Diploma com bilhete de avião

  • 09-06-2022

Enfermeiro, 38 anos, residente em Nova Iorque, EUA, Paulo Reis partiu há sete anos em busca de novos desafios profissionais e pessoais. Em Portugal "não havia carreira profissional e a atratividade remuneratória e de condições de trabalho era muito baixa", disse-nos. Natural de Arcos de Valdevez, Paulo Reis conta-se entre os mais de dois mil enfermeiros que, nestes últimos dois anos, desencantados em sua pátria, optaram por exercer a profissão num país estrangeiro. A SRSul, neste Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades das Portuguesas na diáspora, abraça todos os enfermeiros que, por muitas circunstâncias, muitas delas relacionadas com o reconhecimento social da própria profissão, foram sonhar noutras paragens.

 

Embora nascido no distrito de Viana do Castelo, Paulo Reis formou-se na Escola Superior de Enfermagem de Bissaya Barreto. "Fui para Coimbra por nenhuma razão especial. Fui ao acaso. Não conhecia lá ninguém", confessa. Foi e gostou. Já à distância, e convivendo hoje com distintas formações profissionais, afirma com convicção: "Sim, gostei da formação académica, gostei muito do curso em si. Acho que era - e deve continuar a ser - um curso muito completo".

 

Terminada a licenciatura, em 2006, rumou a Lisboa, iniciando o seu percurso profissional no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central, deambulando entre S. José e os Capuchos.

 

Em 2015 partiu para Londres. "Os salários eram baixos e, olhando em volta, via que as pessoas como eu estavam a emigrar. Alguns dos meus amigos partiram e eu também parti. Resolvi, na altura, ir para Londres".

 

Os planos não apontavam Inglaterra como primeiro destino além fronteiras. A ideia inicial era viajar para os EUA onde residem alguns familiares. No entanto, as dificuldades burocráticas para obter um visto de residência levou-o a preferir a Europa.

 

Paulo Reis recorda as terras de Sua Majestade como uma experiência profissional interessante que durou apenas três anos. Conforme contou, em termos profissionais a carreira era mais aliciante. Por exemplo - referiu -, "ao nível dos rácios profissionais a realidade é totalmente diferente; o mesmo acontece ao nível do reconhecimento profissional, não apenas por parte da sociedade, mas também em termos remuneratórios; as possibilidades em termos de Enfermagem Avançada, de futuro profissional dentro da Enfermagem Avançada, como os nursing practitioners, que há em Londres e que também há aqui [EUA]. Tudo isso me parece muito mais atractivo do que a realidade em Portugal".

 

Em 2018 partiu para os EUA. Começou por se fixar em New Hampshire e desde há sete meses em Nova Iorque.

 

O exercício da Enfermagem Avançada é um dos focos que Paulo Reis mais destaca na sua realização profissional. Conforme explicou, nos EUA existem várias categorias de Enfermagem Avançada - clinical nurse specialist, nurse practitioner, entre outros -, que é regulada pela American Nurses Association. "Os enfermeiros têm uma formação não só teórica mas também de prática clínica, que nos permite exercer essas funções de forma segura e prestando cuidados diferenciados", disse-nos.

 

Por exemplo: "Eu trabalhei no hospital comunitário em New Hampshire, que era um hospital pequeno mas fazia cirurgias invasivas, e o enfermeiro anestesista era responsável pelo tempo de cirurgia completa. Não havia um médico anestesista por trás."

 

Também ao nível dos cuidados de saúde primários, a Enfermagem Avançada faz a diferença. "Os enfermeiros trabalham de forma independente, tem um consultório onde as pessoas se deslocam. O enfermeiro diagnostica, trata, faz follow up  de doenças crónicas". Esta prática também adveio da falta de médicos. "Para que as pessoas pudessem aceder aos cuidados de saúde primários começaram a ser criadas estas áreas de Enfermagem Avançada", explicou Paulo Reis. E adiantou: "Em cuidados críticos - a área em que eu trabalho - há um enfermeiro, um nurse practitioner, que durante a noite fica a dar suporte à unidade. Pode pôr linhas centrais, pode pôr linhas arteriais, pode pôr drenos torácicos. Claro que tem sempre a equipa médica por trás e se houver algum problema, alguma dúvida, alguma situação mais séria, eles estão sempre em contacto. Mas os enfermeiros tem essa formação, este treino, esta prática clínica, que lhes permite desenvolver estas competências".

 

Segundo Paulo Reis, o sistema de saúde em que trabalha, relativamente a Portugal, é menos hierarquizado, com menor distinção entre profissionais. "As pessoas confiam. Não está em causa o facto de se tratar de uma carreira profissional ou de outra. As pessoas confiam nos cuidados prestados pelos enfermeiros". Porque, afirma, "o reconhecimento social da carreira de enfermagem aqui é visível".

 

Voltar a Portugal é uma hipótese?

 

"Pessoal e profissionalmente estou vivendo uma experiência diferente. Eu penso que é muito positivo, gosto de estar aqui, tenho família relativamente próximo, o que também é um factor preponderante. O meu plano era ter vindo logo para cá e não para Londres."

 

Paulo Reis sente-se bem acolhido em Nova Iorque. "Nós somos reconhecidos pela nossa boa formação. Por isso, a integração foi muito fácil e as pessoas são extraordinárias".

 

Por outro lado, adianta: "É injusta a forma como os enfermeiros são tratados em Portugal. O trabalho não se traduz uma remuneração adequada em termos de carreira profissional. Comparativamente com outros países na Europa ficámos muito aquém." Além disso, acrescenta, "existem lobbies e interesses que hierarquizam muito as carreiras e isso, se calhar, tem também impacto na evolução da carreira de enfermagem e naquilo que nos é ou não permitido fazer".

 

Embora nada o prenda aos EUA, até porque vive sozinho, Paulo Reis é peremptório: "Gosto muito de Portugal, é o meu país, quase toda a minha família está aí; a nível pessoal sim, mas a nível profissional penso que não estão reunidas as condições, neste momento, para regressar."

 

Neste Dia de Portugal, de Camões, e das Comunidades Portuguesas, a SRSul, com o seu Conselho de Enfermagem Regional, presta homenagem a todos os enfermeiros que por esse mundo fora valorizam e dignificam a Enfermagem com identidade portuguesa, deixando aqui os votos para que um dia vejam criadas as condições, ao nível da carreira profissional, para que possam regressar ao país que os fez profissionais de excelência elevada.

 

“Portugal não pode continuar a desperdiçar as novas gerações de talentos. Temos de oferecer uma carreira aos enfermeiros e não um bilhete de avião”, advertiu o Enfermeiro Sérgio Branco, presidente da SRSul.