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07-10-2026
Francisco Pulgar em entrevista: As histórias e Ideias que deram origem ao livro
“Por trás da farda, somos pessoas a cuidar de pessoas”
Natural da Andaluzia, Francisco Ollero, é conhecido entre colegas e amigos como Paco e trabalha há 22 anos no Serviço de Urgência do Hospital de Portimão. Chegou a Portugal em 2004, mas o seu percurso profissional inclui experiências em Espanha e Itália, que lhe permitiram conhecer diferentes culturas, formas de comunicar e diferentes contextos de prestação de cuidados.
A vontade de ajudar e de cuidar esteve presente desde cedo no seu percurso. A perda do pai, quando ainda frequentava o segundo ano da universidade, levou-o a iniciar uma experiência profissional em Itália, antes de chegar a Portugal. Ao longo de mais de duas décadas de trabalho na Urgência, a experiência acumulada, as pessoas que encontrou e as situações que viveu foram moldando a sua identidade enquanto enfermeiro e reforçando a importância que atribui à dimensão humana dos cuidados.
Foi também dessa experiência que nasceu o livro que acaba de lançar, intitulado "Antes de entrar no turno". A escrita começou de forma espontânea, através de frases, pensamentos e memórias que foi registando ao longo dos anos. A obra reúne histórias e reflexões sobre a realidade de quem trabalha numa Urgência, procurando dar visibilidade àquilo que muitas vezes não é visto nos corredores de um hospital: o lado humano de quem cuida. O impacto emocional de determinadas situações, a importância do trabalho em equipa, a necessidade de reconhecer limites, as despedidas e a forma como os profissionais também são afetados por aquilo que vivem fazem parte desta reflexão.
Nesta entrevista, fala sobre o seu percurso, as experiências que marcaram a sua prática profissional e as aprendizagens que foi construindo ao longo de mais de duas décadas de trabalho. Uma conversa sobre Enfermagem, humanização, resiliência e, sobretudo, sobre as pessoas que estão por trás da farda. O livro já está disponível e pode ser adquirido aqui.
"Gosto da adrenalina da urgência, da imprevisibilidade, de saber que cada turno pode trazer uma situação completamente diferente. Mas, sobretudo, gosto das pessoas e da equipa com quem trabalho."

O que o levou a escrever este livro?
"Sou o único da minha família ligado à área da saúde, mas nunca senti que a Enfermagem tivesse sido propriamente uma escolha. Desde cedo existiu em mim essa vontade de ajudar, de cuidar e de poder fazer a diferença na vida de alguém. Durante o segundo ano da universidade perdi o meu pai. Foi uma perda muito dolorosa, mas que acabou também por reforçar em mim essa vontade de cuidar. Como ele era o único rendimento da família, precisei de começar a trabalhar rapidamente. Foi assim que fui para Itália, o primeiro lugar onde encontrei trabalho, antes de chegar a Portugal. Entre Itália e Portugal fui percebendo que a Enfermagem é, em muitos aspetos, semelhante nos diferentes países. O que muda são sobretudo as pessoas de quem cuidamos e com quem trabalhamos, e nós, enquanto profissionais, temos de aprender a adaptar-nos a elas.
O livro nasceu de uma mistura de experiência, memória e necessidade de escrever. Sempre gostei de escrever frases soltas e pensamentos que me iam surgindo. Mas houve uma frase de uma aluna de Enfermagem que ficou cravada em mim: “Isso não aparece nos livros.” Já nem me lembro exatamente de qual era o procedimento ou a situação em que ela me disse aquilo. Mas lembro-me perfeitamente da pergunta. Fez-me pensar que, ao longo dos anos, vamos aprendendo muitas coisas que não estão necessariamente nos livros: aprendizagens que vêm das pessoas, das situações difíceis, dos erros, das perdas e da experiência.
Mais tarde, depois de uma palestra que apresentei nas Jornadas de Enfermagem, uma colega, a Nadine, perguntou-me: “Porque não publicas isto?” E foi aí que comecei a pensar seriamente na possibilidade de transformar aquelas histórias num livro.
