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18-10-2026
Dia Mundial da Menopausa
“A menopausa é uma transição que envolve dimensões físicas, emocionais, relacionais, sociais, culturais e espirituais.”
O Dia Mundial da Menopausa é celebrado anualmente no dia 18 de outubro. Criado pela Sociedade Internacional da Menopausa (IMS) em 2009, esta data visa sensibilizar a população sobre a menopausa, promovendo o diálogo entre mulheres e profissionais de saúde sobre os desafios e cuidados necessários durante essa fase da vida.
Nesta ocasião, partilhamos o artigo de opinião de Ana Galhanas, doutoranda em Ciências da Tecnologia, Saúde e Bem-estar pela Universidade Nova de Lisboa e Professora Adjunta na Escola Superior de Enfermagem São João de Deus da Universidade de Évora. Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstétrica, tem desenvolvido a sua atividade académica e clínica com foco na promoção da saúde da mulher ao longo do ciclo de vida.
Ana Galhanas é autora das obras “Saúde da mulher: evidência científica para a prática de enfermagem - cuidados especializados ao longo do ciclo de vida feminino” e “Saúde da mulher no climatério: manual para estudantes e profissionais de enfermagem”, que reforçam o seu contributo para a literacia em saúde e para a prática baseada na evidência.
As suas áreas de interesse incluem Saúde da Mulher, Autocuidado e Climatério, domínios onde tem vindo a aprofundar investigação, ensino e intervenção especializada.
O OLHAR DA ENFERMAGEM SOBRE A MULHER PARA ALÉM DA MENOPAUSA
Vivemos numa sociedade que reconhece a longevidade como uma conquista, mas que nem sempre sabe acolher as transformações que acompanham o envelhecimento, sobretudo quando se trata das mulheres. Espera-se que envelheçam com naturalidade, mas que preservem uma aparência irrealista, que aceitem as mudanças corporais, mas que continuem a corresponder às expectativas sociais de vitalidade, produtividade e disponibilidade para cuidar dos outros. Esta contradição revela uma sociedade que valoriza a longevidade, mas que permanece pouco preparada para reconhecer e respeitar as diferentes etapas do ciclo de vida feminino. É neste contexto que a menopausa nos convida a refletir sobre a forma como a sociedade e os profissionais de saúde compreendem e acompanham essa mudança.
“A qualidade dos cuidados depende também da capacidade de escutar, compreender e respeitar cada mulher.”
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a menopausa é um marco que evidencia o fim do período menstrual devido à perda da função folicular ovárica. Durante muito tempo, a menopausa foi predominantemente abordada a partir de uma perspetiva biomédica, centrada nas alterações hormonais e na identificação e tratamento da sintomatologia. Embora esta dimensão seja indissociável da prestação de cuidados de saúde, revela-se insuficiente para compreender a complexidade da experiência feminina. A menopausa, enquanto marco de uma transição, insere-se num processo que envolve dimensões físicas, emocionais, relacionais, sociais, culturais e espirituais. Compreender esta transição exige por isso, reconhecer os significados que cada mulher lhes atribui, considerando a sua individualidade, história de vida e circunstâncias pessoais.
É precisamente na necessidade de ampliar o olhar sobre a saúde feminina que a enfermagem encontra uma oportunidade para afirmar o seu contributo. Ao longo das últimas décadas, a profissão tem consolidado uma identidade sustentada no conhecimento científico, na autonomia profissional e numa abordagem holística do cuidado. Esta evolução permite reconhecer a mulher como protagonista da sua saúde e das decisões que influenciam o seu bem-estar. No contexto da menopausa muitas das necessidades manifestadas pelas mulheres não são imediatamente visíveis, quantificáveis ou identificáveis através dos parâmetros habitualmente valorizados na avaliação clínica. Para algumas mulheres, esta etapa representa liberdade, renovação e novas possibilidades de realização pessoal, para outras, pode acompanhar-se de dificuldades que interferem com saúde, a imagem corporal ou a qualidade de vida. Estas diferentes experiências demonstram que a qualidade dos cuidados não depende apenas da capacidade de identificar necessidades, mas também da disponibilidade para escutar, compreender e respeitar a forma como cada mulher vive esta fase da sua vida.
“O autocuidado é uma dimensão essencial da autonomia feminina.”
