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14-06-2023
As vidas que se salvaram ao dar sangue
A importância de dar sangue é algo que não precisa de ser salientada. Porém, precisa (e muito) de ser recordada, pelo que se sucedem as campanhas de apelo. As notícias repetem-se da necessidade de se dar mais e, principalmente, mais regularmente. Em Portugal existem cerca de 245 mil dadores. Vidas são salvas com este gesto. No Dia Mundial do Dador de Sangue contamos três casos de quem recebeu esta dádiva. E há quem não duvide que as histórias tiveram um final feliz porque houve quem tivesse essa preocupação em dar um pouco do seu tempo... e do seu sangue.
Diana Rodrigues não hesita: "Não estaria aqui para contar a história se não fossem essas transfusões." Em 2020 recebeu um diagnóstico de leucemia mieloide aguda. Esteve quatro meses internada e precisou de um transplante de medula. Perdeu a conta às transfusões que recebeu.
Nunca teve problemas com a disponibilidade de sangue, mas recorda o que lhe foi dito: "O meu caso era visto como prioritário. Explicaram que às vezes têm de escolher doentes porque não há reservas para toda a gente. Têm que fazer opções dentro dos quadros clínicos. Às vezes não há sangue para todos, infelizmente."
A jornalista, de 31 anos, fez transfusões quase todas as semanas. Não esconde que seria assustador só de pensar que poderia não ter disponível quando precisasse. "Fiz sangue, fiz plaquetas, fiz tudo o que venha do sangue - fiz também o transplante de medula que também tem a ver com dador -, portanto, sem essas transfusões não estaria aqui, com certeza."
E reitera: "Acho que cada saco de sangue que damos - antes de ficar doente era dadora de sangue - é uma vida que estamos a ajudar a salvar. No meu caso, acredito que salvaram. Um cenário destes era difícil sem transfusões e fazia-as quase todas as semanas, às vezes mais do que uma vez por semana. É a diferença entre viver e morrer."
Fica angustiada quando vê notícias sobre escassez de reservas de sangue, mas considera que, além das campanhas que vão sendo feitas, se deve ir ter com as pessoas e não esperar por elas.
"Se as recolhas forem ter com elas, as pessoas dão. Pelo menos é essa a experiência que eu tenho. Se se depender das pessoas, andam tão preocupadas com a vida delas e com o que têm de fazer todos os dias que nem sequer se lembram que pode haver essa necessidade [de dar sangue]", realça.
Recorda como os amigos fizeram uma campanha para recolha de sangue e medula: "Houve muita gente a aparecer. Quando existem estas coisas, as pessoas aparecem." E conta como a sua situação também ajudou a mudar mentalidades das pessoas que lhe são mais próximas, como a da própria mãe.
Dadora regular após a doença do filho
Cláudia Portela admite que a sua perspectiva mudou desde que o seu filho teve uma leucemia e passou a ser uma dadora regular. Hoje em dia, a palavra que mais gosta de ouvir é "remissão" no que há saúde do seu filho diz respeito. E se há algo que muito se dedica desde então é garantir que faz a sua parte em dar sangue e tentar convencer mais pessoas a seguir o exemplo.
"Percebi que há uma carência, que há uma necessidade, há muita procura. Quando uma pessoa lida com uma doença destas geralmente pensa muito mais nestas coisas do que no dia-a-dia. Vê-se um folheto, ou uma campanha, pode-se pensar, mas se calhar não se actua. Passar do pensar para o actuar também tem um pouco a ver com o tocar-me um pouco mais e às pessoas que me rodeiam", afirma.
O filho esteve internado no IPO mais de meio ano em 2021. "Durante o tratamento, ele levou bastantas transfusões. Bastantes mesmo. Era um assunto que era falado na altura entre família e amigos. Tentávamos recrutar pessoas para serem dadoras. Consegui que uns primos e uns amigos fossem ao IPO", recorda.
Tal como Diana Rodrigues, não hesita em dizer: "As transfusões foram completamente essenciais." Ricardo tem agora 25 anos e durante o tempo em que lutou contra a doença, nunca foi levantada a questão de falta de sangue para uma transfusão.
Cláudia Portela, 56 anos, realça que o filho tem um tipo de sangue mais comum, AB, mas já não é o caso da própria, o que a leva a ser ainda mais disciplinada no momento em pensar na doação, que pode fazer de quatro em quatro meses. "Tenho um sangue que é o ARh Negativo. Muitas vezes recebo mensagens a dizer que precisam e, portanto, tenho ido dar."
Quando tenta convencer quem conhece a também dar sangue, admite que o discurso é diferente agora que o filho recuperou. Salienta que já não passa a "carga" de responsabilidade "de achar que era um bem que estavam a fazer, porque era uma preocupação constante, pois caso não houvessem pessoas que dessem, o Ricardo nunca teria recebido as transfusões".
Agora... "Basicamente é dizer que não custa nada. Eu faço a descrição: é rapidíssimo, um pequeno-almoço óptimo, uma simpatia de pessoas, tem o carro à porta [no IPO], não tem de se chatear e até digo que é óptimo porque fazem uma dieta! Comem menos e depois outras coisas mais saudáveis." Outra forma, é marcar com mais pessoas e depois irem almoçar: "Assim já consegui convencer duas ou três."
Cláudia Portela recorda também a importância da equipa de enfermagem que esteve com o seu filho nos momentos difíceis, agravados por terem sido durante a pandemia: " A equipa deste piso é uma equipa fantástica. Eles dão um super apoio. E então numa altura de covid em que não podia estar perto! Só podia fazer uma visita de meia hora uma vez por semana. Não era nada."
Sentimento de impotência de um profissional de saúde
Para José Fortunato, a realidade da importância de dar sangue ganhou outra expressão quando foi diagnosticado favismo ao filho de apenas dois anos. Estávamos no final da década de 90 e para este enfermeiro, o sentimento de impotência perante o problema do filho fê-lo compreender a gratificação que considera que os dadores regulares deverão sentir.
"Apesar de sermos profissionais de saúde e de termos a noção das coisas, naquele momento não me via como tal, mas sim como uma pessoa que precisava de ajuda, como pai. Sentia a impotência de querer fazer, mas de não poder", confessa.
Recorda como naquela altura era comum os familiares de quem necessitava de receber sangue serem solicitados a dar. Era uma forma de tentar garantir a manutenção das reservas: "Aquele pequeno gesto que tive de fazer, a doar sangue que ele [filho] não ia receber - seria outro -, esse pequeno gesto fez-me sentir que estava a contribuir com alguma coisa."
Hoje o filho é um homem saudável, mas as notícias sobre a necessidade de aumentar as reservas de sangue traz à memória de José Fortunato aqueles dias difíceis. "A doença dele foi um episódio inaugural, teve uma anemia grave. A reposição fez-se com as transfusões", salientou.
Foi a única vez que o enfermeiro deu sangue e explica porquê: "Eu enquanto profissional de saúde tenho algumas resistências para me tornar dador. Contacto muito com riscos biológicos. Agora também já não tenho idade, mas tinha receio de transmitir algo que não fosse perfeitamente saudável."
No entanto, não deixa de apelar para que se o faça, considerando que, além das campanhas que são feitas, por vezes em altura em que as reservas estão em baixo, se deve apostar numa mudança de mentalidade na sociedade. Ou seja, é importante fazer as pessoas entender e mesmo sentir a referida gratificação, ao verem o que dar sangue pode significar para quem mais precisa.
Para mais informações sobre como ser dador, siga o link do site do SNS24.