No início, escrevi sobretudo para mim. Precisava de pôr algumas coisas cá para fora, de não deixar perder certas memórias e, de alguma forma, de descarregar a cabeça. Era quase como ter um psicólogo particular em papel. Só depois percebi que aquilo que estava a escrever talvez pudesse também ser útil ou significativo para outras pessoas."
"Gostava que o leitor percebesse que, por trás daquele profissional de saúde que, por vezes, pode parecer frio ou distante, está uma pessoa."
Qual a mensagem que pretende passar e a quem se destina este livro?
"A mensagem que quero transmitir é que a Enfermagem não é apenas técnica. Que tratar e cuidar não são exatamente a mesma coisa e que, mesmo perante a mesma doença, cada pessoa pode precisar de coisas diferentes. E, sobretudo, que por trás de cada enfermeiro existe uma pessoa. Não somos máquinas. Sentimos, cansamo-nos, temos medo, ficamos frustrados, levamos algumas coisas connosco para casa e, apesar disso, voltamos no dia seguinte para continuar a cuidar.
Quanto ao público, talvez a minha resposta seja simples: este livro é para quem o quiser ler. Naturalmente, penso nos colegas e nos estudantes de Enfermagem, mas também nos doentes, nas famílias e em todas as pessoas que conhecem a urgência do lado de fora. No fundo, quis mostrar que, por trás da farda, somos pessoas a cuidar de pessoas."
Como descreve estes mais de vinte anos de trabalho na Urgência e o que considera ter moldado a sua identidade enquanto enfermeiro?
"Cheguei ao Serviço de Urgência do Hospital de Portimão em 2004 e encontrei uma equipa muito jovem, mas com um enorme espírito de equipa e muita vontade de crescer e aprender. Dessa equipa inicial, hoje restamos apenas dois ou três. Fui ficando, aprendendo, ganhando confiança e experiência. Mas, durante muitos anos, tive a sensação de ser apenas mais um, um pouco invisível. Até que, passados cerca de vinte anos, chegou a minha atual chefe. Deu-me confiança, mas também responsabilidade. Apostou em mim e acreditou em mim, se calhar, mais do que eu próprio. E isso acabou por mudar também a forma como eu me via enquanto enfermeiro. Percebi que a experiência que tinha acumulado ao longo dos anos podia ser útil aos outros e que também tinha a responsabilidade de transmitir aquilo que tinha aprendido.
Ao longo destas duas décadas, tentei também construir com os meus colegas uma relação que fosse para além do simples trabalhar juntos. Quando cheguei a esta cidade, eram praticamente as únicas pessoas que conhecia. Talvez por isso sempre tenha sentido que os colegas podiam tornar-se uma segunda família. Sempre achei que se trabalha de outra maneira quando existe confiança, respeito e disponibilidade entre as pessoas. E acho que, no fundo, foi isso que procurei construir ao longo destes anos.
Hoje, olhando para trás, acho que a minha identidade enquanto enfermeiro foi sendo construída precisamente aí: na experiência, nas pessoas que encontrei pelo caminho, na confiança que fui ganhando e, sobretudo, na responsabilidade em transmitir aquilo que aprendi."

Que memórias guarda da chegada a Portugal em 2004 e do processo de adaptação à língua, à cultura e ao contexto clínico?
"Quando cheguei a Portugal, a equipa de enfermagem tinha uma particularidade que me ajudou muito: quase metade dos enfermeiros eram espanhóis. Isso facilitou bastante a minha adaptação inicial. Quanto à língua, como “bom espanhol” e sobretudo andaluz, confesso que não temos grande predisposição para aprender línguas. E, para complicar, vinha de Itália, onde tinha aprendido outra língua com muitas semelhanças, mas também muitas diferenças em relação ao espanhol e ao português. Por isso, no início, misturava palavras em italiano e espanhol pelo meio. Mas acho que, no fundo, não correu mal.