A Organização Mundial da Saúde reforça a necessidade de uma abordagem holística ao defender que o apoio à saúde física, psicológica e social durante a transição menopáusica e após a menopausa deve integrar os cuidados de saúde. A enfermagem reúne condições para concretizar esta abordagem, pela proximidade às pessoas, pela continuidade dos cuidados e pela valorização dos contextos familiares e comunitários. No âmbito da enfermagem especializada, esta responsabilidade encontra-se expressamente reconhecida nas competências do Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde Materna e Obstétrica, a quem compete cuidar da mulher inserida na família e comunidade durante o período do climatério. Este enquadramento traduz uma conceção de cuidado que reconhece a saúde da mulher como uma responsabilidade contínua ao longo da vida. Contudo, o reconhecimento formal destas competências deve ser acompanhado por uma reflexão sobre a sua efetiva concretização na prática clínica. Se reconhecemos a menopausa como uma transição multidimensional, importa questionar se as respostas disponíveis valorizam verdadeiramente essa complexidade. Estaremos a proporcionar espaços onde as mulheres possam expressar dúvidas, preocupações e expectativas? Estaremos suficientemente atentos às dimensões emocionais, relacionais e sociais que influenciam esta experiência? E, sobretudo, estaremos a promover a autonomia das mulheres ou apenas a transmitir recomendações sobre comportamentos que consideramos desejáveis? Estas questões convidam-nos a refletir sobre a necessidade de evoluir de uma intervenção predominantemente informativa para uma prática efetivamente centrada na pessoa.
É neste percurso que o autocuidado assume um lugar central. No contexto da menopausa, o autocuidado constitui, assim, uma dimensão essencial da autonomia feminina, permitindo que cada mulher desenvolva estratégias ajustadas às suas necessidades, preferências e condições de vida. Promover o autocuidado nesta transição significa apoiar a mulher na compreensão das mudanças que experiencia, fortalecer a sua confiança e favorecer decisões conscientes e informadas. Implica abordar assuntos como a alimentação, a atividade física, o sono, a prevenção de doenças e o acompanhamento regular da saúde. No entanto, exige também reconhecer que a capacidade de cuidar de si não depende exclusivamente da vontade individual. As condições económicas, as responsabilidades familiares, a literacia em saúde e o acesso aos cuidados podem facilitar ou limitar a adoção de determinados comportamentos. Ignorar estes fatores seria transformar o autocuidado numa responsabilidade exclusivamente individual, desvalorizando as circunstâncias que condicionam as possibilidades reais de cada mulher. Neste processo, o verdadeiro valor da intervenção de enfermagem reside na capacidade de transformar conhecimento em possibilidades concretas de ação. Explicar as alterações associadas à menopausa é necessário, mas escutar aquilo que essas alterações significam para a mulher é fundamental para estabelecer uma relação terapêutica.
“Importa promover a literacia em saúde, combater preconceitos e valorizar o envelhecimento"
O enfermeiro, na sua atuação, não se limita a identificar problemas ou a propor soluções. Acompanha os processos de adaptação, reconhece recursos e estabelece, com a mulher, objetivos realistas e adaptados à sua realidade. É esta capacidade de articular conhecimento científico, relação terapêutica e compreensão da experiência humana que confere profundidade à prática profissional. Ao respeitar os diferentes ritmos, necessidades e escolhas, a enfermagem contribui para que a mulher não seja apenas destinatária de cuidados, mas participante ativa na construção da sua própria saúde. Para que esta abordagem se traduza numa resposta efetiva, importa fortalecer a visibilidade e a intervenção da enfermagem na saúde da mulher durante o climatério. Consultas de enfermagem estruturadas tendo por base um atendimento individualizado, programas de educação para a saúde, iniciativas comunitárias e a investigação científica constituem oportunidades para consolidar práticas ajustadas às necessidades identificadas. Mais do que responder às alterações associadas à menopausa, importa antecipar necessidades, promover a literacia em saúde, combater preconceitos e contribuir para uma sociedade mais informada e respeitadora do envelhecimento feminino.
Neste Dia Mundial da Menopausa, a reflexão deve estender-se ao compromisso de valorizar a saúde, a autonomia e a dignidade das mulheres. Para a enfermagem, este compromisso traduz-se na capacidade de promover condições para que cada mulher possa viver esta transição de forma informada, autónoma e significativa. E talvez seja precisamente este um dos maiores contributos da enfermagem, não ensinar apenas as mulheres a cuidar de si, mas acompanhá-las no reconhecimento das suas capacidades, na construção das suas escolhas e na afirmação do direito de viver plenamente todas as fases da sua vida.
Ana Isabel Ramalho Galhanas
Universidade de Évora, ESESJD





