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19-08-2024
Enfermeira Cristina Centeno: uma vida de missão humanitária
Ainda era estudante quando a Enfermeira Cristina Centeno disse a si própria que um dia faria uma missão humanitária. A ideia inicial era essa: uma missão. Em 1986 esteve no deserto do Mali a ajudar crianças desnutridas. Porém, uma missão passou a duas, três, quatro… O número está nas 11, numa vida que acabou por ser dividida ainda com o ensino na Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa. As histórias multiplicam-se. A forma como as conta demonstram como viveu intensamente, enfrentando vários cenários de guerra, de catástrofe, sempre destemida e focada na ajuda que poderia dar no que fosse preciso.
"Não se pode pensar. Porque se se pensa, não se vai", afirma, reiterando enquanto recorda momentos que poderiam levar a ponderar (e muito) a presença em missões que acarretam riscos para a segurança e saúde.
Senão vejamos: "Passei por cima de minas que não rebentaram, tive pessoas a disparar à minha volta que não acertaram porque eram zarolhas, tive duas vezes paludismo cerebral, que se morre ao primeiro…" E há que acrescentar que viu bem perto o cano de uma kalashnikov!
Além do "não pensar", Cristina Centeno destaca que aceitar estas missões também advém do "querer fazer coisas diferentes, sem demérito para quem está nos centros de saúde e hospitais". Reforça dizendo que experimentou as missões humanitárias e gostou. O fundamental? “As pessoas com quem se trabalha e o suporte da organização [responsável pela missão].” E considera ainda essencial o funcionamento em equipa.
Como tudo começou
Estudou na Cruz Vermelha Portuguesa e uma enfermeira que ali lecionava a cadeira que abordava a história da instituição, acabou por aguçar a vontade de Cristina Centeno de fazer uma missão humanitária.
Ao terminar o curso, Cristina Centeno admite que não gostava dos ambientes hospitalares. Ainda não sabia o caminho certo a seguir, mas como afirma: "Só sabia que não gostava." Foi no Hospital de Santa Cruz que encontrou um local onde se sentiu bem. Unidade recente, muito procurada por todos, mas a enfermeira conseguiu lá ficar.
Ao contar a sequência de eventos que a levou à primeira missão e às seguintes, percebe-se como sempre foi atrás do que queria, aproveitando todas as oportunidades. E foi precisamente isso que aconteceu quando foi ao Mali na sua primeira missão, depois de ter ido para a Suíça tirar um curso. Porém, ao não conseguir entrar no curso que queria, soube por uma enfermeira de uma Organização Não Governamental americana que prestava apoio humanitário, agarrou a oportunidade.
Perguntaram-lhe: "Para onde vai é completamente deserto e não tem nada de nada. Já pensou nisso?" Respondeu que não. "Não quer pensar?" Foi taxativa: "Não, quero ir."
Recorda que não conhecia nada do Mali. Aterrou em Bamako e seguiu numa pequena avioneta até o local onde ficaria os próximos seis meses. No meio do deserto, trabalhou num centro de recuperação nutricional para crianças. O tempo “fresco” era às quatro da manhã, quando estavam 40 graus. A fome e seca dominavam.
O choque cultural também foi uma lição, como por exemplo, o modo como as mães lidavam com a morte de uma criança. Foram os tuaregues que a ajudaram quando sofreu paludismo cerebral, tratando a enfermeira com o que tinham. “Eu estive 24 horas do ‘lado de lá’”, conta.
Continuou fiel ao que parece ser quase um mantra. Não pensar no que pode acontecer. Se é o que quer, age.
Estávamos em 1986 quando Cristina Centeno regressou ao Hospital de Santa Cruz. Tinha concretizado a tão desejada missão humanitária. Mais tarde, seria convidada pela mesma ONG para nova missão no Mali. O recente divórcio fez com que recusasse. Mas não, não era fim, muito estava para acontecer, a começar pelo regresso ao Mali em 1993, desta feita, integrada no Comité Internacional da Cruz Vermelha.
Entre essas missões foi convidada para lecionar na Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa. O Comité Internacional precisou de alguém que falasse português para ir para Moçambique. A enfermeira encaixava na perfeição no perfil desejado. Mais tarde seguiram-se duas missões em Angola.
Dizia sempre que era a última vez… Mas não era. Foi sempre apostando na sua própria formação e quando a escola fechou um ano letivo para atualizar o programa de ensino, Cristina Centeno pediu autorização para ir tirar o curso de patologia tropical na Bélgica.
Nem sempre foi pacífica a ida para as missões e a ausência na escola – algo bem patente quando quis ir para Timor – e não ajudava a falta de progressão na carreira. Maria Barroso, então presidente da Cruz Vermelha Portuguesa, fazia permanentes apelos para que houvesse voluntários e Cristina Centeno queria responder.
Depois de obter uma licença sem vencimento, a enfermeira partiu para Timor com outra organização. Trabalhou num hospital dedicado ao tratamento da tuberculose. Gostou do trabalho, mas nem tudo correu bem. Os médicos que lá estavam foram gozar férias e não voltaram. Ficou sozinha e acabou por perceber porquê. Sem receber o pagamento devido, também Cristina Centeno encurtou a estadia em Timor para seis meses.
Sobravam outros tantos da licença sem vencimento. Falou com o Comité e fez as malas rumo ao México. Até então, os cenários que encontrava eram marcados por conflitos. Mas chegaria a missão que a faz desabafar: "Uma pessoa sente-se completamente impotente."
