Vacinação: um compromisso coletivo com a ciência, a confiança e a vida

  • 21-04-2026

 

Na semana em que se assinala a Semana Europeia da Vacinação, importa destacar o papel fundamental daqueles que, no terreno, garantem que a ciência se transforma em proteção efetiva para a comunidade. Entre estes profissionais de excelência, apresentamos Natália Pereira, Enfermeira Especialista e Mestre em Enfermagem Comunitária, com um percurso profissional de 29 anos enraizado no compromisso com a saúde das pessoas e das comunidades. Ao longo destas quase três décadas, construiu uma carreira sólida e diversificada, com experiência em contexto hospitalar, nos cuidados de saúde primários e, mais recentemente, na área da Saúde Pública, mantendo sempre uma ligação à vertente académica, na formação de futuras gerações de enfermeiros.

 

Atualmente exerce funções na Direção-Geral da Saúde (DGS) como Chefe de Equipa da Unidade de Vacinas, Imunização e Produtos Biológicos (UVIB), assumindo a exigente responsabilidade da coordenação nacional do Programa Nacional de Vacinação (PNV) e de outras estratégias de imunização. É neste contexto que se inscreve aquele que considera o seu maior projeto profissional - e, inevitavelmente, também pessoal -: o Livro Azul de Vacinas, o referencial técnico‑normativo da vacinação em Portugal, pensado não apenas para consolidar o presente, mas para projetar o conhecimento, o rigor e a excelência portuguesa além-fronteiras.

 

A sua intervenção tem sido determinante na coordenação e promoção de estratégias de imunização que colocam o país na vanguarda europeia. Com uma vasta experiência e um olhar atento aos desafios contemporâneos, Natália Pereira é uma defensora da literacia em saúde, acreditando que a confiança se constrói na proximidade entre o enfermeiro e o cidadão.

 

Ao longo do seu percurso tem contribuído ativamente para a definição e implementação de políticas de saúde, para a resposta a emergências de saúde pública e para a promoção contínua da qualidade e segurança dos cuidados. Representa a DGS em fóruns nacionais e internacionais, colaborando com organizações como a OMS, o ECDC e a OCDE. É autora e coautora de publicações científicas na área da saúde pública e foi distinguida, em 2023, com Louvor da Diretora‑Geral da Saúde, pelo seu contributo na resposta à pandemia de COVID‑19.

 

No seu artigo de opinião, reflete sobre a vacinação como um "imperativo ético e coletivo", alertando para o perigo de uma "perda gradual da memória coletiva" sobre a gravidade de doenças que as vacinas ajudaram a erradicar ou controlar.

   

Vacinação: um compromisso coletivo com a ciência, a confiança e a vida

 

Vivemos uma década marcada por desafios profundos: a proliferação da desinformação, a crescente hesitação vacinal, o surgimento de movimentos anti‑ciência e uma erosão progressiva da confiança nas instituições públicas. Neste contexto, promover a confiança na vacinação não é apenas uma tarefa técnica ou institucional — é um imperativo ético e coletivo. Trata‑se de uma causa que interpela profissionais de saúde, decisores políticos, comunicadores e cidadãos, convocando‑nos para a defesa da evidência científica e para a proteção de um bem maior: a saúde pública.

 

É neste enquadramento que Portugal se associa, todos os anos, à Semana Europeia da Vacinação, reafirmando o seu compromisso com uma das intervenções de saúde pública mais eficazes, equitativas e transformadoras da História. Este artigo nasce, assim, da vontade de revisitar, reafirmar e reforçar algumas ideias‑chave sobre a vacinação, num momento em que recordar o seu valor é tão crucial quanto protegê‑la.

 

 

"Promover a confiança na vacinação não é apenas uma tarefa técnica ou institucional  é um imperativo ético e coletivo."

 

As vacinas salvam vidas — ontem, hoje e amanhã

 

Poucas descobertas científicas tiveram um impacto tão profundo e duradouro como a vacinação. Um estudo financiado pela OMS estima que, nos últimos 50 anos, a vacinação tenha salvo mais de 154 milhões de vidas em todo o mundo. Foi graças às vacinas que a Humanidade conseguiu erradicar a varíola — a única doença humana completamente eliminada à escala global.

