10 outubro - Dia Mundial da Saúde Mental - A Importância do Enfermeiro Especialista em Saúde Mental e Psiquiátrica, na Disfuncionalidade Familiar

  • 10-10-2013

Podíamos começar por dizer que conceitos de família, cada um tem o seu, isto é, conceitos de família existem, tantos quanto os indivíduos. Cada família é animada de características próprias, dos seus próprios contextos, do seu próprio manancial (biogenético, social, comunicacional), perfeitamente diferenciável e irrepetível, determinando que cada família  tenha uma identidade própria, um “modus vivendis” que lhe é peculiar.

Ainda assim há um conceito clássico de família, o qual, convenhamos, estamos a assistir hoje, duma forma global, a mudanças drásticas na sua conceção. A família nuclear tradicional, dá lugar a famílias monoparentais, reconstituídas, homossexuais, com a reorganização da vida familiar a assentar também na reorganização de novas dinâmicas sociais, económicas e políticas. Esta evolução leva à mudança de valores, regras e ao estabelecimento de prioridades que não eram as de outrora e que até então tinham sido reguladoras. Como em todos os processos de mudança, vive-se um período de ambiguidade e desorganização entre aquilo que foi (a família onde crescemos) e o que será ou se tornará (a família que construímos, onde vão crescer os nossos filhos). Por um lado, a prevalência dos valores tradicionais que não se adequam ao modo de vida atual, por outro, as novas necessidades, as novas regras, a procura dum novo equilíbrio, todo um processo de aprendizagem por fazer. Dá-se a passagem duma sociedade em que os valores da família eram, duma maneira geral, conhecidos e aceites por todos, tinham algum carácter universal para a proliferação de valores e formas de família com a recuperação de bens como a liberdade e o livre arbítrio. Os ganhos decorrentes desta evolução, em autonomia, enriquecimento pessoal e socioeconómico, revelam fragilidades, nomeadamente na instituição familiar, na sua organização e na sua funcionalidade.

Observa-se ainda uma mudança paradigmática na relação familiar do regime autoritário da família para o regime democrático. Na família tradicional assumiam maior importância, a autoridade, as regras, as normas e os limites, a função educadora e normativa da família, na família contemporânea é colocado a ênfase nos afetos, na comunicação, no diálogo, na flexibilidade, nas relações que se estabelecem, enfim nas dimensões relacionais da família. O filho que outrora obedecia, hoje opina e participa das decisões familiares. Nesta confluência, o que se observa são as dificuldades de adequar e gerir a flexibilidade, a maior ou menor abertura da família e as dificuldades de comunicação, por forma a não cair na rigidez ou no laxismo.

A comunicação funcional, de acordo com Alarcão (2002), define-se pela capacidade de unir, ligar, pôr em relação os parceiros comunicacionais, e a comunicação disfuncional, a que afasta os parceiros e cria entre eles um ecrã de incompreensão e ressentimento.

As famílias mais funcionais, face à apresentação de problemas relacionados com os seus filhos, têm tendência para apresentar um locus de controlo mais interno, as famílias mais disfuncionais têm tendência para um locus de controlo mais externo, famílias de maior sucesso tem tendência para a transmissão de valores mistos e são mais normativas, enquanto famílias de insucesso se identificam com valores mais materialistas e de maior flexibilidade normativa, o que está de acordo com diversos estudos (Matoso, 2006; Nave, 2006).

A emergência dum problema num dos membros da família (“sintoma” ou “sinal”) influência todo o sistema familiar, dado que cada membro da família afeta e é afetado pelos outros, verificando-se uma “crise” e  respetiva necessidade de “mudança”. O modelo uni causal, de inspiração biomédica, deixa de fazer sentido. (O que se pretende é que o enfoque se descentre da patologia, distúrbio psíquico ou emocional, para se centrar na disfuncionalidade familiar em causa (“Uma só carne: pessoas separadas”. Skyner).

Deste modo, de acordo com diversos pressupostos e investigadores, o funcionamento / disfuncionalidade familiar, contribuem inquestionável e inequivocamente para a manutenção de distúrbios da mais diversa ordem (sociais, afetivos, emocionais, comunicacionais, psiquiátricos, comportamentos aditivos), independentemente de serem, ou não, causa ou efeito.) Neste sentido, a problemática familiar só é suscetível de ser abordada, sob o ponto de vista terapêutico, numa ótica multifatorial e multidimensional ou perspetiva ecológica, que é a perspetiva de enfermagem.

Sendo a família uma das estruturas de maior importância no desenvolvimento psicossocial da criança e do adolescente, a questão que se coloca é, como estamos a prevenir e apoiar as famílias com problemas de funcionamento? Como estamos a construir uma sociedade sustentada nos valores familiares e da promoção da saúde mental e física?

Acreditamos, neste âmbito, que tem sido subvalorizado e mal utilizado o papel do Enfermeiro Especialista em Saúde Mental e Psiquiatria no SNS, cujas competências são fundamentalmente direcionadas para a promoção da saúde mental e prevenção do distúrbio psiquiátrico, como o profissional de excelência junto das famílias, na deteção, diagnóstico e acompanhamento destas problemáticas.

O papel do Enfermeiro Especialista em Saúde Mental e Psiquiátrica, em intervenção familiar, será o de identificar, sinalizar, ajudar, acompanhar, orientar e reabilitar estas famílias, nas diversas etapas do processo de mudança, se necessário reencaminhando multidisciplinarmente, num processo que se pretende de Ensino-Partilha- Aprendizagem.

Quando o Ministério da Saúde compreender a importância da Enfermagem, nomeadamente especializada, na qualidade do cuidados de saúde a oferecer à população em Portugal, talvez consigamos dar o salto qualitativo, até agora uma expetativa, com poucas ambições de efetivo resultado. Há no entanto um caminho virgem, que podemos ser nós, enfermeiros, a percorrer, a desbravar, a descobrir, a acreditar.

 

Enfermeira Ana Martins (5-E-13299)

AT/gm