Guerra vs Catástrofe
A 26 de dezembro de 2004 um tsunami devastou vários países do sudeste asiático, incluindo a Indonésia. O Estado português formou uma equipa de ajuda humanitária. Cristina Centeno fez parte dela e pela primeira vez enfrentou um cenário de catástrofe.
"Em cenários de guerra, ou estou no centro de saúde, ou faço uma visita, ou vou ao hospital… sempre em stress. Há coisas que correm muito bem, há dias que se está melhor que noutros. Em 24 horas estamos a chorar porque uma criança morreu, três horas depois estamos a descarregar um avião com material de farmácia e ‘salva-se’ o mundo, mas à noite já se chora por qualquer razão… Durante o dia são vários picos [emocionais]", conta.
"É diferente o que sentimos quando se trata de uma guerra ou quando se trata de uma catástrofe. Quando cheguei à Indonésia, não se ouvia uma mosca, e interroguei-me: 'o que é que eu vim cá fazer? Não há nada para fazer, está tudo morto.'"
Foi o choque inicial ao ver vários corpos, numa região devastada pelas ondas que marcaram para sempre os países afetados. "O cheiro… Ainda tenho esse cheiro no nariz."
Não demorou a perceber que havia muito para fazer. Quem sobreviveu precisava e muito de ajuda. Em 48 horas, os 15 membros da equipa (todos muito experientes) montaram um hospital.
O objetivo inicial apontava para a presença de 30 pessoas na equipa. Só foi possível enviar metade, com apenas duas enfermeiras incluídas. Cristina Centeno e a colega estiveram dois meses a trabalhar, com rápidas saídas para dormir um pouco e tomar banho, sempre dedicadas em garantir que nada falhava no hospital. Inevitavelmente, o cansaço tornou-se impossível de esconder. Ao fim de cerca de dois meses regressou a Portugal quando a equipa foi revezada.
Foi a Indonésia a missão mais marcante? Não. Recuamos no tempo, novamente ao Mali, o país que, esse sim, marcou-a, tanto por ser a primeira missão, mas também por o que lá viveu.
As marcantes missões no Mali
Desta feita recorda a segunda passagem, quando viu de bem perto uma kalashnikov apontada a ela. Cristina Centeno regressou ao Mali integrada no Comité Internacional da Cruz Vermelha. Um dia, teve de ir buscar uma criança de sete anos que, aos três, havia sido levada pelos rebeldes após matarem a família.
Era um ambiente diferente da primeira missão: "Já havia rebelião, rapto de pessoas. Da primeira vez, os tuaregues eram os nobres do Mali. Havia fome e seca. A partir de certa altura passou a ser a zona dos guerrilheiros."
Ao transportarem a criança, a delegação foi abordada por rebeldes. "Nós percebemos quando o ambiente é hostil ou não. Eu percebi que o ambiente não era hostil, mas com uma kalashnikov na mão…"
A Enfermeira Cristina Centeno trajava uma t-shirt e, na parte de baixo, um pano que ficava um pouco acima dos joelhos. Quando um dos rebeldes lhe apontou a arma, a Enfermeira baixou o pano para tapar mais as pernas e evitou olhar nos olhos, pois não o devia fazer. No entanto… "Olhei para ele e pensei que me ia matar… Mas o homem era lindo. Veja lá a estupidez", diz, recordando os olhos verdes do rebelde.
"Eu só dizia 'Comité da Cruz Vermelha, enfermeira, Convenção de Genebra' e mais nada." O motorista, que falava francês e árabe, interveio e, entretanto, o chefe da delegação falou com os rebeldes. No dia seguinte, o chefe tuaregue e o homem "pequeno" dirigiram-se à delegação e quiseram falar com o responsável.
A situação ficou esclarecida e o desconhecimento da missão da Cruz Vermelha fez com que reagissem daquela forma. Porém, o pequeno homem até pediu desculpa à enfermeira, caso a tivesse ofendido por ter apontado a arma: “Na altura pareceu-me uma coisa enorme com os olhos verdes e, afinal, só tinha para aí um metro e meio!"
Aos 65 anos, as histórias multiplicam-se, cada uma mais intensa do que a outra, mas sempre com a clara noção de que tudo fez para que a ajuda chegasse a quem dela precisasse. Considera a polivalência essencial para quem quiser estar presente em missões humanitárias e reforça a necessidade da confiança na equipa e quem a coordena, algo que fez a diferença quando esteve na Indonésia.
Nunca deixou de lecionar e depois de muita persistência, conseguiu que fosse criada a cadeira Missões Humanitárias, Situação de Catástrofe e Conflito. Também fez durante 11 anos voluntariado num orfanato em Moçambique.
A dedicação à Cruz Vermelha faz com que tenha recebido com orgulho o convite para representar as enfermeiras que estiveram presentes na Batalha de La Lys (1918), na primeira vez que o governo francês convidou a Cruz Vermelha para o evento que assinalou a data marcante da Primeira Guerra Mundial.
Será que já fez a sua última missão? O sim não é perentório. Contudo, realça que quer continuar a dar aulas quando recuperar do problema de saúde que recentemente a afetou. "Quando chegar à reforma - eu estudo filosofia, geopolítica e pinto - não me vou aborrecer!"
ES/GCI





