do seu papel, da sua importância, do seu valor. E acima de tudo, sabe que faz e pode fazer a diferença no cuidar a pessoa com AVC.

 

 

Pedro Martins Rego
Especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica e Enfermeiro Gestor na ULS São José