Dia Mundial da Saúde Sexual

  • 04-09-2026

Se a sexualidade nos acompanha durante toda a vida, por que razão continuamos

tantas vezes a dissociá-la do próprio conceito de saúde e bem-estar?

No mês em que se celebra o Dia Mundial da Saúde Sexual, assinalado a 4 de setembro, a Secção Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros convidou Florbela Bia, enfermeira e docente da Universidade de Évora, a refletir sobre a importância da saúde sexual enquanto parte integrante da saúde e do bem-estar ao longo da vida.

Professora Adjunta no Departamento de Enfermagem da Escola Superior de Enfermagem S. João de Deus, da Universidade de Évora, Florbela Bia é Enfermeira Especialista em Enfermagem de Reabilitação, Mestre em Sexualidade Humana e doutoranda em Enfermagem. É também membro fundadora da Sociedade Científica de Enfermagem do Estilo de Vida (SCEEV).
Ao longo do seu percurso académico e científico, tem dedicado particular interesse à Enfermagem de Reabilitação, à sexualidade, à educação sexual, ao envelhecimento e à conjugalidade da pessoa idosa, áreas que se refletem na investigação que desenvolve, nos projetos em que participa e nas suas publicações científicas.

É a partir deste percurso, construído entre a prática, o ensino e a investigação em Enfermagem, que Florbela Bia nos convida a refletir sobre a saúde sexual ao longo da vida, sobre o lugar que ocupa nos cuidados e sobre os direitos que devem acompanhar cada pessoa, independentemente da idade ou da condição de saúde.

 

Falar de saúde sexual é, afinal, falar de uma forma mais completa de cuidar: de proteção, escolha, consentimento, intimidade, relações e dignidade.

 

A sexualidade acompanha a experiência humana ao longo de toda a vida e, ainda assim, nem sempre encontra o mesmo espaço quando falamos de saúde. Nos cuidados, no ensino e na investigação, falar de sexualidade continua a levantar questões, desconfortos e desafios.

Quando falamos de saúde, pensamos na prevenção da doença, nos tratamentos, no exercício físico ou na saúde mental. Falamos menos de sexualidade e, quando o fazemos, é ainda comum associá-la à reprodução, às infeções sexualmente transmissíveis ou às disfunções. Mas é muito mais do que isso: relaciona-se com o corpo, a identidade, o afeto, a intimidade, as relações e o bem-estar.
Assinalar o Dia Mundial da Saúde Sexual é uma oportunidade para trazer este tema para o espaço público e para a prática em saúde. Se a sexualidade nos acompanha durante toda a vida, por que razão continuamos tantas vezes a dissociá-la do próprio conceito de saúde e bem-estar?

 

A sexualidade não desaparece quando adoecemos nem fica suspensa quando o corpo se transforma. Uma cirurgia, a gravidez, o pós-parto, a menopausa, uma doença crónica, uma incapacidade ou o envelhecimento podem alterar a forma como cada pessoa a vive. Também os tratamentos podem interferir com o desejo, a intimidade ou a relação. São efeitos amplamente documentados na literatura, mas que nem sempre encontram o mesmo espaço na prática e na comunicação em saúde.

 

Abordar a saúde sexual não significa questionar indiscriminadamente sobre a intimidade.

Significa criar espaço para falar quando isso é importante para a pessoa.

Uma pergunta simples, colocada com naturalidade, sem julgamento e respeitando os seus valores, pode abrir um espaço que até então não existia

 

Mas vamos mesmo falar de sexualidade saudável?
Talvez nunca se tenha falado tanto sobre sexualidade. Está nas redes sociais, nos media, nos discursos dos influencers, nas conversas e nos corredores. Nunca teve tanta visibilidade. Mas falar mais significa saber mais? Será esta exposição sinónimo de literacia em saúde sexual? Ou mostramos sobretudo o lado belo e desejável, deixando menos visível aquilo que precisamos de saber para uma vivência saudável?

 

Porque saber também é reconhecer fronteiras: conhecer o corpo, compreender o consentimento, reconhecer os nossos limites e os do outro, fazer escolhas informadas e saber dizer sim ou não. O desafio é transformar a informação que circula em saber capaz de orientar escolhas, relações e comportamentos. É também por aqui que se constroem os direitos: aprendendo a reconhecê-los, a exercê-los e a respeitá-los.

 

Lá fora, a sexualidade parece estar em todo o lado. Mas o que acontece quando entramos nos contextos de cuidados? Cá dentro, continua demasiadas vezes a ser uma das faces ocultas do cuidar. O receio de invadir a privacidade, a insuficiente preparação ou os nossos próprios constrangimentos fazem com que o tema seja adiado, à espera de outro momento, de outro profissional ou da iniciativa da própria pessoa. E, por vezes, esse momento nunca chega.

 

É aqui que a Enfermagem pode fazer a diferença. A proximidade da relação de cuidado traz também responsabilidade: exige transformar saber em prática, mobilizar competências comunicacionais e aproximarmo-nos sem invadir, respeitando as fronteiras de cada pessoa.

