Cristina Ritto: “Uma Vida Dedicada à Enfermagem (na primeira pessoa)”

  • 04-12-2025

 

Nesta edição da rubrica "Histórias que Inspiram" damos a conhecer Cristina Ritto, uma enfermeira que dedicou quase quatro décadas ao Instituto Português de Oncologia de Lisboa e que construiu um percurso profundamente marcado pela entrega, pelo rigor e pela humanização dos cuidados. O seu caminho profissional atravessou várias áreas, desde a Cirurgia Geral à primeira Unidade de Transplante de Medula Óssea do país, passando pela Unidade de Técnicas de Gastroenterologia, até encontrar na Unidade da Dor o espaço onde permaneceu vinte e seis anos e onde descobriu a sua verdadeira vocação. Ali, entre ciência e sensibilidade, dedicou-se a aliviar o sofrimento de doentes oncológicos através do conhecimento, da proximidade e da escuta atenta.

 

Reconhecida e acarinhada pelos colegas, destacou-se tanto na prática clínica como na docência, na investigação e na coordenação de equipas. Foi impulsionadora de iniciativas pioneiras, como a criação de uma linha telefónica de apoio direto a doentes com dor e suas famílias, hoje conhecida como Consulta Telefónica de Enfermagem, a implementação da dor como quinto sinal vital e a elaboração de manuais de boas práticas no contexto do Instituto Português de Oncologia de Lisboa.

 

Com mais de quarenta e quatro anos de profissão, Cristina Ritto abraçou a Enfermagem desde 1979, com a determinação de cuidar de forma competente, humana e profundamente presente. A sua carreira é um testemunho inspirador de como a Enfermagem pode transformar vidas, não apenas pelo domínio técnico, mas pela capacidade de estar ao lado de quem sofre. Ao longo de décadas, construiu um legado de excelência, de conhecimento e de humanidade que marcou profissionais, doentes e famílias, e que continua a iluminar o caminho de todos os que acreditam que cuidar é também um ato de amor.

 

Nasci em Lisboa a 5 de julho de 1960. Desde a adolescência sonhava ser médica em qualquer um dos países africanos mais desfavorecidos, no sentido de ajudar populações tão carenciadas de cuidados médicos.

 

O Ano Propedêutico (equivalente atualmente ao 12.º ano) trocou-me as voltas. Os exames finais arruinaram-me a média do Ensino Secundário necessária à ambicionada entrada na Faculdade de Medicina.

 

Os meus pais insistiram para que repetisse o famigerado ano, mas receei que o desastre se repetisse e, numa noite, decidi a minha vida profissional. Com base nas excelentes informações fornecidas por uma prima sobre uma das Escolas de Enfermagem de Lisboa, dois dias depois inscrevi-me na Escola Técnica de Enfermeiras, com vínculo profundo ao IPO de Lisboa, iniciando o Curso de Enfermagem em outubro de 1979 e terminando-o em novembro de 1983 (o curso já tinha a duração de quatro anos).

 

Em boa hora o realizei. As matérias lecionadas e os estágios permitiram-me perceber que, sendo o meu sonho cuidar e ajudar pessoas doentes, a decisão tomada tinha sido a certa. A partir daí, cuidaria delas de uma forma ainda mais próxima.

 

Em janeiro de 1984 iniciei funções no Serviço de Cirurgia Geral do Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide. Adquiri experiência na área, senti que ajudei alguns doentes física e emocionalmente, mas a Relação de Ajuda — tão interiorizada no Curso e que implicava, antes de mais, compreender a vivência da doença — nem sempre era alcançada. A colheita de dados, mais tarde designada de Entrevista de Enfermagem, era exígua e não estruturada. O modelo biomédico dominava. Percebi que precisava de mais.

Em meados de 1986, soube que iria iniciar-se no IPO de Lisboa a 1.ª Unidade de Transplante de Medula Óssea (UTM) do país.

 

No início de maio de 1987 integrei o grupo de enfermeiros selecionado para a UTM, que recebeu formação intensiva, médica e de enfermagem, sobre transplante de medula óssea. A complexidade de todo o processo antes, durante e após o transplante, sobretudo a necessidade dos doentes de isolamento protetor, com novas aprendizagens e métodos de trabalho, foi sempre suportada por Normas de Enfermagem escritas durante a preparação do Serviço, por uma Enfermeira Chefe que se revelaria ímpar — exigente, próxima e inspiradora. Essa liderança proporcionou ao grupo de enfermagem a segurança tão necessária e que, ao longo do tempo, fez a diferença.

