Um Sorriso por Dia… e Nem Sabe o Bem que lhe Fazia!

  • 21-03-2025

 

Dizem que "rir é o melhor remédio" – e para Arlete Lourenço, esta não é apenas uma frase feita, mas uma filosofia de vida. Enfermeira Especialista em Saúde Mental e Psiquiátrica, Docente no Ensino Superior e Terapeuta do Riso, Arlete encontrou no sorriso uma ferramenta poderosa para promover bem-estar e transformar vidas. Natural da Guarda e estabelecida em Faro há mais de duas décadas, tem espalhado gargalhadas e arrancado sorrisos, aliviado dores e criado pontes emocionais entre profissionais de saúde, doentes e comunidades inteiras.

 

Mas afinal, o que torna o riso tão essencial? Será que pode realmente influenciar a nossa saúde mental e física? E como se transforma algo tão espontâneo numa terapia estruturada? Nesta entrevista, Arlete Lourenço partilha connosco a sua jornada, o impacto da Terapia do Riso e como um simples sorriso pode ser o primeiro passo para um dia (e uma vida) melhor. Durante toda a conversa, o riso esteve sempre presente, como uma extensão natural da sua forma de estar na vida. Entre cada resposta, solta uma gargalhada, prova viva de que acredita e pratica aquilo que defende.

 

No contexto da enfermagem, onde o contacto humano é a essência do cuidado, o riso revela-se uma poderosa ferramenta terapêutica. Estudos comprovam que rir reduz o stress, melhora a comunicação entre profissionais e doentes e promove um ambiente mais humanizado. Para os enfermeiros, que diariamente enfrentam desafios emocionais e físicos intensos, a Terapia do Riso pode ser um recurso valioso para aliviar a tensão, aumentar a resiliência e reforçar o vínculo com os pacientes.

 

E há ciência por trás desta alegria contagiante: quando rimos, o nosso corpo liberta endorfinas, conhecidas como as "hormonas da felicidade", que ajudam a reduzir a dor e promovem uma sensação geral de bem-estar. O riso também fortalece o sistema imunitário, melhora a circulação sanguínea e até pode aumentar a esperança de vida.

Afinal, o riso não é apenas um reflexo de bem-estar, mas também um estímulo para a cura. Num mundo onde a dor e o sofrimento fazem parte da rotina hospitalar, Arlete Lourenço defende que rir pode ser uma ponte para a esperança, a empatia e o equilíbrio emocional.

 

 

P: A Terapia do Riso apresenta-se como um complemento inovador à prática clínica, ajudando enfermeiros e doentes a enfrentarem juntos as adversidades com um sorriso no rosto. Pode explicar-nos o que é a terapia do riso?

 

A Terapia do Riso ou Risoterapia, é um método terapêutico que existe desde a década de 60. Trata-se de uma terapia complementar que visa promover o bem-estar físico e emocional das pessoas através do riso. Ela auxilia na melhoria do estado emocional e orgânico das pessoas. Pode ser usada como coadjuvante ao tratamento médico formal, em pacientes com diferentes patologias, mas também como uma forma de prevenção de problemas físicos e mentais.

 

O primordial objetivo de uma sessão de Terapia do Riso é incentivar as pessoas a sorrir e rir, a proporcionar situações divertidas, a manter apenas os bons pensamentos, a potenciar os bons sentimentos, as boas lembranças, os pensamentos positivos, permitindo enfrentar com sucesso as adversidades do dia a dia.

 

Enquanto técnica terapêutica promotora de bem-estar, de saúde mental, segue passos estruturais. Deste modo, cada sessão de Terapia do Riso realizada é planeada e assente nas necessidades de cada grupo intervencionado, visando ir ao encontro das especificidades dos participantes a que se destina, trabalhando frustrações, angústias, medo.

 

P:  Por que é importante rir e que impacto tem o riso ou um sorriso na nossa saúde mental?

 

O Riso faz parte do ser humano, da sua história, da história da Humanidade. O Riso, as cócegas e as brincadeiras são uma das nossas primeiras experiências de vida! Basta lembramo-nos como ficamos felizes ao percecionar o primeiro esboçar de um sorriso de um bebé.

