Terapia com Células CAR-T: Catarina Gomes destaca a Enfermagem como «o motor dos cuidados e da literacia em saúde

  • 07-09-2026

 

A oncologia contemporânea atravessa uma viragem estrutural com a consolidação das terapêuticas celulares avançadas, entre as quais se destaca a terapia com células CAR-T (Chimeric Antigen Receptor T-Cell Therapy). Este tratamento inovador, que recorre à reprogramação genética dos linfócitos T do próprio doente para combater formas agressivas de neoplasias hemato-oncológicas, abre novas perspetivas clínicas, mas coloca simultaneamente exigências organizacionais e assistenciais sem precedentes. À medida que a biotecnologia avança, o sucesso clínico deixa de depender unicamente do fármaco em si e passa a assentar na capacidade de resposta dos sistemas de saúde, na governação clínica integrada e, de modo determinante, na intervenção contínua e altamente diferenciada de uma equipa multidisciplinar alargada, da qual os enfermeiros fazem parte e assumem um papel fundamental.

 

É neste ponto de encontro entre a vanguarda tecnológica, a investigação estratégica e o acompanhamento humano que se destaca o trabalho da Enfermeira Especialista Catarina Gomes, do Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil (IPOLisboa), a especialista tem dedicado o seu percurso à oncologia de alta complexidade e aos cuidados paliativos, conjugando a prática assistencial com a reflexão e liderança na profissão. Coordenadora da Comissão Regional de Peritos em Cuidados Paliativos da Secção Regional do Sul e atual Presidente da Mesa do Colégio da Especialidade de Enfermagem Paliativa da Ordem dos Enfermeiros, Catarina Gomes alia a diferenciação técnica a uma visão global e humanizada da pessoa em fase de doença grave, sustentando que os maiores avanços biomédicos só cumprem o seu propósito se preservarem a dignidade, o controlo rigoroso do sofrimento e a proximidade com o doente e os seus cuidadores.

 

 

A discussão sobre o alargamento e a sustentabilidade desta terapêutica ganhou particular relevo através do Projeto SHARP – A Reflection into the Future of Cell Therapies, uma iniciativa do NOVA Center for Global Health, laboratório de investigação da NOVA Information Management School (NOVA IMS) da Universidade Nova de Lisboa, desenvolvida em colaboração com a Kite, uma empresa Gilead. Este think tank multidisciplinar congregou especialistas das áreas clínica, científica, económica e política que, em conjunto,  trabalham com o objetivo de desenhar recomendações estratégicas que permitam ao Serviço Nacional de Saúde garantir um acesso rápido, seguro e equitativo à terapia celular para todos os doentes elegíveis.

 

A iniciativa abordou, ao longo das sessões com vários profissionais de saúde (Hematologistas, farmacêuticos, enfermeiros e outros), dimensões estruturais que vão desde a revisão urgente dos modelos de financiamento e contratualização hospitalar até à governação da jornada clínica, contemplando o diagnóstico atempado, a referenciação precoce e a capacitação das equipas para a futura expansão desta tecnologia a outras patologias oncológicas e doenças autoimunes. Como refere Catarina Gomes, a propósito desta visão sistémica, "garantir que os doentes têm acesso atempado e equitativo a estas tecnologias inovadoras em Portugal não é apenas uma questão de financiamento de fármacos; é uma questão de capacitação de sistemas e de equipas. Sem enfermeiros com formação especializada e integrados na gestão da jornada do doente, nenhum avanço biotecnológico atinge o seu potencial máximo".

 

Esta centralidade dos enfermeiros no ecossistema das terapêuticas avançadas foi abordada na última entrevista, após o término do projecto em Setembro de 2025 à News Farma TV, sob o título «Enfermagem: o motor dos cuidados e da literacia em CAR-T». Ao longo da sua reflexão, Catarina Gomes evidenciou a complexidade da vigilância e cuidados de enfermagem em todas as etapas do processo, tal como o acompanhamento do doente e família. Um desses momentos referidos, foi a vigilância pós infusão das células Cart, com a deteção precoce de complicações, tal como os ensinos após a alta. A deteção imediata e a resposta precoce a estes quadros clínicos exigem competências avançadas e um olhar atento à cabeceira do doente, sublinhando a especialista que "a terapia com células CAR-T representa uma revolução extraordinária na resposta a doenças oncológicas graves, mas exige uma vigilância clínica ao minuto. A capacidade do enfermeiro para reconhecer de imediato os primeiros sinais de toxicidade faz a diferença entre o sucesso terapêutico e o desfecho desfavorável".

 

 

Contudo, a diferenciação técnica caminha a par com a relação interpessoal e o suporte emocional. Por se tratar de um percurso longo, marcado por incertezas e tratamentos prévios desgastantes, a promoção da literacia em saúde surge como um dos pilares mais determinantes da ação do enfermeiro, que atua como facilitador entre a linguagem biomédica e a realidade vivenciada pela família. Para Catarina Gomes, "por detrás de uma tecnologia tão avançada estão pessoas fragilizadas por percursos longos de doença. O papel do enfermeiro passa muito por traduzir a complexidade científica numa linguagem compreensível e reconfortante. Capacitar o doente e os seus cuidadores, dando-lhes ferramentas para identificar sinais de alerta e tomar decisões informadas, é a nossa maior missão de literacia em saúde".

 

Para a Enfermeira Catarina Gomes: “Numa era cada vez mais tecnológica e com foco nas inovações cientificas, o cuidado centralizado no doente e na família não podem ficar para segundo plano. Nesta área, e em todas da oncologia, a jornada do doente e família é muitas vezes acompanhada por curvas sinuosas e caminhos com muitos obstáculos, o enfermeiro surge neste caminho em todas as etapas, permitindo com os seus conhecimentos técnicos e capacidades humanas, que o doente e família estejam capacitados e apoiados em todas as suas decisões.”

 

A abordagem defendida pela Presidente da Mesa do Colégio de Enfermagem em Cuidados Paliativos demonstra que os cuidados paliativos e as terapêuticas potencialmente curativas ou de vanguarda não são realidades antagónicas, antes se articulam para assegurar continuidade, alívio de sintomas e qualidade de vida. Como conclui a enfermeira, "inovação e cuidados paliativos não são caminhos opostos; complementam-se em permanência. Mesmo perante terapêuticas inovadoras, o foco tem de estar sempre na qualidade de vida, no controlo rigoroso de sintomas e na dignidade do doente ao longo de todas as etapas do tratamento". Ao afirmar a enfermagem como o elemento estruturante que une a ciência de fronteira à humanização dos cuidados, o testemunho de Catarina Gomes reafirma o valor indispensável da profissão no desenho das políticas de saúde e na modernização do Serviço Nacional de Saúde.

 

Assista aqui à entrevista na News Farma TV: «Enfermagem: o motor dos cuidados e da literacia em CAR-T»