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05-05-2026
Dia Mundial da Higiene das Mãos: “Um gesto simples que continua a salvar vidas”
Natural de Lisboa, o enfermeiro Tiago Cunha conta com mais de 22 anos de experiência no setor da saúde. Iniciou o seu percurso em 2003, com passagem por áreas cirúrgicas e, mais tarde, pela área da prevenção e controlo de infeção na UL‑PPCIRA do Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil. É especialista em Enfermagem Médico‑Cirúrgica, mestre em Infeção em Cuidados de Saúde e também em Enfermagem Médico‑Cirúrgica. Integra o grupo de trabalho para a elaboração do perfil e certificação da Competência Acrescida em Enfermagem em Controlo de Infeção, sendo atualmente presidente da Comissão da Competência Acrescida Diferenciada em Enfermagem em Prevenção e Controlo de Infeção. É ainda detentor da Competência Acrescida Diferenciada em Enfermagem Oncológica e da Competência Avançada em Gestão.
Atualmente, concilia a sua atividade profissional na UL‑PPCIRA do IPO Lisboa com a colaboração como docente em instituições de ensino superior, bem como com a frequência do Doutoramento em Enfermagem na Universidade Católica Portuguesa.
A partilha do seu testemunho ganha particular relevância no contexto do Dia Mundial da Higiene das Mãos, que se assinala anualmente a 5 de maio. Esta data recorda uma evidência incontornável: a higiene das mãos, realizada no momento certo, continua a ser uma das medidas mais eficazes na prevenção de infeções associadas aos cuidados de saúde e na salvaguarda da segurança de doentes e profissionais. Ainda assim, apesar de ser um gesto simples, rápido e acessível, permanece um desafio a sua plena integração nos comportamentos quotidianos, tanto a nível institucional como individual, tornando testemunhos como este fundamentais para reforçar a consciência, a responsabilidade e a mudança de práticas.

Todos os anos, a 5 de maio, o Dia Mundial da Higiene das Mãos recorda-nos uma verdade que atravessa décadas de evidência científica: lavar ou desinfetar as mãos, no momento certo, continua a ser uma das intervenções mais eficazes para prevenir infeções e salvar vidas. No entanto, apesar de ser um gesto simples, rápido e acessível, continua longe de estar plenamente integrado nos comportamentos quotidianos de profissionais, instituições e cidadãos.
A pandemia de COVID‑19 trouxe a higiene das mãos para o centro do debate público, mas a atenção mediática dissipou-se mais depressa do que a necessidade de manter práticas seguras. Hoje, nos serviços de saúde, os enfermeiros continuam a ser os principais guardiões desta medida essencial. São eles que, no contacto direto e contínuo com as pessoas, asseguram que a prevenção e controlo de infeções não é apenas um protocolo, mas uma cultura de segurança.
Contudo, a realidade mostra que a adesão à higiene das mãos ainda está longe do desejável. Persistem constrangimentos estruturais — desde a falta de dispensadores em locais estratégicos até cargas de trabalho que dificultam a execução sistemática dos “5 Momentos” definidos pela Organização Mundial da Saúde. Persistem também barreiras comportamentais: a perceção errada de que “não é necessário agora”, a normalização do risco ou a ideia de que a experiência profissional substitui a prática preventiva.

É precisamente por isso que este dia não deve ser encarado como uma efeméride simbólica, mas como um alerta anual para uma responsabilidade coletiva. A higiene das mãos não é apenas um ato técnico; é um compromisso ético com a segurança das pessoas que cuidamos. É um gesto que traduz respeito, profissionalismo e consciência do impacto que cada contacto pode ter na vida de alguém.
De acordo com dados da DGS, no ano passado foram observadas 530 512 oportunidades de higiene das mãos nas unidades de saúde portuguesas. A taxa de adesão global foi de 82,2%, revelando um aumento relativo aos três anos anteriores.
O primeiro momento da higiene das mãos continua a ser o momento com menor adesão dos 5 Momentos, tendo-se verificado uma adesão de 75,8%. A taxa de adesão a este primeiro momento tem igualmente vindo a aumentar nos três anos anteriores. Os dados da DGS também revelam que, por vezes, o uso de luvas reduz o cumprimento da higiene das mãos. Devemos recordar que o uso de luvas não substitui a higiene das mãos, que devemos proceder à higiene das mãos antes de usar luvas e imediatamente após a sua remoção, e que o seu uso desnecessário apresenta um elevado impacto ambiental.

Enquanto enfermeiro, acredito que a mudança sustentável exige três pilares fundamentais. Primeiro, formação contínua, que atualize práticas e reforce a importância da adesão. Segundo, condições de trabalho adequadas, que permitam aos profissionais cumprir aquilo que a evidência recomenda. Terceiro, liderança visível, capaz de transformar a prevenção e controlo de infeções numa prioridade institucional e não numa responsabilidade individual isolada.
A higiene das mãos é das medidas mais eficazes na interrupção da cadeia de transmissão de microrganismos, uma vez que as nossas mãos são frequentemente o veículo através do qual os microrganismos se movimentam entre superfícies, doentes, profissionais, equipamentos clínicos, etc. Esta pode ser feita através da lavagem com água e sabão (quando as mãos se encontrem visivelmente sujas, no início e fim da jornada de trabalho, antes e depois das refeições, antes e depois das idas à casa de banho e na prestação de cuidados a doentes com Clostridioides difficile) ou através da fricção com solução antisséptica de base alcoólica (SABA) (quando as mãos se apresentem visivelmente limpas). O uso da SABA deve ser privilegiado devido à sua rapidez (20 a 30 segundos) e disponibilidade junto ao doente, não implicando a presença de lavatórios ou água corrente.
A higiene das mãos é, no fundo, um dos maiores exemplos de como a saúde se constrói nos detalhes. Não exige tecnologia avançada, não depende de grandes investimentos e não requer tempo adicional. Exige apenas consciência, consistência e compromisso. E é precisamente por isso que continua a ser um dos indicadores mais fiáveis da qualidade dos cuidados prestados.

Neste Dia Mundial da Higiene das Mãos, o apelo é simples: voltar ao essencial. Relembrar que cada gesto conta. Que cada contacto importa. Que cada profissional tem o poder de quebrar a cadeia de transmissão de infeções. E que, ao fazê-lo, está a proteger não apenas quem cuida, mas também a si próprio, a sua equipa e o Serviço Nacional de Saúde.
A segurança começa nas mãos de cada um de nós. Literalmente.

Enfermeiro Tiago Cunha
Especialista em Enfermagem Médico‑Cirúrgica, Mestre em Infeção e Cuidados de Saúde.