Uma das coisas que mais estranhei foi a formalidade nas relações profissionais. O espanhol é, de modo geral, mais descontraído e o português pareceu-me inicialmente mais formal. Custou-me, por exemplo, trocar o “tu” pelo “você”. Lembro-me de achar estranho que os portugueses tratassem os próprios avós por “você”. Hoje, com o tempo, sinto exatamente o contrário. Mas a adaptação não foi apenas linguística. Também tive de aprender a perceber uma cultura diferente, uma forma diferente de comunicar e de me relacionar com as pessoas. E acho que isso acabou por ter influência na forma como trabalho: quando lidamos com pessoas, não podemos partir do princípio de que todos comunicam, sentem ou reagem da mesma maneira. Temos de aprender a adaptar-nos. Talvez tenha sido uma das primeiras grandes aprendizagens que trouxe comigo para a Enfermagem: a técnica pode ser a mesma, mas as pessoas nunca são exatamente iguais."
"Às vezes, aquilo de que a pessoa precisa não é apenas que lhe controlemos a tensão arterial ou a frequência cardíaca. Precisa que alguém lhe explique o que está a acontecer, que lhe segure a mão, de uma conversa, de um toque ou, por vezes, simplesmente de presença"

De que forma os anos em Itália influenciaram a sua prática e a forma como olha para a Enfermagem?
"A experiência de trabalhar em Espanha, Itália e Portugal fez-me perceber que, apesar de falarmos da mesma Enfermagem, a forma de cuidar pode ser muito influenciada pelas pessoas e pela cultura. A maneira de comunicar, de abordar alguém, de criar confiança e até de perceber quando uma pessoa está disponível para falar não é igual em todos os sítios. O que num país pode ser entendido como uma brincadeira, noutro pode ser mal interpretado. E isso ensinou-me uma coisa que considero muito importante na Enfermagem: não podemos comunicar com todos da mesma maneira. Temos de observar, ouvir e perceber quem temos à nossa frente.
Ao longo dos anos, fui ganhando essa capacidade de adaptação. Não significa mudar aquilo que somos enquanto profissionais, mas perceber que a pessoa que está à nossa frente pode precisar de uma abordagem diferente daquela que funcionaria com outra. Talvez seja essa uma das maiores aprendizagens que trouxe das experiências nos diferentes países: a Enfermagem pode ter protocolos, técnicas e conhecimentos comuns, mas cuidar continua a ser, acima de tudo, uma relação entre pessoas."
Em que momento percebeu que as histórias da Urgência precisavam de ser escritas?
"O livro começou muito antes de eu pensar que algum dia iria escrever um livro. Sempre gostei de escrever frases soltas, pequenos parágrafos e pensamentos que me iam surgindo, sobretudo depois de determinados turnos ou situações que me ficavam na cabeça. Durante muito tempo, eram apenas coisas que escrevia para mim. Mas houve uma situação que acabou por ficar comigo. Uma aluna de Enfermagem, depois de uma situação que tinha acontecido na Urgência, dirigiu-se a mim e disse-me: “Mas, isso não aparece nos livros! Na altura não pensei imediatamente em escrever um livro. Mas aquela frase ficou-me na cabeça. Porque, de facto, há muitas coisas que aprendemos na Enfermagem que não aparecem nos livros: aprendemos com as pessoas, com os colegas, com os erros, com as situações difíceis e com aquilo que vamos vivendo ao longo dos anos.
Mais tarde, depois da apresentação que fiz nas I Jornadas de Enfermagem de Urgência e Emergência da ULS Algarve, uma colega (Nadine) incentivou-me e perguntou-me, de certa forma, porque é que não transformava aquilo num livro. Foi aí que a ideia deixou de ser apenas uma brincadeira ou uma possibilidade distante e comecei a pensar que talvez pudesse mesmo fazê-lo. E foi assim que começou. Sem um plano muito definido, sem saber sequer se conseguiria chegar ao fim, mas com a vontade de não deixar perder aquelas histórias e aquelas aprendizagens."

