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19-08-2026
Dia Internacional da Ajuda Humanitária
Em cenários de grande catástrofe, o papel do enfermeiro vai muito para além da técnica. Desde a minha missão no Haiti em 2010 até à recente intervenção na Venezuela, compreendi que a ajuda humanitária é traduzir o nosso compromisso com o outro em ações que salvam vidas. É ser o toque de humanidade quando o mundo de alguém acabou de ruir.
No Dia Mundial da Ajuda Humanitária, que se assinala a 19 de agosto para honrar quem arrisca a vida em zonas de risco, partilhamos o testemunho de Luís Manuel Ladeira, enfermeiro especialista em Enfermagem Médico‑Cirúrgica na área da Pessoa em Situação Crítica, que tem dedicado a sua vida à intervenção em cenários de desastre e catástrofe. Na primeira pessoa, relata a experiência de quem escolhe estar onde a vulnerabilidade é absoluta, mais recentemente na Venezuela, numa missão marcada por uma destruição extrema e necessidades humanitárias críticas.

A participação de Luís Ladeira na missão FOCON, em julho de 2026, constituiu um dos momentos mais exigentes da sua carreira. A equipa portuguesa integrou a resposta internacional aos devastadores sismos de 24 de junho, que atingiram magnitudes 7.2 e 7.5 e provocaram uma destruição generalizada no país. Segundo os dados oficiais mais recentes, atualizados a 18 de agosto de 2026, o balanço de vítimas mortais ascende a 6 438 pessoas, num cenário de rutura total das infraestruturas, milhares de feridos e comunidades inteiras deslocadas. Foi neste contexto de profunda vulnerabilidade que Luís Ladeira atuou, contribuindo para a estabilização de doentes, a organização da resposta e a implementação de medidas de saúde pública essenciais para prevenir surtos e garantir a segurança das populações afetadas.

A intervenção na Venezuela não surgiu de forma isolada: é o resultado de um percurso profissional e académico inteiramente dedicado à emergência e à catástrofe. Enfermeiro Especialista em Enfermagem Médico‑Cirúrgica, na área da Pessoa em Situação Crítica, e Mestre na mesma área, Luís iniciou a sua carreira no Serviço de Urgência Central do Hospital de Santa Maria, onde consolidou competências avançadas no atendimento ao doente crítico. Em paralelo, desenvolveu uma intensa atividade no pré‑hospitalar através do INEM, integrando ao longo dos anos diversas estruturas operacionais, Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER), Helicóptero de Emergência Médica, ambulância de Suporte Imediato de Vida (SIV) e Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU).
A sua formação académica reflete a mesma robustez: além da licenciatura e do mestrado focado na área da catástrofe, detém uma Pós‑Graduação em Intervenção Humanitária e Catástrofe e o Curso de Especialização em Administração Hospitalar. Atualmente, integra o Serviço de Situações de Exceção e Relações Internacionais do INEM, onde trabalha diariamente com o Portuguese Emergency Medical Team (PT EMT), uma capacidade de resposta a catástrofes certificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).Com vasta experiência em disaster nursing, Luís Ladeira desempenha também funções de relevo na esfera internacional. É Mentor da OMS para os Emergency Medical Teams e membro da equipa UNDAC (United Nations Disaster Assessment and Coordination), o mecanismo das Nações Unidas responsável pela avaliação rápida e coordenação da resposta humanitária nas primeiras fases de grandes emergências. Participa ainda em múltiplos grupos de trabalho da OMS e do Mecanismo Europeu de Proteção Civil, contribuindo para o desenvolvimento de capacidades de resposta a emergências e para a construção de exercícios nacionais e internacionais, como o EU MODEX, onde recentemente coordenou a participação operacional do INEM.

A sua trajetória inclui várias missões humanitárias complexas: a resposta ao sismo do Haiti em 2010, que descreve como a missão mais exigente da sua carreira, a intervenção pós‑ciclone Idai em Moçambique, o apoio a Cabo Verde durante a pandemia de COVID‑19, a preparação da missão de apoio ao sismo da Turquia e, mais recentemente, a missão FOCON na Venezuela. Cada cenário reforçou a convicção de que a intervenção humanitária é, para si, mais do que uma vertente da profissão: é um propósito de vida.

Movido por uma paixão profunda pela ajuda humanitária, Luís Ladeira acredita que trabalhar em catástrofe é unir a excelência técnica à compaixão, ser presença, ser estrutura e ser esperança num momento em que o mundo de alguém acabou de ruir.
É com esta experiência acumulada, esta visão humanista e esta dedicação à Enfermagem que Luís Ladeira partilha, na entrevista que se segue, as aprendizagens, os desafios e a dimensão profundamente humana de trabalhar em cenários de catástrofe, onde cada gesto, por mais simples que seja, pode significar a diferença entre a perda e a vida.