 

O Riso é poderoso. Ajuda a estabelecer relações sociais saudáveis connosco mesmos e com os outros. Os estudos científicos assim o comprovam: rir melhora a qualidade de vida das pessoas. Rir liga as pessoas muito para além do meramente superficial. Rir e sorrir faz-nos bem, e por isso, ele tem uma importância significativa nas nossas vidas. Quando rimos sentimo-nos melhor connosco mesmos, com quem nos rodeia, com a vida.

 

O sorriso e o riso, são instrumentos terapêuticos que podem e devem ser usados por todas as pessoas, independentemente da idade, sexo, estado civil, condição social, cor de pele, profissão. Servem a todas as pessoas, estejam elas “tristes, feridas, ansiosas, amedrontadas, deprimidas, impacientes, irritadas, preocupadas, magoadas, mal-humoradas, chateadas, transtornadas, enfermas, e até para as pessoas alegres ficarem mais felizes.” (Lambert, 1999).

 

Uma das funções essenciais do riso é a de comunicação. E a comunicação é o suporte da vida em sociedade. Ele é uma mensagem que cada um de nós envia às outras pessoas demonstrando disposição para brincar, para se ligar a elas, para ficarmos felizes e fazê-las felizes, mostrarmos que somos pacíficos.

 

Momentos de riso e alegria criam um espaço de partilha, afetam as emoções modificando as emoções negativas em positivas, reduzindo o stress. Os estudos salientam que outra função do riso é a de promover uma troca biológica, como por exemplo, descarregar tensões que se produzem perante emoções dolorosas como o medo, a angústia e a perda. Deste modo, o riso é um mecanismo fisiológico através do qual podemos descarregar as emoções fortes, contidas anteriormente, proporcionando assim, alívio e uma sensação de bem-estar.

 

Assim, o riso promove a criatividade e a aprendizagem, aumenta a auto-estima, diminui a ansiedade e a angústia, transmuta as emoções desagradáveis em agradáveis, potencia a resiliência; repõe a energia de uma forma geral e ainda traz consigo outro bónus: favorece a líbido.

 

Das inúmeras sessões realizadas, relembro partilhas inesquecíveis registadas pelos participantes, no final das mesmas: “Sinto-me com mais força para lidar com a minha doença”;

 

“Mais relaxado, e menos pessimista em relação aos problemas com a doença da minha mulher”;

 

“Sinto-me com melhor disposição para a vida perante a minha doença”;

 

 

P: Falou das pessoas que não riem: É uma questão fisiológica, emocional ou social?

 

A maioria de nós tem a capacidade de contração dos músculos faciais que nos permite esboçar o sorriso. Assumimo-lo como um dado adquirido. Por vezes, até menosprezamos esta capacidade que é tão importante na biologia humana e na interação social. Para quem tem condições raras de saúde, como é o caso da Síndrome de Moebius, um distúrbio que causa a paralisia total ou parcial dos músculos da face, responsáveis pelas expressões faciais, esboçar um sorriso torna-se uma missão de vida! Nesta situação, há lesão nos nervos cranianos tendo como principal manifestação a redução significativa ou a ausência total da capacidade de ativar os músculos faciais. A falta de expressão facial, característica marcante da síndrome, leva a dificuldades de interação social, pela ausência do sorriso. Tal é tão importante para a funcionalidade da pessoa que, em alguns casos, pode ocorrer a abordagem cirúrgica, conhecida como “cirurgia do sorriso”. O objetivo do procedimento é restaurar a função muscular, permitindo que o paciente possa produzir sorrisos, possibilitando a melhoria na comunicação social e, consequentemente, a relação com os outros, e tendo impacto significativo na melhoria da sua auto-estima.

 

P: Como é que o riso afeta o nosso sistema imunológico?