Como foi transformar vivências tão intensas em texto? Libertador, difícil ou confortante?
"No início, o livro funcionou quase como um psicólogo particular. Eu ia descarregando coisas, memórias, situações e pensamentos que tinha acumulado ao longo dos anos. Por um lado, foi libertador. Por outro, foi um processo bastante difícil. Cheguei a fazer cerca de oito versões do livro. Foi escrever, reescrever, cortar, voltar atrás e muitas vezes pensar que não ia conseguir ou que aquilo que estava a fazer não era suficiente. E essa dúvida acompanhou-me praticamente até o fim. Mas fui continuando, também muito graças às pessoas que nunca deixaram de acreditar em mim: a minha esposa, a minha chefe, a Ana, a Joana e outras pessoas que me foram incentivando e dando força para continuar. Acho que, sem essas pessoas, provavelmente teria sido muito mais difícil chegar até aqui."
O que gostaria que o leitor compreendesse sobre a Urgência que não se vê nos corredores ou nos números?
"Gostava que o leitor percebesse que, por trás daquele profissional de saúde que, por vezes, pode parecer frio ou distante, está uma pessoa. Uma pessoa que também sente, que também tem medos, inseguranças e frustrações e que também leva algumas coisas para casa depois de sair do hospital. Na Urgência, trabalhamos diariamente com a dor, com a doença, com a morte e com situações que nem sempre conseguimos deixar à porta quando terminamos o turno. Com o tempo aprendemos a ser mais eficientes, a tomar decisões mais depressa e a lidar melhor com determinadas situações, mas isso não significa que deixemos de sentir. E acho que era importante mostrar precisamente isso: que por trás da técnica existe sempre uma pessoa. E que reconhecer essa dimensão humana não nos torna profissionais menos fortes ou menos competentes. Faz parte de sermos enfermeiros."
"Com o tempo aprendemos a ser mais eficientes, a tomar decisões mais depressa e a lidar melhor com determinadas situações, mas isso não significa que deixemos de sentir."

O que significa, para si, “olhar para além dos monitores?”
"Os monitores são importantes, muito importantes. Mas não nos podemos esquecer de olhar também para o doente. Às vezes, aquilo de que a pessoa precisa não é apenas que lhe controlemos a tensão arterial ou a frequência cardíaca. Precisa que alguém lhe explique o que está a acontecer, que lhe segure a mão, de uma conversa, de um toque ou, por vezes, simplesmente de presença. Na Urgência, com o tempo, vamo-nos tornando mais rápidos, mais eficientes e mais seguros naquilo que fazemos. Mas não podemos deixar que essa eficiência nos faça esquecer a pessoa que está deitada à nossa frente. Porque podemos estar a controlar todos os parâmetros e, ainda assim, não estar a cuidar verdadeiramente daquela pessoa."
Há episódios que ficaram gravados de forma definitiva na sua memória?
"Sim. Acho que isso é inevitável quando trabalhamos tantos anos numa Urgência. Acabamos o turno, voltamos para casa, para a nossa vida, mas alguma coisa fica sempre connosco: um rosto, uma imagem, uma frase, uma morte e, por vezes (ainda bem!) também uma gargalhada ou um momento de descontração com um doente ou com os colegas. Ao longo dos anos, os nossos “bolsos” vão-se enchendo dessas memórias. Algumas pesam mais do que outras e ficam connosco durante anos. Foi também por isso que comecei a escrever. Para tentar deitar algumas dessas coisas cá para fora e, ao mesmo tempo, não deixar que determinadas histórias se perdessem."

Que papel desempenha a intuição na prática diária, sobretudo em cenários de pressão extrema?