O que o motivou a aceitar este desafio e a integrar uma missão internacional de ajuda humanitária?
A motivação nasce da própria essência da Enfermagem: a vontade de agir perante o sofrimento. No fundo, eu gosto mesmo é de ajudar. Há tantas pessoas que precisam da nossa ajuda, sobretudo depois de uma grande catástrofe. Trabalhar diariamente no pré‑hospitalar já me tinha ensinado a estar próximo de quem sofre e a gerir o caos; por isso, a transição para o cenário internacional, desde o Haiti em 2010 até à recente missão na Venezuela, foi um passo natural. É esse gosto genuíno por ajudar o outro que alimenta a minha paixão pela área da catástrofe, acreditando sempre que todo o ser humano tem direito a ser assistido e a manter a sua dignidade, seja onde for.
Já tinha participado anteriormente em ações humanitárias. Que outras experiências marcaram o seu percurso?
O meu percurso tem sido inteiramente dedicado a missões humanitárias de emergência, assentes num socorro institucional, profissionalizado e estruturado para dar resposta a emergências complexas. O sismo do Haiti em 2010 foi, sem dúvida, a missão mais exigente e desafiadora que vivi. Foi a missão mais dura, de todos os pontos de vista, e definiu o meu trajeto na vertente do disaster nursing. Seguiram‑se outras respostas marcantes, das quais destaco a intervenção no ciclone Idai em Moçambique, o apoio a Cabo Verde durante a pandemia, a preparação da missão de apoio ao sismo da Turquia e a integração na recente missão FOCON (Força Operacional Conjunta de Portugal) na Venezuela. Cada cenário é singular, mas todos partilham a exigência de uma intervenção altamente qualificada num ambiente de total rutura.

Como descreve a experiência na Venezuela e quais eram as principais necessidades da população e que áreas de intervenção foram consideradas prioritárias pela equipa?
Num cenário de sismo estrutural, como encontrei na Venezuela ou no Haiti, o ambiente inicial é de disrupção total. As necessidades da população vão muito além do trauma físico direto. Encontramos uma falência generalizada das infraestruturas locais. A nossa prioridade como equipa médica de emergência (EMT) é garantir a estabilização e os cuidados de saúde, mantendo paralelamente uma visão estratégica de saúde pública e prevenção de surtos. Neste contexto, o enfermeiro assume a vanguarda, sendo polivalente não só na prestação de cuidados diretos de alta complexidade, mas na triagem estruturada, na coordenação da resposta e na gestão fluida de dezenas de doentes.


Quais foram os maiores desafios clínicos, humanos e logísticos que encontrou no terreno?
As condições nestas missões são sempre de uma dureza extrema. Clinicamente, o teste é manter a excelência técnica e os standards dos cuidados num ambiente de recursos severamente racionados. A nível humano e logístico, garantir a autossuficiência de uma equipa num cenário sem água potável, sem energia ou rede de comunicações exige não só um planeamento exaustivo, mas uma capacidade de gestão do stress assinalável. É em ambientes assim, tão austeros, que tens de pôr absolutamente todas as tuas competências em prática e superar‑te todos os dias, tanto enquanto enfermeiro como enquanto ser humano. Há uma premissa clara que nos guia nestes momentos de exaustão física e emocional: “Tens que ser mais forte, para poderes ajudar”.

O que mais o marcou, a nível humano e profissional, durante esta missão?
A nível humano, marca‑me invariavelmente a resiliência inquebrável de quem perdeu tudo e a imensa gratidão por gestos tão simples como um penso ou um copo de água. A nível profissional, o que mais me marca é o espírito de corpo. E aqui é impossível não destacar o trabalho espetacular dos colegas com quem trabalho diariamente, quer no terreno, quer na retaguarda em Portugal: são eles o verdadeiro garante do planeamento, da autossuficiência e da preparação minuciosa para que se consiga superar a exigência destas missões. Ver enfermeiros, médicos, técnicos e logísticos a trabalharem em uníssono, guiados pela independência e neutralidade, abdicando do seu conforto para erguer um hospital de campanha que funciona como um porto seguro no meio do caos, é a personificação daquilo que a Enfermagem deve ser.
Que aprendizagens trouxe desta experiência, tanto a nível profissional como pessoal?
Profissionalmente, as missões humanitárias de emergência consolidam a certeza de que a boa vontade não chega para salvar vidas; a resposta exige interoperabilidade, processos de coordenação afinados (como as metodologias UNDAC), rigor clínico e uma preparação e planeamento ao pormenor. Aprendi a liderar na excecionalidade e a encontrar soluções perante o aparentemente impossível. Pessoalmente, venho sempre mais rico de cada missão. O simples ato de abrir uma torneira ou dormir em segurança ganha uma nova dimensão de gratidão. A vivência de ver pessoas que vivem de forma tão mais simples do que nós liberta‑me da complicação em que a nossa sociedade vive diariamente. É possível ver sorrisos genuinamente felizes noutras realidades sociais e culturais, o que nos recalibra completamente as prioridades para o resto da vida.