 

Abordar a saúde sexual não significa questionar indiscriminadamente sobre a intimidade. Significa criar espaço para falar quando isso é importante para a pessoa. Uma pergunta simples, colocada com naturalidade, sem julgamento e respeitando os seus valores, pode abrir um espaço que até então não existia. É também nesse espaço que os direitos podem ser exercidos. Não se exerce plenamente um direito que não se conhece. A literacia em saúde sexual ajuda a compreender o consentimento, reconhecer situações de risco, violência ou abuso, tomar decisões informadas e saber quando procurar ajuda. É proteção, autonomia e cidadania.

E começa cedo. Na infância, conhecer o corpo, reconhecer limites e saber pedir ajuda protege. Na adolescência, chegam novos desafios relacionados com o corpo, as relações, o consentimento e a prevenção. Na idade adulta, outras experiências exigem outras respostas. E assim seguimos pela vida, também quando envelhecemos, porque a necessidade de informação e os direitos à intimidade, à privacidade e à autodeterminação não desaparecem com a idade.

 

A sexualidade não desaparece quando adoecemos nem fica suspensa

quando o corpo se transforma.

 

 

Esta não é apenas uma posição ética. Em Portugal, a Lei n.º 53/2025, de 7 de abril, ao alterar a Lei n.º 3/84, explicita o direito à saúde e à educação sexual e reprodutiva e determina que a sua promoção considere todo o ciclo da vida, favorecendo uma vivência informada, acompanhada, saudável e consentida.

Das escolas às universidades, têm vindo a desenvolver-se iniciativas de formação em saúde sexual para promover uma educação mais informada e inclusiva. É neste contexto que surge o projeto europeu EdSeX — Educando em Sexualidade: Avanço para a Saúde Europeia, no qual participei como stakeholder. Deste projeto resultou o e-book Educação Sexual: Promover a Saúde Europeia — Guia Formativo, disponível em acesso aberto em português, espanhol, inglês e italiano, como recurso de apoio à educação sexual e à formação.

 

E, se falamos de todo o ciclo de vida, temos necessariamente de falar de envelhecimento. Envelhecer não significa deixar de ser uma pessoa sexuada, afetiva e relacional, embora persistam estereótipos que tendem a tornar esta realidade invisível. A sexualidade transforma-se e pode entrelaçar-se com a conjugalidade, encontrando expressão no toque, no afeto, na proximidade, no cuidado, no companheirismo e na presença do outro. É também este olhar sobre a conjugalidade que se cruza com a investigação que desenvolvo, procurando compreender a experiência vivida pelos casais idosos no processo de transição para uma Estrutura Residencial para Pessoas Idosas.

E talvez seja precisamente aqui que a reflexão deixa de ser apenas sobre os outros e passa a ser também sobre nós. Será este o nosso caminho na reta final da vida?
Para alguns, talvez para muitos, tendo em conta a realidade do envelhecimento populacional, esse caminho poderá passar por uma Estrutura Residencial para Pessoas Idosas. Quando colocamos esta possibilidade na primeira pessoa, ganha outra força. Se um dia formos nós a viver numa destas estruturas, estaremos dispostos a deixar para trás a nossa intimidade, a história afetiva ou a capacidade de decidir sobre aquilo que nos é tão pessoal? Espaços, rotinas, presença de terceiros e atitudes profissionais podem favorecer ou condicionar a intimidade e a vida conjugal.

 

Criar ambientes seguros, salvaguardar a privacidade e preparar os profissionais para integrar a saúde sexual na sua intervenção são condições fundamentais também nesta etapa da vida. Uma abordagem inclusiva e equitativa não pode terminar quando envelhecemos, adoecemos ou precisamos da ajuda de outros. Caso contrário, corremos o risco de defender direitos enquanto somos autónomos e esquecê-los precisamente quando nos tornamos mais vulneráveis.

 

Falar de saúde sexual é, afinal, falar de uma forma mais completa de cuidar: de proteção, escolha, consentimento, intimidade, relações e dignidade. Aquilo que não perguntamos pode permanecer invisível e aquilo que adiamos pode nunca chegar a ser cuidado.

 

Neste mês em que assinalamos o Dia Mundial da Saúde Sexual, fica o desafio: falemos mais, escutemos melhor e adiemos menos. Formemos profissionais capazes de abordar a sexualidade com preparação, respeito e naturalidade, qualquer que seja a idade ou a condição da pessoa.

 

Os corpos mudam, as relações transformam-se e as necessidades encontram diferentes formas de expressão. Mas os direitos não têm prazo de validade: acompanham-nos durante a vida e não terminam quando envelhecemos.
A saúde sexual é um direito ao longo da vida. E a idade não o apaga.

 

Florbela Bia

Enfermeira Especialista em Enfermagem de Reabilitação e Mestre em Sexualidade Humana