"No livro descrevo-a como uma espécie de “radar” que vamos desenvolvendo com os anos. É o resultado do acumular de centenas de situações, de casos que correram bem e de outros que correram mal. Com a experiência, o nosso cérebro começa a reconhecer determinados padrões antes de conseguirmos explicar exatamente aquilo que estamos a sentir. Mas isso não significa que a intuição seja uma espécie de sexto sentido, nem que devamos confiar nela cegamente. Para mim, quando esse radar apita, é um sinal para parar e perguntar: “Porquê?”
O importante é depois procurar aquilo que está a justificar essa sensação: voltar a observar o doente, reavaliar, fazer perguntas, procurar sinais que talvez nos tenham escapado. A experiência dá-nos esse radar, mas é o raciocínio clínico que nos ajuda a perceber por que razão apitou."
"Uma equipa constrói-se com confiança, respeito e disponibilidade, mas também com a certeza de que, quando for preciso, não vamos estar sozinhos. E isso, numa Urgência, vale muito."
Como o humor e o companheirismo ajudam a suportar o desgaste emocional?
"A equipa numa Urgência é essencial. Aqui ninguém faz nada sozinho, por mais experiência ou competência que tenha. E não falo apenas de dividir tarefas. É muito mais do que isso. É conhecer quem está ao nosso lado. É perceber, pelo olhar de um colega, que alguma coisa não está bem. É saber que, quando a sala fica caótica, vai aparecer alguém. Às vezes nem sabemos quem chamou, nem precisamos de pedir.
Uma equipa constrói-se com confiança, respeito e disponibilidade, mas também com a certeza de que, quando for preciso, não vamos estar sozinhos. E isso, numa Urgência, vale muito. E depois há o humor. Também aprendi que rir pode ser uma ferramenta de trabalho. Uma brincadeira bem colocada consegue, por vezes, abrir mais caminhos do que o melhor cateter que tenhamos no serviço. E há também aquele humor mais negro que aparece entre colegas. Não significa falta de respeito por quem está a sofrer. Muitas vezes é simplesmente uma forma de libertar alguma tensão, respirar e conseguir voltar a entrar no turno seguinte. Porque também precisamos de encontrar formas de continuar a cuidar sem deixar que aquilo que vemos todos os dias nos consuma."

Que estratégias desenvolveu ao longo dos anos para lidar com o impacto emocional de Urgência?
"Falar com algum colega ajuda. Em casa, é a minha mulher que muitas vezes ouve os meus desabafos, embora tente não a sobrecarregar demasiado com aquilo que trago do trabalho. E escrever também me ajudou muito a deixar algumas coisas sair de cá dentro. Mas tenho também um ritual muito simples, que descrevo no livro: o momento de despir a farda. É quase um ato de passagem. Entro no duche, deixo a água quente levar o cansaço, o cheiro a hospital e tudo aquilo que conseguir deixar ali.
Quando visto a roupa civil, tento voltar a ser apenas o Paco, o marido e o pai, antes de chegar a casa. Nem sempre consigo desligar completamente, mas esse ritual ajuda-me a separar o enfermeiro dos outros papéis que tenho na minha vida. Não é uma fórmula mágica. Há turnos que nos acompanham até casa. Mas aprendi que também precisamos de criar pequenos momentos para tentar deixar o hospital do outro lado da porta."
Como se reconhecem os próprios limites num serviço onde tudo é urgente?
"Isso custou-me, sobretudo no início. Aprender a reconhecer aquilo que está nas nossas mãos e aquilo que não está foi uma das aprendizagens mais difíceis. Durante muito tempo confundi fazer tudo com poder tudo. Se alguma coisa corria mal, sentia que a culpa era minha, que não tinha sido suficientemente rápido ou suficientemente bom. Há um episódio no livro que resume bem essa aprendizagem. Estávamos a insistir num doente quando já não havia benefício real naquilo que estávamos a fazer, e um colega olhou para mim e disse baixinho: “Isto já não é cuidar, Paco… isto é magoar.” Ninguém respondeu. Mas todos parámos. Foi aí que percebi que saber parar também pode ser uma forma de cuidar. Com o tempo, vamos aprendendo que nem sempre conseguimos salvar uma vida. Mas mesmo quando já não conseguimos salvar, podemos continuar a cuidar: aliviar, acompanhar, estar presentes e preservar a dignidade daquela pessoa."
