Dia Nacional da Doação de Órgãos e da Transplantação

  • 20-07-2026

 

"A doação de órgãos é uma das áreas mais avançadas da medicina moderna. Permite salvar vidas, recuperar autonomia e devolver esperança a quem vive com falência terminal de órgãos. É, por isso, uma área estratégica da saúde pública, onde Portugal se afirma como referência internacional."

 

Assinala‑se hoje, 20 de julho, o Dia Nacional da Doação de Órgãos e da Transplantação, instituído em 2019 com o propósito de reconhecer publicamente os dadores, as suas famílias, os profissionais de saúde e de reforçar a sensibilização da sociedade para a importância da doação de órgãos como gesto que salva vidas e melhora a qualidade de vida de milhares de doentes.

 

Neste dia, apresentamos o testemunho da Enfª Vanda Palmeiro que, ao longo dos 25 anos de atividade profissional, tem contribuído de forma consistente para o desenvolvimento, segurança e qualidade dos processos de colheita e transplantação em Portugal.

 

Vanda Palmeiro integra a Coordenação Nacional da Transplantação do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST), onde participa no desenvolvimento do Sistema Nacional de Biovigilância, na monitorização de ocorrências e na elaboração de relatórios que asseguram transparência e melhoria contínua do sistema. O seu trabalho é reconhecido pela forte componente ética, científica e humana, refletindo o compromisso de garantir que cada órgão doado é tratado com rigor, justiça, respeito e dignidade. Valores essenciais para manter a confiança da população no sistema nacional de transplantação. No dia em que o país celebra esta efeméride, Vanda Palmeiro partilha uma reflexão em primeira pessoa sobre o significado da doação, o papel da Enfermagem e os desafios futuros da transplantação em Portugal.

 

Assinalar o Dia Nacional da Doação de Órgãos e da Transplantação é, para mim, mais do que uma data simbólica. É um momento de profunda consciência coletiva, em que reconhecemos a generosidade dos dadores e das suas famílias, celebramos a vida dos transplantados e valorizamos o trabalho incansável dos profissionais de saúde que tornam possível cada gesto de altruísmo.

 

Ao longo da minha carreira, dedicada à coordenação, segurança e qualidade dos processos de colheita e transplantação, tenho testemunhado a força transformadora da doação de órgãos. Cada órgão doado representa uma oportunidade de vida; cada transplante realizado traduz‑se numa vitória da ciência, da solidariedade e da organização dos serviços de saúde.

 

 

A doação de órgãos é uma das áreas mais avançadas da medicina moderna. Permite salvar vidas, recuperar autonomia e devolver esperança a quem vive com falência terminal de órgãos. É, por isso, uma área estratégica da saúde pública, onde Portugal se afirma como referência internacional. A transplantação não é apenas um procedimento clínico. É um indicador de maturidade social e de confiança no sistema de saúde. Quando uma família aceita doar, está a afirmar que acredita na justiça, na ética e na capacidade do sistema de transformar perda em vida.

 

 

Portugal mantém, há vários anos, uma posição de destaque mundial na doação e transplantação. A coordenação nacional, em articulação com hospitais e equipas de colheita e transplante, garante um sistema robusto, transparente e altamente qualificado. Os números falam por si:  Mais de 170 mil transplantes foram realizados no mundo em 2024. Na União Europeia, milhares aguardam um órgão e mais de 8 mil pessoas morrem anualmente em lista de espera. Em Portugal, continuamos entre os países com melhores taxas de doação por milhão de habitantes. Cada dador pode salvar até oito vidas e melhorar a qualidade de vida de dezenas de outras através da doação de tecidos. Este dado, por si só, justifica a importância de falar sobre doação em família e de tomar decisões informadas.

 

 

A Enfermagem na cadeia da doação e transplantação, é uma das forças motrizes deste processo. O enfermeiro está presente em todas as etapas: na identificação do potencial dador ao acompanhamento do doente transplantado, desempenhando funções que exigem competência técnica, sensibilidade humana e capacidade de decisão.

 

Entre as responsabilidades mais relevantes encontram‑se:

 

  • Identificação, avaliação e tratamento do potencial dador;
  • Comunicação com famílias em momentos de grande fragilidade emocional;
  • Coordenação com equipas multidisciplinares;
  • Promoção da literacia em saúde;
  • Acompanhamento pré, intra e pós‑transplante.

A Enfermagem é a ponte entre ciência, humanização e decisão informada. Um papel que merece ser reconhecido e valorizado pela sociedade.

 

 

Informar pode salvar vidas, e por isso, a literacia em saúde é determinante para aumentar a doação de órgãos. Persistem receios e mitos que só podem ser combatidos com informação clara, ética e acessível. O enfermeiro, pela sua proximidade à comunidade, é o profissional ideal para esclarecer o que significa ser dador, como funciona o processo de colheita e transplantação e que garantias éticas e legais existem. Uma população informada é uma população mais segura, mais confiante e mais predisposta a participar num sistema que salva vidas todos os dias.

 

"Quando uma família aceita doar, está a afirmar que acredita na justiça, na ética e na capacidade do sistema de transformar perda em vida."

 

O transplante não termina na sala operatória. A vida pós‑transplante exige vigilância rigorosa, adesão terapêutica e acompanhamento próximo. A Enfermagem desempenha um papel determinante na gestão da medicação imunossupressora, na prevenção de infeções, na monitorização de sinais de rejeição e no apoio emocional ao doente. Este acompanhamento especializado contribui para aumentar a sobrevivência, reduzir complicações e garantir que o transplante cumpre plenamente o seu propósito: devolver vida.

 

 

Apesar dos resultados positivos, persistem desafios que exigem reflexão e ação: a escassez de órgãos face ao aumento das necessidades; o envelhecimento populacional e maior prevalência de doenças crónicas; a necessidade de reforço das equipas especializadas de Enfermagem; a inovação tecnológica que exige formação contínua e, ainda, as desigualdades no acesso à transplantação a nível global.

 

O futuro da doação e transplantação dependerá da capacidade de integrar tecnologia, humanização, literacia e políticas públicas que reforcem a confiança da população. A minha voz representa todos os enfermeiros que, diariamente, asseguram que cada gesto de altruísmo se transforma numa oportunidade de vida. É também um apelo à sociedade: falar sobre doação, informar

‑se, confiar no sistema e compreender que, na doação de órgãos, cada decisão conta, e cada vida salva é um legado que permanece.

 

Vanda Palmeiro

Instituto Português do Sangue e da Transplantação, IP