A dedicação no Banco de Leite que faz a diferença

  • 01-08-2024

"Um litro de leite doado dá para alimentar dez bebés da neonatologia por dia." E já foram muitos os litros doados (quase cinco mil) que permitiram alimentar cerca de 3500 bebés prematuros desde 2010, data em que surgiu o primeiro Banco de Leite Humano em Portugal, na Maternidade Dr. Alfredo da Costa (MAC). Nesta Semana Mundial do Aleitamento Materno há que reforçar a dedicação das enfermeiras que estão presentes em praticamente todos os passos necessários, desde o "recrutamento" de dadoras, ao momento que o leite chega ao bebé.


São 14 anos de muitas histórias de vidas salvas, de bebés mais saudáveis, com o Banco de Leite a contribuir ainda para um menor tempo de internamento, menor taxa de comorbilidades associadas à prematuridade, taxas de infeção também mais reduzidas… Os ganhos são muitos e cada vez mais o leite humano é visto como essencial e como uma forma de terapêutica.


"Dos 3500 bebés ajudados, pelas nossas contas, evitámos cerca de 580 enterocolite necrotizante, cerca de 80 óbitos e 67 síndromes do intestino curto. Para não falar daqueles que não tiveram essas complicações e conseguiram também ter o benefício pelo uso do leite, melhorar o seu estado de saúde e ter uma vida mais longa, produtiva, com maior qualidade e saúde", destaca a Enfermeira Joana Jacinto, uma das quatro da equipa multidisciplinar.


Junta-se ainda a Enfermeira Gestora da Unidade de Neonatologia, Esmeralda Pereira que, assume também a responsabilidade de gerir o Banco de Leite da instituição, lutando por ele em tempos difíceis e assistindo ao seu crescimento. "A evidência diz que é importantíssimo para estes bebés pré-termo o leite humano. Não havendo da sua própria mãe, de uma dadora." São 60 ativas presentemente e, no total de todos os anos de funcionamento, somam-se 600.


"A intenção é aumentar cada vez mais”, afirma. Porém… "Na prática temos de ter as condições todas reunidas para dizer que podemos acompanhar 60 dadoras ativas e não 100."


Entre os requisitos para se ser dadora estão, entre outros, a mulher alimentar de forma exclusiva o bebé, que esse tenha uma boa evolução estaturo-ponderal, que se verifique um equilíbrio entre a produção de leite e este chegue para o bebé da dadora, ser saudável e não ter qualquer hábito de consumo.


Mas também a área de residência entra na equação. Com as dadoras a não terem de se deslocar à MAC, a capacidade de recolha está, neste momento, nos cerca de 100 quilómetros. "Prende-se muito com a cadeia de frio. Temos de ter a certeza que a recolha e armazenamento do leite são feitos nas devidas condições. O transporte tem de obedecer a regras muito rígidas", explica a Enfermeira Esmeralda Pereira.


O protocolo com o ACES Lisboa Ocidental e Oeiras foi importante para reforçar o número de dadoras. O reconhecimento cada vez maior da importância do leite humano faz com que o interesse aumente e as perspetivas são que no futuro próximo mais protocolos surjam, ficando o desejo para que sejam criados igualmente mais bancos de leite, havendo apenas mais um no país, que surgiu em 2022 no Hospital de São João, no Porto.


Equipa empenhada


Além das condições necessárias para haver um Banco de Leite na MAC, a dedicada equipa multidisciplinar é essencial para que todo o processo tenha um final feliz. O Banco de Leite da MAC conta com três assistentes operacionais, três pediatras que são neonatologistas, uma nutricionista e duas técnicas de laboratório. No entanto, são as Enfermeiras que estão em quase todas as fases do processo.


Alguns exemplos: tratam da divulgação para recrutar dadoras, aproveitando momentos como a Semana Mundial do Aleitamento Materno (1 a 7 de agosto). O primeiro contacto é também com as Enfermeiras, que fazem um rastreio da situação por telefone, para perceber se a mulher pode de facto ser dadora. O processo passa também pelo médico, mas… volta às Enfermeiras, responsáveis pelo ensino de como cuidar do material, esterilização e como armazenar o leite. A relação com a dadora, manter a motivação desta, a proximidade, são fatores a destacar, assim como as Enfermeiras serem um elo de ligação entre os profissionais.


"Na nossa equipa acabamos por fazer um trabalho de organização e supervisão na alimentação dos bebés internados e não só o leite doado", acrescenta Joana Jacinto.


O leite chega não só aos bebés da neonatologia da MAC, mas também aos Hospitais de Santa Marta e Estefânia (todos fazem parte da ULS São José), assim como ao Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (Amadora/Sintra) e Hospital de Cascais.


Mas estas enfermeiras querem mais. Ângela Santos tem um sonho antes de se reformar: que mais bebés, além dos prematuros, possam ter acesso ao leite doado e deu exemplos. "Gostava de não sair daqui sem ver os bebés de mães VIH poderem usufruir de leite de dadora, de mães que não podem amamentar, como também as mastectomizadas… Esses bebés logo à partida não têm leite humano."


E é a Enfermeira Ângela quem o diz e nunca é demais reforçar como um litro de leite doado alimenta dez bebés da neonatologia por dia.

ES/GCI