 

 

A 20 de maio de 1987 abriu a UTM e coube-me a mim ir à Pediatria buscar a 1.ª criança a ser transplantada. Trouxe-a ao colo, para estabelecer uma relação mais próxima. Nunca esquecerei esse dia: o rostinho risonho, sentindo-se importante, os olhos vivos, observando tudo pela primeira vez. Devia sentir-se assustado, mas não o demonstrou, colaborando em tudo o que lhe pedia. Eu, por dentro, sentia a ansiedade misturada com o orgulho de participar num projeto daquela dimensão.

 

Os primeiros tempos foram duros, alguns doentes não sobreviveram, mas a equipa médica e de enfermagem manteve-se unida, resiliente, e pouco a pouco chegaram melhores resultados. Bebíamos conhecimento, aplicávamo-lo na prática e avaliávamos os resultados, sempre no sentido da melhoria dos cuidados.

 

Recordo muitas vezes o “tornado” emocional que era cuidar daqueles doentes e famílias: o medo da falha do tratamento aliado à esperança de cura, as perguntas diárias sobre os resultados analíticos, o sofrimento inerente aos procedimentos, a saturação do isolamento tantas vezes prolongado… Por vezes senti os meus recursos internos esgotarem-se, sobretudo quando a situação clínica não era linear e as perguntas aumentavam. Nessas noites de vigília, de mão dada com crianças e adultos, a minha presença consistia em transmitir-lhes que não estavam sós e que toda a equipa lutava por eles.

 

A consulta de enfermagem integrou o Serviço desde o início, tanto na fase pré como na fase pós-transplante. Aí permaneci durante um ano após ter sido mãe, e a experiência foi também extremamente enriquecedora. Os principais sentimentos dos doentes, em diferentes fases, eram quase sempre de receio e de esperança. Essa vivência seria fundamental para outra consulta que abracei alguns anos depois.

 

 

Em junho de 1993, por continuar a necessitar de um horário fixo, por motivos familiares, passei a integrar a Unidade de Técnicas Endoscópicas do Serviço de Gastrenterologia da instituição. No início como enfermeira de prestação de cuidados e, mais tarde, como enfermeira coordenadora. Foram duas aprendizagens bem distintas.

 

O pouco tempo que tínhamos para os doentes antes, durante e após os exames — tempo que incluía também a limpeza e desinfeção dos endoscópios — desiludiu-me muito, sobretudo depois da experiência tão rica na UTM. Mas percebi que pouco podia alterar, porque, mais uma vez, o modelo biomédico imperava.

 

Na coordenação, porque sou determinada e exigente, implementei com a equipa de enfermagem Normas de Atuação para todas as técnicas realizadas, de modo a assegurar as boas práticas de cuidados. Incentivei a formação em eventos científicos na área, tanto como formandas como formadoras, para que os cuidados prestados fossem atualizados à luz dos conhecimentos mais recentes, garantindo assim a qualidade dos cuidados. Criámos ainda a Consulta de Enfermagem de Gastrenterologia, integrada na Consulta Médica.

 

A todas estas inovações, a equipa de enfermagem reagiu com algum receio, no início, mas depois com entusiasmo, sentindo-se mais segura e valorizada. Muitas vezes me disseram que nunca se sentiam sós.

 

 

Sempre acreditei que é possível fazer algo pelas equipas e pelos serviços, em benefício direto dos doentes. Tal como é lema do IPO: O Doente em Primeiro Lugar!

 

Em 1997, por necessidade de reforço da equipa e também por sentir como um desafio os cuidados aos doentes daquela área, passei a integrar a Unidade Terapêutica de Dor, apenas com outra enfermeira.

 

E, mais uma vez, um mundo novo se abriu para mim: a consulta diária de dor, realizada por anestesistas ou neurologistas, sempre com a presença da enfermeira; a consulta multidisciplinar, que integrava igualmente a enfermagem; as técnicas antiálgicas, em que desempenhava funções de instrumentista, de apoio e ensino ao doente; as entrevistas de enfermagem realizadas a quem recorria pela primeira vez à Unidade; e ainda a observação dos doentes com dor em internamento.

 

Desde logo me agradou a Entrevista de Enfermagem estruturada, que tinha como objetivo conhecer melhor o doente e a sua dor. Percebi rapidamente a importância da enfermeira na consulta, nomeadamente no ensino ao doente após a definição do esquema terapêutico escrito. A terapêutica antiálgica pode ser complexa e extensa, incluindo habitualmente medicação de resgate, que precisa ser compreendida. Toda a terapêutica, incluindo a adjuvante, pode ter efeitos secundários que o doente tem de conhecer e aprender a gerir.

