-
19-08-2025
A Voz de uma enfermeira no Dia Mundial da Ajuda Humanitária
Sou enfermeira e colaboro com a Comunidade Vida e Paz, uma IPSS tutelada pelo Patriarcado de Lisboa que presta apoio às Pessoas em Situação sem Abrigo (PSSA) na região de Lisboa. A minha ligação à Comunidade começou em 2015, durante a Festa de Natal para as PSSA, e em 2019 passei a integrar as “voltas da noite” com equipas compostas por, no mínimo, quatro voluntários que percorrem rotas pré-definidas pela cidade, distribuindo alimentos e oferecendo presença e escuta ativa.
Estas equipas saem todos os dias do ano, sem exceção, mesmo em épocas festivas. Realizam quatro rotas distintas e eu colaboro quinzenalmente às terças-feiras, além de participar na Festa de Natal.
As pessoas que encontramos na rua sabem que não falhamos. Sabem que, noite após noite, estamos lá para ouvir, conversar, apoiar e, se assim o desejarem, ajudá-las a mudar de vida. É com enorme alegria que recebemos a notícia de que alguém quer tentar essa mudança. É por isso que, mesmo nos momentos mais difíceis, como durante a pandemia de COVID-19, nunca deixámos de ir ao seu encontro.
As pessoas que encontramos na rua sabem que não falhamos. Sabem que, noite após noite, estamos lá para ouvir, conversar, apoiar e, se assim o desejarem, ajudá-las a mudar de vida. É com enorme alegria que recebemos a notícia de que alguém quer tentar essa mudança. É por isso que, mesmo nos momentos mais difíceis, como durante a pandemia de COVID-19, nunca deixámos de ir ao seu encontro.
Na CVP não exerço voluntariado técnico, mas o facto de ser enfermeira permite-me olhar para esta realidade com outros olhos. Quando chego ao local onde alguém pernoita, procuro observar com atenção: o olhar, a postura, sinais de sofrimento ou alteração. Converso, escuto, pergunto como estão, física e psicologicamente. Tento saber se foram à consulta marcada, se realizaram os exames, se estão a tomar a medicação, se já foram vacinados contra a gripe, por exemplo. Quando encontramos jovens grávidas, procuro sensibilizá-las para procurarem cuidados de saúde. Na volta seguinte, volto a perguntar: já foi ao médico? Tem o boletim de grávida? Quer mostrar-me? Tento estar próxima, sem ser intrusiva. Ajudar, criar laços, estar presente.
As adições e os problemas de saúde mental são uma realidade constante na rua. A CVP articula-se com outras instituições que prestam cuidados de saúde às PSSA. Os voluntários das voltas da noite elaboram diariamente um relatório numa plataforma da CVP, onde podem solicitar apoio da equipa técnica de rua ou da equipa médica.
Colaborar nesta vertente humanitária é um privilégio. Estas pessoas ensinam-me todos os dias. Uma das maiores lições que aprendi é que as pessoas vêm sempre em primeiro lugar. E isso é ser enfermeira. Fomos motivados e treinados para cuidar, escutar, estar presentes nos bons e maus momentos da vida. Neste tipo de apoio, estamos geralmente presentes numa fase menos boa da vida destas pessoas, mas queremos fazer a diferença, oferecendo ferramentas para que possam fazer a mudança que necessitam na sua vida, para que possam encontrar algum conforto e dignidade.
Como disse o Papa Francisco nas Jornadas Mundiais da Juventude em Lisboa, em 2023:
“O único momento em que é lícito olhar uma pessoa de cima para baixo é quando queremos ajudá-la a levantar-se.”
Elisabete Silva
Enfermeira