 

O riso tem benefícios a nível físico, mental e social. Quando rimos, há transformações positivas nos múltiplos sistemas do nosso organismo. Para termos uma ideia breve, alguns dos ganhos que advêm do Riso incorrem em: melhoria da respiração e aumento da oxigenação sanguínea; diminuição da dor, redução dos níveis das hormonas do stress, fortalecimento do sistema imunitário, diminuição da resposta inflamatória, melhoria da função cardiovascular e impacto positivo na tensão arterial, auxilia na regulação do metabolismo lipídico.

Os estudos comprovam que a estrutura músculo-esquelética sai beneficiada, o intestino melhora a sua funcionalidade e aumenta a esperança de vida e a taxa de sobrevivência em várias patologias crónicas (entre 35 a 70%).

 

P: A interação humana e os benefícios do riso: De que forma é que o riso promove estas interações e que impacto têm na nossa saúde mental e física?

 

Partilhar o riso é dos melhores momentos sociais. Cria laços de afetividade e perpetua sentimentos positivos. Ora, o riso e o humor têm um papel extraordinário na recuperação de estados de desequilíbrio. Uma das funções do riso é o descarregar de tensões que se produzem perante emoções dolorosas como o medo e a angústia, proporcionando uma sensação de bem-estar através de vários mecanismos biológicos. As investigações assinalam a forte associação entre o riso/humor e a satisfação com a vida, a satisfação profissional e a permanência no emprego.

 

P:  O que significa a frase “Rir é o melhor remédio”. E como se cultiva esta prática diária?

 

Curiosamente, o cérebro não distingue um riso genuíno de um riso induzido – ou seja, mesmo que não haja motivo para rir, o simples ato de o fazer já traz benefícios.

Pelos benefícios que traz a todos os níveis dado que é algo inerente ao ser humano, rir é realmente um excelente remédio! É gratuito, não custa a engolir, os efeitos secundários são agradáveis e o contágio é benéfico para todos.

 

P: Qual é a importância do riso na relação terapêutica e na interação entre enfermeiro e doente?

 

Nas vivências de situações em que se promove o Riso na Prestação de Cuidados, há o alcançar quer de Bem-Estar e de Felicidade nos envolvidos, como ocorre uma melhoria na Comunicação doente-enfermeiro/a. Os ganhos para relação terapêutica também são reportados, particularmente com a manifestação de maior sentimento de Acompanhamento por parte de quem é cuidado. Há similarmente, um impacto positivo na confiança no profissional e na sua prestação de cuidados.

 

Os estudos corroboram e defendem a sua utilização na prática de enfermagem, particularmente ao nível da prestação de cuidados de saúde. O Riso tem uma significativa importância nos Serviços de Saúde como estratégia de ajuda às pessoas.

 

 

 

P:  Quais os benefícios para o profissional de saúde/cuidadores e para a o utente?

 

O Riso tem vital importância na promoção de bem-estar nos indivíduos. Consequentemente, tem grande relevância no cuidar e no estabelecimento da relação terapêutica com a pessoa doente ou em risco de adoecer.

 

Importa salientar que, há mais de 30 anos, inúmeros hospitais de vários países: Estados Unidos, Brasil, França, Holanda, Itália, Nova Zelândia e Suécia perceberam a importância do riso quer no facilitar da cura dos doentes, assim como no fazê-los sentirem-se melhor, pelo que adotaram a comicoterapia.

 

O que se pretende, é o Riso passível de curar, que transmite compreensão dos sentimentos do doente/pessoa, que é expresso no momento oportuno, que respeita o outro como pessoa, facilitando a exploração do seu eu. Aqui sim, há ganhos para todos e representa que o profissional é aquilo a que chamo “Um lugar seguro e protetor para quem cuida”.

 

P: Como motivar o riso? Que estratégias sugere para despertar gargalhadas em doentes, colegas, familiares e em adolescentes. Como cultivar o riso na nossa prática diária quando temos desafios e um stress/cansaço diário que não nos desperta alegria?

 

O riso acompanha-nos, se assim o permitirmos, ao longo das nossas vidas. Ele é tão natural e necessário com respirar. Precisamos dos risos e das brincadeiras para interagirmos como indivíduos com o grupo social no qual estamos inseridos, e igualmente para aliviar as tensões sociais do quotidiano.