Houve alguma pessoa ou episódio que o tenha marcado e que possa partilhar?
Há inúmeros rostos que trago na memória. Num cenário de catástrofe, por vezes, o mais difícil de encaixar é que não consegues salvar todos… infelizmente. Recordo‑me de doentes que, após serem estabilizados e resgatados da iminência da morte, a única coisa que me pediam era que não lhes largasse a mão. Talvez por isso acredite tanto que aliviar a dor e confortar é muitas vezes tão ou mais importante do que “apenas” salvar vidas. Aquele silêncio partilhado com alguém que sobreviveu ao fim do seu mundo é um momento sagrado. É aí que a técnica dá espaço à compaixão pura. Lidar com a perda é duro, mas se salvares uma vida que seja, já valeu a pena.
Que competências considera essenciais para um enfermeiro que pretende integrar uma missão humanitária?
Um enfermeiro nestes cenários tem de ser exímio clinicamente, pois num ambiente austero a nossa intervenção tem de ser infalível. No entanto, a excelência técnica é apenas o ponto de partida. Considero essenciais a polivalência e a capacidade de adaptação. O enfermeiro é um verdadeiro motor da coordenação: tem de transitar rapidamente do cuidado a um doente crítico para a organização logística de consumíveis, gestão de isolamentos ou articulação com as autoridades locais. Resiliência, robustez mental, inteligência emocional e uma imensa sensibilidade cultural são determinantes.
Depois desta experiência, sente vontade de voltar a participar em novas missões?
Sem qualquer hesitação. Estar no terreno num cenário de catástrofe e contribuir ativamente para a ajuda humanitária de emergência deixou de ser uma vertente da minha profissão para se tornar um propósito de vida. Quando testemunhamos o impacto real que uma equipa bem preparada tem em populações totalmente vulneráveis, torna‑se impossível virar as costas. É um privilégio enorme poder representar a Enfermagem portuguesa e o nosso país, e é um orgulho poder trabalhar ombro a ombro com a equipa do INEM, especialmente a equipa do EMT. Saber que, em conjunto, fazemos a diferença na vida daquelas pessoas é a nossa maior recompensa.

Que conselho daria a um enfermeiro que sonha participar numa missão humanitária, mas ainda tem receio de dar esse passo?
O receio é natural e, na dose certa, protege‑nos e mantém‑nos alerta. O meu conselho é: transformem esse receio em ação e preparação. A ajuda humanitária moderna não tem espaço para o improviso. Invistam na vossa formação técnica, desenvolvam a vossa diferenciação clínica e integrem estruturas institucionais acreditadas. Acumulem experiência prática, fortaleçam a vossa resistência ao stress e, quando a oportunidade surgir, confiem nas competências que construíram. O mundo precisa de enfermeiros que ousem sonhar, mas que se preparem exaustivamente para materializar esse sonho.

Que mensagem gostaria de deixar aos recém‑licenciados em Enfermagem, que em breve iniciarão o seu percurso profissional e receberão a sua cédula profissional?
Aos que agora iniciam este caminho, lembrem‑se sempre de que têm nas mãos uma das profissões mais transformadoras que existem: a arte e a ciência de tocar vidas no seu momento de maior fragilidade. Não permitam que a rotina, o cansaço ou as dificuldades apaguem a vossa capacidade de sonhar nem a vossa empatia pelo outro. Seja num hospital central com tecnologia de ponta ou numa tenda iluminada a gerador nos escombros de um terramoto, o vosso saber aliado à vossa humanidade será a âncora de alguém. Sejam eternos estudantes, sejam resilientes e honrem sempre o privilégio que é Cuidar. Onde quer que haja sofrimento, nós, enfermeiros, temos o dever e o poder de levar a esperança.
Luís Manuel Ladeira
Enfermeiro especialista em Enfermagem Médico‑Cirúrgica na área da Pessoa em Situação Crítica