 

Com a experiência, percebi que o ensino fazia a diferença para a maioria dos doentes, mas alguns necessitavam de mais tempo. Essencialmente, precisavam de acreditar em quem lhes transmitia a informação: no seu saber e experiência. Só assim se conquistava a confiança e a segurança necessárias, bem como a autonomia tão desejada.

 

Os meus conhecimentos sobre dor eram ainda escassos. Se queria prestar cuidados de qualidade, teria de investir no estudo, relacionando-o com o doente oncológico, e estar atenta ao que ouvia na consulta médica, questionando sempre o que não compreendia. Assim fiz: li inúmeros artigos científicos, aprendi muito com os médicos com quem trabalhei e frequentei eventos científicos na área.

 

 

O relacionamento continuado com os doentes fez-me perceber que o significado atribuído à doença oncológica e às situações de dor influencia a intensidade e a vivência da própria dor. Descobri ainda que “a dor é tão subjetiva e profundamente íntima que até o é às variações ambientais e pessoais” (Phipps et al., 1999).

 

Para além disso, compreendi que o conceito de Dor Total estava presente em alguns doentes — sem eu, na altura, ter consciência de que era assim designado.

 

Aprendi que, tanto ou mais do que a doença oncológica, já por si carregada de conotações negativas, a dor era um dos sintomas mais prevalentes e mais temidos. Quando persistia no tempo, aumentando várias vezes ao longo do dia, impedindo atividades básicas como o sono, o repouso, a alimentação, a manutenção da atividade física ou social, era natural que o doente a sentisse como uma doença em si mesma: os doentes temiam mais a dor do que a própria doença oncológica. Quantas vezes os ouvi dizer: “se esta dor me passasse, até me esquecia que estou doente”.

 

Assim, dada a subjetividade da dor e a sua ligação profunda à doença oncológica, para que pudesse estabelecer diagnósticos de enfermagem e uma verdadeira relação de ajuda, tinha de conhecer, através da escuta, da observação e da confiança gradual, a vivência individual da dor e da doença. Como refere Patrice Guex (citado por Luciano Sandrin, 2001): era “importante saber a função que a dor tem para o doente, pois isso influencia a resposta ao tratamento.”

 

Sempre apostei na relação com o doente e, para mim, foi um prazer ouvir muitos dizerem: “só de falar consigo, sra. enfermeira, até parece que a dor melhora”. Era o efeito do desabafo, da escuta efetiva, da presença e, tantas vezes, do toque que transmitia segurança, proximidade e carinho. Mas também falávamos de muito mais: da vida, de acontecimentos do dia-a-dia, até da nossa seleção de futebol, de que sou adepta fervorosa. Ríamos juntos, e essa distração ajudava.

 

Sensivelmente por esta altura foi criada a Linha Telefónica Direta com o Serviço, para aumentar o apoio a doentes e cuidadores em situações relacionadas com a dor. A enfermeira atendia os telefonemas e resolvia o problema autonomamente, sempre que possível. Se fosse necessário um ajuste terapêutico, contactava o médico e retornava a chamada.

 

A procura desta linha foi crescendo e o feedback dos doentes era muito positivo. Contudo, como um dos motivos mais recorrentes era precisamente a necessidade de ajuste terapêutico, elaborámos, em conjunto com a equipa médica, protocolos escritos de aumento ou redução de terapêutica que pudessem ser aconselhados pelos enfermeiros, de acordo com a dor, os efeitos secundários da medicação ou outros fatores. Estes protocolos precisavam de ser atualizados regularmente, tendo em conta o surgimento de novos fármacos, a descontinuação de outros ou a confirmação de posologias mais adequadas.

 

 Em 2001 concluí a Licenciatura em Enfermagem, fruto da reestruturação do ensino superior em Portugal. Embora já tivesse muitos anos de experiência e várias formações complementares, senti esse momento como um marco de valorização académica e profissional.

Em 2003/2004 realizei a Pós-Graduação em Enfermagem Oncológica. Foi para mim muito gratificante poder estudar de forma estruturada aquilo que vivenciava na prática diária.