"O momento de despir a farda. É quase um ato de passagem. Entro no duche, deixo a água quente levar o cansaço, o cheiro a hospital e tudo aquilo que conseguir deixar ali."
O livro aborda despedidas. Como se aprende a lidar com as despedidas?
Nas urgências, preparamo-nos sobretudo para tratar situações agudas, mas acabamos muitas vezes por cuidar de pessoas com doenças crónicas que vão passando repetidamente pelas nossas mãos. Sobretudo em cidades não muito grandes, há doentes que vamos conhecendo ao longo dos anos. E é impossível não nos afeiçoarmos a algumas dessas pessoas. Deixam de ser apenas “o doente da cama X” e passam a ser alguém que reconhecemos, com quem conversamos e de quem sabemos algumas coisas que nada têm a ver com a doença.
Quando a doença acaba por vencer e essa pessoa deixa de aparecer, sentimos a sua falta. Sentimos falta daquele que “vinha sempre”, daquele rosto que já fazia parte da nossa rotina. Nesses momentos, tento pensar que, enquanto esteve connosco, fizemos aquilo que estava ao nosso alcance: aliviámos sofrimento, acompanhámos, ouvimos e tentámos proporcionar o máximo de conforto e dignidade possível. Não torna a despedida fácil. Mas ajuda-me a perceber que cuidar também é isto: estar presente enquanto ainda podemos fazer alguma coisa e, quando chega o momento, saber acompanhar até ao fim.

A URGÊNCIA VISTA “DO OUTRO LADO”
Como foi estar na Urgência não como enfermeiro, mas como familiar? O que mudou no seu olhar sobre os cuidados?
"Quando perdi o meu pai estava no segundo ano da universidade. Estudava longe de casa e ainda hoje me lembro daquela noite. Recebi a notícia de que tinha sofrido um enfarte e tinha sido levado para o hospital. Era 1998 e, naquela altura, não havia telemóveis e as notícias demoravam a chegar. Lembro-me de dizer a um colega de curso: “Bom, se foi para o hospital, vão salvá-lo”. Não foi assim. Foi a minha primeira grande chapada de realidade. Por outro lado, este ano perdi também a minha mãe, vítima de cancro gástrico. Tinha feito uma gastrectomia e quimioterapia e chegou a melhorar, mas no início deste ano surgiu uma recidiva que acabou por vencer. Tive o privilégio de estar com ela na sua última noite, internada nos cuidados paliativos, até ao fim.
Gostava de ter conseguido estar mais perto durante todo o processo, mas o meu trabalho, num país vizinho, nem sempre me permitiu estar tão presente quanto desejava. Talvez por tudo isso, hoje reveja muitas vezes nos familiares que estão à porta de uma urgência aquilo que eu próprio senti. O medo, a espera, a falta de informação, a angústia de não saber o que está a acontecer. E tento fazer por essas pessoas aquilo que, em algum momento, eu próprio gostava que tivessem feito por mim."
O que esta experiência lhe ensinou sobre vulnerabilidade, a sua e a dos outros?
"Hoje percebo melhor que, muitas vezes, o que mais nos angustia numa doença nem sequer é a dor. É a insegurança. É não saber o que está a acontecer, não saber o que vai acontecer a seguir ou que consequências aquela situação pode deixar. É ficar à espera de uma informação, de uma decisão, de alguém que nos diga simplesmente o que se está a passar. E, enquanto esperamos, a nossa cabeça começa a imaginar todos os cenários possíveis.