 

O riso é bom para o nosso corpo e para a nossa mente. São as nossas crenças sobre o que é apropriado ou não, que nos impedem de usar o riso para manter o equilíbrio da nossa vida emocional.  O riso pode ser um sinal de que estamos a aprender novos padrões, de que captamos um novo modo de ver algo. O que importa é se é somos nós ou se são as outras pessoas que determinam o modo como olhamos para a nossa própria vida!

 

P: Por vezes, esquecemo-nos de rir porque lidamos com casos difíceis e uma gargalhada ou um riso pode não ser oportuno ou adequado?  A interação com um par, colega, parceiro ou filho mais sério e sisudo pode ser um grande obstáculo a esta relação “mais risonha e divertida”. Como podemos contornar esta situação? Que estratégias e conselhos práticos pode dar?

 

Precisamos estar atentos ao outro, às suas necessidades, características e circunstâncias. O Riso é universal, mas a cultura, a sociedade e o grupo étnico no qual ele ocorre influenciam a sua ocorrência, a par com as situações em que é, ou pode ser considerado apropriado ou inapropriado. Assim, cada pessoa tem uma cultura que influencia a sua identidade e, consequentemente, este processo.

 

 

Podemos seguir o exemplo da enfermeira especializada em oncologia, Lynn Erdman, coordenadora do “Cancer Center no Presbyterian Hospital” de Charlotte, na Carolina do Norte, que pôs em execução, já há vários anos, um programa especial para os doentes de cancro. Neste processo, inicialmente são realizadas várias questões aos doentes, de forma individualizada, para apurar se é oportuno recorrer à comicoterapia no tratamento. Engloba perguntas como:

  1. Gosta de rir?
  2. Antes de ficar doente ria-se com facilidade?
  3. O que é a o/a faz rir? (recorrendo a exemplo concretos: comédias, partidas, desenhos animados, televisão)
  4. Quando foi a última vez que se riu intensamente?
  5. Com quem consegue rir-se mais? O que pensa das pessoas que o/a convidam a rir?
  6. Sente-se melhor depois de se ter rido?
  7. Consegue lembrar-se de uma experiência que lhe causou dor e que foi aliviada pelo rir?
  8. Onde lhe agradaria rir mais na sua vida?

Caso a pessoa responda “não” na primeira questão (Gosta de rir?), é necessário compreender melhor porque é que ele/a não gosta de rir ou, pelo menos, pensa que não gosta de se rir. Quando a causa for identificada, o/a enfermeiro/a pode continuar a aprofundar o discurso, por forma a compreender como é que o/a doente utiliza o riso, em que ocasiões, se sozinho/a, se em família, com os amigos. Com frequência, os doentes de cancro assumem que rir na sua situação não é apropriado. Então, cabe ao/à Enfermeiro/a legitimar o Rir, informando que não há nada de mal ou errado em dar uma boa gargalhada. De forma similar, se passa com muitos outros doentes de outras áreas.

 

Para os ajudar a rir podem ser usadas fotografias divertidas da família, dos amigos, dos colegas ou até do pessoal hospitalar apanhado em situações cómicas/divertidas. Pode-se também afixar nas paredes frases engraçadas e imagens de pessoas a rir/sorrir. Ou ainda mostrar vídeos, filmes, livros ou bandas desenhadas com teor cómico/humorístico/divertido. Outra ideia é criar uma minibiblioteca móvel decorada com elementos risonhos e que contenha balões, jogos, pistolas de água, puzzles, livros divertidos, livros para colorir, tintas para pintar com as mãos, bolas de sabão, elementos criativos com material hospitalar (seringas, estetoscópios…), e muito mais!

 

Estas estratégias podem ser usadas na estrutura de saúde, mas também nas nossas interações pessoais, familiares e de amizade. Os princípios são os mesmos.

 

Assim, retorno: estar atento plenamente ao outro e perceber, compreender e conhecê-lo, de forma a se estruturar o Riso terapêutico, é essencial. Manter-se presente e disponível para o processo, fará a diferença!

 

 

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Créditos fotografias: Nuno Pires Veloso  Morse.pt