 

Já então percebia que os doentes oncológicos com ou sem dor e os seus familiares exigiam de nós não apenas competências técnicas, mas sobretudo competências relacionais, humanas e éticas. Esta consciência foi-se aprofundando neste percurso formativo, o que consolidou muitas das minhas práticas, mas também me desafiou a querer ir mais além. Neste âmbito, delineei o Projeto de Implementação da Avaliação e Registo Sistemático da Dor num Serviço Piloto no IPO, no sentido do cumprimento da Circular Normativa, emanada em 2003 pela Direção Geral de Saúde, que elevou a Dor a 5º Sinal Vital.

 

Após a sua implementação, avalio o Projeto, já no âmbito do Mestrado em Oncologia (2005/2006), com a dissertação “A Dor e a Prática de Enfermagem”, prosseguindo depois com a implementação do mesmo em todos os Serviços do IPO, o que constitui hoje uma realidade, conduzida na atualidade por outros enfermeiros, no domínio dos Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem.

 

 

Desde 2010, já como Enfermeira Coordenadora do Serviço, à altura já designado por Clínica de Dor, e mais desperta para as questões relacionadas com a Qualidade, procedeu-se ao desenvolvimento de novos modelos de Entrevista de Enfermagem, diferentes para doentes de 1ª vez e doentes subsequentes, que permitissem um diagnóstico de enfermagem e médico mais assertivos e abrangentes da dor dos doentes, da sua vivência e interferência nas atividades de vida. Ainda, à reestruturação completa do Manual de Serviço, tão necessário à orientação de boas práticas.

 

De notificar que a minha trajetória assistencial foi sempre acompanhada pela partilha de conhecimento, essencialmente sobre os cuidados ao doente com dor e Padrões de Qualidade – Dor 5º Sinal Vital - através de inúmeras formações em eventos científicos e Escolas de Enfermagem. Destas formações destaco a Formação Avançada em Dor Crónica, realizada por médicos e enfermeiros do Serviço, em quase todas as ARS do país, tendo como formandos, para além dos enfermeiros, médicos, psicólogos e assistentes sociais. O feedback e a troca de experiências foram gratificantes e muito interessantes. Percebi que ensinar não é apenas transmitir conteúdos, mas proporcionar a reflexão crítica, com a qual, tantas vezes, aprendemos…

 

A partilha de conhecimento era-me especialmente grata na Integração de novos enfermeiros e na Supervisão Clínica de mais de uma centena de alunos e enfermeiros em estágio da Licenciatura e Mestrado em Enfermagem no Serviço. Sentia que contribuía para o seu enriquecimento enquanto profissionais, pelos conhecimentos transmitidos e o exemplo na prática.

 

Foi tendo como fio condutor a centralidade do doente e o propósito de cuidados mais seguros, humanos e eficazes, que publiquei vários artigos em revistas científicas da especialidade e o “Guia Orientador de Enfermagem no Tratamento do Doente Oncológico com Dor na Comunidade”, destinado aos Cuidados de Saúde Primários. Também, como coautora, o capítulo “Avaliação da Dor” do Manual de Dor Crónica, fornecido a todos os estabelecimentos de saúde do país.

 

Senti que era importante partilhar conhecimento, transformando-o em alicerce para outros profissionais de enfermagem.

 

A nível da Investigação, como contributo da prática, fui Enfermeira Investigadora e Co investigadora em três Ensaios Clínicos, com publicações associadas.

 

Em 2022, através de Concurso Público no IPO de Lisboa, passo a Enfermeira Especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica na área de Enfermagem à Pessoa em Situação Crónica, pela certificação de competências pela Ordem dos Enfermeiros (OE), em 2019. Já que a OE me dava essa oportunidade e o meu investimento na profissão tinha sido tanto, pareceu-me justo que me propusesse...

 

Considero, de coração, que tanto a minha prática assistencial, bem como a de coordenadora ou docente, não teria sido possível sem as equipas tão humanas, trabalhadoras e briosas com quem tive o privilégio de trabalhar. O espírito de alegria e motivação é essencial para um ambiente propício aos melhores cuidados e para as boas relações entre as pessoas. Devo ter tido muita sorte, porque o senti sempre!

 

Tal como tantos doentes, foram também estes seres humanos tão especiais, presentes nos momentos bons e menos bons, que trouxe no coração quando me aposentei a 01 de julho de 2023, com a sensação de dever cumprido e de ter sido muito, mas mesmo muito feliz na minha profissão.

 

 

Cristina Ritto

Enfermeira Especialista em Enfermagem Médico-Cirúrgica na área de Enfermagem à Pessoa em Situação Crónica