 

Em Portugal, os resultados são igualmente notáveis. A vacinação permitiu eliminar doenças como a poliomielite, a rubéola congénita, a rubéola, o tétano neonatal, o sarampo e a difteria, e controlar eficazmente patologias como a hepatite B, a doença invasiva meningocócica C, a infeção por Haemophilus influenzae tipo b, o tétano, a parotidite epidémica, a tuberculose e a tosse convulsa. Estes ganhos traduziram‑se numa redução expressiva da mortalidade infantil, em melhorias substanciais da qualidade de vida, no desenvolvimento socioeconómico do país e na sustentabilidade do sistema de saúde.

 

Quando o sucesso se torna invisível

 

Paradoxalmente, o maior sucesso da vacinação é também a sua maior fragilidade. Ao contrário de outras intervenções terapêuticas, cujos benefícios são imediatos e tangíveis, os benefícios da vacinação manifestam‑se em acontecimentos que não chegam a acontecer: infeções evitadas, complicações que não surgem, vidas que seguem o seu curso.

 

Em contrapartida, eventuais reações adversas — ainda que raras e rigorosamente monitorizadas — tendem a ser mais facilmente percecionadas a nível individual. Acresce que o próprio desaparecimento ou controlo das doenças conduz a uma perda gradual da memória coletiva sobre a sua gravidade. Quando o risco deixa de ser visível, instala‑se a falsa perceção de que deixou de existir.

 

Importa, por isso, reafirmar com clareza: os riscos da não vacinação são reais e significativamente superiores aos riscos da vacinação. Num mundo globalizado, onde os agentes infecciosos continuam a circular, uma quebra nas coberturas vacinais pode conduzir ao ressurgimento de doenças outrora controladas, representando um retrocesso inaceitável nos ganhos alcançados.

 

 

 

Defender a vacinação é defender o futuro

 

A boa notícia é que Portugal permanece um país de elevada confiança na vacinação e uma referência internacional. As avaliações do PNV demonstram, de forma consistente, uma forte adesão da população. A recente Campanha de Imunização Sazonal contra o VSR registou uma adesão de 86% logo na sua primeira implementação, e a Campanha de Vacinação contra a Gripe mostra aumentos de cobertura em todos os grupos etários. Mesmo no contexto mais desafiante da vacinação sazonal contra a COVID‑19, Portugal destaca‑se positivamente no panorama europeu.

 

Contudo, seria ingénuo acreditar que estamos imunes às tendências globais de hesitação vacinal. Num mundo interligado, essas dinâmicas atravessam fronteiras. Não podemos permitir que seja na nossa geração que se percam décadas de progresso em saúde pública. Identificar e mitigar bolsas de suscetíveis, combater ativamente a desinformação e reforçar a literacia em saúde são hoje tarefas inadiáveis.

 

“Nos últimos 50 anos, a vacinação salvou mais de 154 milhões de vidas”

 

Enfermeiros: guardiões da confiança e embaixadores da vacinação

 

Enquanto chefe de equipa da Unidade de Vacinas, Imunização e Produtos Biológicos, tenho tido o privilégio de testemunhar, diariamente, o impacto determinante dos enfermeiros em todas as etapas do processo de vacinação, em todos os níveis de cuidados de saúde. O legado de mais de 60 anos do PNV foi construído, de forma indelével, pelo saber, pelo rigor e pela dedicação de gerações de enfermeiros.

 

Mas a sua intervenção vai muito além da execução técnica. A enfermagem em vacinação assenta numa abordagem integrada, centrada na pessoa, que conjuga prevenção da doença, promoção da saúde e cuidado humano. Num contexto marcado pela desinformação, é na relação de proximidade, na escuta ativa e na confiança construída, consulta a consulta, que se tomam decisões informadas e se consolidam comportamentos de saúde.

 

Esse trabalho silencioso, diário e persistente criou um património coletivo de confiança que sustenta os elevados níveis de proteção da população portuguesa — um legado invisível, mas absolutamente essencial.

 

Celebrar a Semana Europeia da Vacinação é, por isso, homenagear o papel insubstituível dos enfermeiros no passado, no presente e no futuro da vacinação em Portugal. É reafirmar o compromisso de juntos, continuarmos a proteger vidas, a defender a ciência e a projetar o impacto do PNV e das estratégias de imunização, dentro e fora do país.

 

 

Natália Pereira
Enfermeira Especialista e Mestre em Enfermagem Comunitária