Quando estamos do lado de dentro da Urgência, sabemos que há muitas coisas a acontecer ao mesmo tempo e que nem sempre conseguimos explicar tudo imediatamente. Mas, quando estamos do outro lado, essa espera pode parecer interminável. Hoje também percebo melhor que a doença não afeta apenas quem está deitado na maca. A família e os amigos sofrem, têm medo e também precisam de cuidados, embora nem sempre nos lembremos disso. Talvez uma das coisas que a experiência como familiar mais mudou em mim tenha sido precisamente esta: perceber que, para quem está do outro lado, uma explicação, uma palavra ou simplesmente alguém que pare e diga “eu sei que está a ser difícil” pode ter um peso enorme."

Como está organizado o livro e que tipo de histórias o leitor vai encontrar?
"Não quis escrever um livro corrido, daqueles que só fazem sentido quando são lidos do princípio ao fim. Quis que cada capítulo pudesse funcionar quase como uma história independente, que alguém pudesse abrir o livro ao acaso e ler apenas aquele episódio. Foi uma opção deliberada, também porque sei que quem trabalha numa urgência nem sempre tem tempo ou cabeça para se sentar e ler um livro inteiro de uma só vez. Cada capítulo nasceu de um episódio real, ou, em alguns casos, de vários episódios que acabaram por se fundir num só, e de uma pergunta que esse episódio me deixou. O que significa ter intuição clínica? O que pode o humor fazer numa equipa? Onde está a linha entre continuar a lutar e perceber que é altura de deixar ir? O que muda quando, em vez de estarmos ao lado da maca, somos nós que estamos deitados nela?
E quis também que o próprio livro tivesse uma espécie de percurso. Começa antes de entrar no turno, passa por tudo aquilo que vamos vivendo dentro da Urgência e termina quase como termina um turno: com o momento de tirar a farda, respirar e ir para casa."
Se tivesse que resumir o livro numa ideia essencial, qual seria?
Se tivesse que resumir o livro numa frase, diria que cuidar é muito mais do que tratar. A técnica é fundamental, mas por trás de cada farda existe uma pessoa, e do outro lado também. O livro fala precisamente desse encontro entre pessoas, nos momentos em que uma delas está mais vulnerável. E há uma frase num dos capítulos do livro que, para mim, resume tudo aquilo que quis transmitir: “A enfermagem não salva sempre, mas pode sempre cuidar”.
"Em algum momento, todos podemos estar de um lado ou do outro da maca."

Para quem escreveu este livro?
"Não penso no livro como sendo dirigido a um único público-alvo. Para colegas, gostava que fosse sobretudo um livro de reconhecimento. Que, a lerem algumas histórias, pensassem: “isto também já me aconteceu”. Para os estudantes de Enfermagem, gostava que pudesse mostrar algumas das coisas que a formação não consegue ensinar completamente: a relação com o doente, a pressão, as dúvidas, os erros, as perdas, o trabalho em equipa e aquilo que vamos aprendendo com a experiência. E, para os doentes, os familiares e quem conhece a urgência apenas do lado de fora, gostava que o livro permitisse perceber um pouco melhor o que acontece do outro lado daquelas portas. No fundo, não é preciso ser enfermeiro, nem sequer trabalhar na saúde, para se identificar com muitas histórias. Porque, em algum momento, todos podemos estar de um lado ou do outro da maca. Acho que o contributo do livro pode estar precisamente em dar nome a algumas coisas de que raramente falamos abertamente numa equipa: a intuição clínica, o humor como ferramenta de trabalho, a dificuldade em reconhecer os nossos próprios limites ou o peso emocional que vamos acumulando.
São coisas que muitos profissionais vivem, mas que nem sempre são discutidas. Se o livro conseguir provocar essa conversa entre colegas, se alguém o ler e pensar “eu também sinto isto” ou se uma equipa começar a falar sobre aquilo que normalmente fica por dizer, então já considero que teve algum impacto. Não espero que o livro ensine a ninguém a ser melhor enfermeiro. Isso seria demasiado pretensioso. Gostava simplesmente que ajudasse a parar, pensar e conversar sobre a profissão de uma maneira um pouco diferente."
O que gostaria que a sociedade percebesse sobre o trabalho dos enfermeiros ao ler esta obra?
