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01-10-2026
Dia Internacional da Pessoa Idosa
“Envelhecer com dignidade, autonomia e qualidade de vida” é o desafio que se coloca à sociedade perante uma realidade demográfica em profunda transformação e que exige respostas cada vez mais adequadas às necessidades das pessoas mais velhas.
O dia 1 de outubro assinala o Dia Internacional das Pessoas Idosas, uma efeméride instituída pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1990, com o objetivo de chamar a atenção para as oportunidades e os desafios associados ao envelhecimento da população e para a importância de promover os direitos, a dignidade, a participação e o bem-estar das pessoas mais velhas. Ao longo deste texto, adota-se esta designação, privilegiando uma linguagem centrada na pessoa e evitando uma terminologia que a reduza à sua idade.
Neste contexto, a Secção Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros assinala a efeméride com a reflexão da Enfermeira Lucinda Marques, que integra a Estrutura de Acompanhamento da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) e das Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI) da Ordem dos Enfermeiros, bem como a Comissão Regional de Peritos - Envelhecimento e Contexto Social da Secção Regional do Sul. Com um percurso profissional, académico e científico particularmente ligado aos cuidados à pessoa mais velha, aos cuidados paliativos e aos cuidados de longa duração, mantém também ligação ao Departamento de Enfermagem da Universidade de Évora e ao Comprehensive Health Research Centre (CHRC).
Em 2026, Lucinda Marques participou como primeira autora num estudo publicado na revista BMC Geriatrics, dedicado aos modelos de cuidados centrados na pessoa para pessoas mais velhas institucionalizadas com necessidades de cuidados paliativos. Um percurso que evidencia a importância de desenvolver respostas assentes nas necessidades efetivas de cada pessoa e que promovam a sua participação na definição dos cuidados.
O Dia Internacional das Pessoas Idosas constitui, assim, uma oportunidade para refletir sobre a forma como a sociedade olha para o envelhecimento e sobre as condições que estamos a criar para que todos possamos envelhecer com autonomia, segurança, dignidade, qualidade de vida e bem-estar.
O aumento da longevidade constitui uma das maiores conquistas das últimas décadas, mas representa também um importante desafio. O envelhecimento da população associa-se a uma crescente complexidade das necessidades, nomeadamente perante situações de multimorbilidade, perda de funcionalidade e necessidade de cuidados prolongados.
Portugal acompanha a tendência de envelhecimento demográfico que se verifica nos países da OCDE, encontrando-se entre os países onde este fenómeno é mais acentuado. As projeções indicam que, em 2050, mais de um terço da população portuguesa terá 65 ou mais anos e mais de uma em cada oito pessoas terá 80 ou mais anos.
Esta transformação demográfica coloca desafios aos sistemas de saúde e de apoio social, às famílias e às comunidades.
Mas envelhecer não pode ser entendido apenas como uma questão de doença ou de dependência.
As pessoas mais velhas são pessoas com histórias, experiências, conhecimentos, relações, projetos e contributos que continuam a enriquecer as famílias e as comunidades. Importa reconhecer as suas capacidades e experiências, combater o idadismo e criar condições para que possam continuar a participar plenamente na sociedade.
Pensar o envelhecimento implica pensar em prevenção, literacia em saúde, acessibilidade, adequação da habitação, redes de apoio, combate à solidão, cuidados de saúde de qualidade e respostas sociais capazes de acompanhar diferentes níveis de autonomia e dependência. Os cuidados às pessoas mais velhas não devem, por isso, restringir-se às situações de doença ou dependência, mas ser integrados ao longo do percurso de vida, criando condições que promovam e preservem o bem-estar e a qualidade de vida.
A Organização Mundial da Saúde defende uma abordagem integrada e centrada na pessoa, assente na articulação entre diferentes respostas e setores e na promoção da autonomia, segurança, participação e permanência da pessoa mais velha no seu contexto habitual, sempre que possível.
Mesmo perante situações de multimorbilidade e uma crescente complexidade das necessidades, importa centrar o cuidado na pessoa e nas suas necessidades efetivas, considerando os seus valores, cultura, desejos, objetivos e prioridades, e reconhecendo-a como participante ativa no seu percurso de vida.
Neste processo, o enfermeiro assume um papel determinante no envolvimento da pessoa nas decisões e na construção de um plano de cuidados individualizado, orientado para a promoção da qualidade de vida, da dignidade e do bem-estar.
Ao longo da vida, a pessoa mais velha vivencia inúmeras mudanças que exigem processos de adaptação, nos quais a Enfermagem assume um papel fundamental. Os enfermeiros estão presentes em diferentes momentos e contextos, desenvolvendo intervenções de promoção da saúde e do bem-estar, prevenção da doença e da dependência e cuidados de proximidade, com particular relevância na gestão da doença crónica, na reabilitação e na abordagem paliativa, essenciais para a qualidade de vida.
A qualidade dos cuidados implica, contudo, compreender cada pessoa na sua individualidade, preservar a sua autonomia, minimizar a perda de funcionalidade, identificar precocemente situações de risco e reconhecer o sofrimento nas suas diferentes dimensões, para além dos sintomas físicos. Implica também combater o isolamento e a solidão e garantir uma continuidade de cuidados adequada às necessidades de cada pessoa e ao seu contexto.
Neste Dia Internacional das Pessoas Idosas, a Secção Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros reafirma a importância de promover um envelhecimento com dignidade, autonomia, participação, qualidade de vida e bem-estar, valorizando o contributo da Enfermagem para a construção de uma sociedade mais inclusiva e preparada para todas as idades.
Porque uma sociedade que valoriza, respeita e cuida das pessoas mais velhas é, em última análise, uma sociedade que se prepara para cuidar de todos nós.
Lucinda Marques
Comissão Regional de Peritos - Envelhecimento e Contexto Social da Secção Regional do Sul