"Acho que há duas realidades que muitas vezes convivem quando se fala de uma urgência. Por um lado, existe alguma incompreensão. As esperas longas, a triagem, a sensação de que alguém chegou depois e foi atendido primeiro…Para quem está do lado de fora, nem sempre é fácil perceber por que razão isso acontece. Muitas vezes, existe uma lógica de prioridade clínica que não é evidente para quem está à espera. E essa incompreensão acaba, por vezes, por gerar frustração, que é dirigida precisamente a quem está ali a tentar ajudar. Mas existe também o extremo oposto: a ideia de que somos quase “heróis”. Parece um elogio, mas acho que, às vezes, essa palavra também simplifica demasiado aquilo que somos. Porque atrás da farda existe uma pessoa, com medos, dúvidas, cansaço e limites.
Gostava que o livro ajudasse a olhar para a Enfermagem de uma forma um pouco mais completa. Não apenas através daquilo que fazemos tecnicamente, mas também através daquilo que sentimos, das decisões que temos que tomar e do peso que algumas situações deixam. Se alguém terminar o livro e perceber um pouco melhor o que existe do outro lado da porta de uma urgência, então já terá cumprido uma parte importante daquilo que eu gostava que acontecesse."
"Ninguém chega à Urgência pronto. Vamos ficando prontos pelo caminho."

Que mensagem gostaria de deixar aos enfermeiros mais jovens?
"Ninguém chega à Urgência pronto. Vamos ficando prontos pelo caminho. Vão existir dias em que vão sair do turno orgulhosos daquilo que fizeram e outros em que vão chagar a casa a pensar que podiam ter feito melhor. E vão existir erros, dúvidas e situações para as quais vão sentir que não estavam preparados. Isso faz parte do processo. Sobretudo, não tenham medo de perguntar. Perguntem quando não souberem, peçam ajuda quando precisarem e não tenham vergonha de dizer “não sei”. Quem já cá está há mais anos também já passou por isso. Também teve dúvidas, também errou e também houve dias em que foi para casa a pensar no que podia ter feito de outra maneira.
A experiência não significa saber tudo. Significa ter vivido muitas situações e continuar disponível para aprender com elas. E talvez seja essa a principal mensagem que gostava de deixar a quem está a começar: não tenham pressa em chegar a algum lado. Observem, perguntem, aprendam com os outros e, sobretudo, não percam a vontade de aprender. Porque ninguém chega à Urgência pronto. Vamos ficando prontos pelo caminho."
Por último, como definiria a Enfermagem depois de duas décadas na Linha da Frente? O que ainda o move? O que continua a motivá-lo a entrar em cada turno?
"Não sei muito bem como definir a Enfermagem depois de tantos anos. Sei que a forma como a vejo e a forma como eu próprio trabalho mudaram muito. Continuo a gostar daquilo que faço. Gosto da adrenalina da urgência, da imprevisibilidade, de saber que cada turno pode trazer uma situação completamente diferente. Mas, sobretudo, gosto das pessoas e da equipa com quem trabalho.
Ao mesmo tempo, não vou romantizar isso. Tenho algum receio do desgaste físico e emocional. Depois de mais de vinte anos de urgência, sei que o corpo vai dando sinais e que não podemos ignorar isso para sempre.
Mas, enquanto conseguir, continuo a encontrar razões para entrar naquele serviço. Às vezes é uma situação clínica que nos desafia, outras vezes é um colega que precisa de ajuda, ou simplesmente aquela sensação de saber que, naquele momento, podemos fazer alguma diferença para alguém.
Acho que é isso que continua a mover-me: a soma de tudo o que a urgência me deu ao longo destes anos. A adrenalina, as pessoas, a equipa, as histórias e aquilo que aprendi com os momentos difíceis. E talvez seja por isso que, mesmo depois de tantos anos, continuo a entrar em cada turno sem saber exatamente o que vou encontrar do outro lado daquela porta."

Francisco Ollero Pulgar





