Da Cruz Vermelha ao mundo: a vocação humanitária de Ilda Pina

  • 07-10-2026

 

"Não deixem de correr pelo que gostam de fazer, sem deixar de ouvir quem se cruza no vosso caminho. O ser humano é complexo, mas muito interessante de conhecer"

 

Ao longo de mais de três décadas de serviço humanitário, Ilda Pina construiu um percurso singular na Enfermagem e na ação humanitária internacional, marcado pela coragem, pela ética e por uma dedicação inabalável às populações afetadas por conflitos armados e crises humanitárias. Enfermeira formada pela Escola de Enfermagem da Cruz Vermelha Portuguesa, iniciou o seu caminho como voluntária na Delegação da Amadora, nos anos 80, integrando operações de emergência em cheias, incêndios e acidentes rodoviários, numa época em que era ainda rara a presença de mulheres ao volante de ambulâncias.

 

A sua primeira missão internacional, em Angola, no final dos anos 90, marcou profundamente a sua identidade profissional. A partir daí, integrou o Comité Internacional da Cruz Vermelha (CICV), onde desempenhou funções em mais de 22 países, sobretudo no continente africano, acumulando mais de 25 missões em contextos de guerra, violência urbana, deslocação forçada e insegurança alimentar. Trabalhou como delegada de saúde, nutricionista, coordenadora de segurança económica, gestora de saúde de staff e especialista em nutrição em contexto de detenção, contribuindo para programas de saúde, nutrição, proteção, segurança económica e resposta a emergências.

 

A sua atuação incluiu a supervisão de centros de saúde e hospitais, a implementação de programas de alimentação terapêutica, a avaliação de condições de detenção, a coordenação de evacuações de feridos de guerra, a negociação com autoridades locais e a formação de equipas multidisciplinares. O seu trabalho foi determinante em países como Angola, República Democrática do Congo, Moçambique, Nigéria, Costa do Marfim, Senegal, Mali, Níger, Ucrânia e Serra Leoa.

 

Paralelamente, Ilda Pina consolidou uma formação académica robusta: licenciatura em Enfermagem, mestrado em Nutrição Clínica, pós-graduações em Enfermagem Forense, Saúde Ocupacional, Medicina Tropical, Saúde Mental em Contextos de Crise, entre outras formações especializadas. A sua tese de mestrado foi distinguida com o 3.º Prémio Nestlé de Nutrição.

 

Depois de décadas de serviço internacional, regressou a Portugal, onde voltou a integrar o voluntariado da Cruz Vermelha Portuguesa e a colaborar em iniciativas científicas e académicas, partilhando a experiência acumulada em cenários de crise e catástrofe. A sua trajetória é testemunho de uma vida dedicada ao cuidado, à humanidade e ao compromisso ético, guiada por valores que permanecem intactos: imparcialidade, neutralidade, respeito, empatia e uma curiosidade profunda sobre o ser humano e as suas culturas.

 

 

O que a levou, ainda jovem, a interessar‑se pelo voluntariado e pela ajuda humanitária?

 

"Desde muito jovem senti uma inclinação natural para o voluntariado e para a ajuda humanitária. A vontade de estar presente onde pudesse fazer diferença surgiu cedo, alimentada por um sentido profundo de responsabilidade e de cuidado pelo outro. O voluntariado na Cruz Vermelha Portuguesa foi o primeiro espaço onde percebi que podia transformar essa vontade em ação concreta, e onde descobri que o serviço aos outros não era apenas uma atividade, mas uma forma de estar no mundo."

 

“Minimizar o sofrimento humano é o objetivo maior do trabalho Humanitário em zonas de guerra”

 

Lembra‑se do momento ou da pessoa que a inspirou a seguir este caminho? Qual foi o “clique”?

 

"No primeiro ano do curso de Enfermagem tivemos um módulo sobre a história da Cruz Vermelha, a razão da sua criação, os seus princípios fundamentais e os contextos onde o seu trabalho era desenvolvido. A matéria era dada por uma enfermeira cuja forma de ensinar transbordava emoção, entusiasmo, medo, tristeza e alegria, como se estivesse a reviver uma missão naquele preciso momento. Nunca a esquecerei. Foi ela quem influenciou profundamente a minha escolha e o meu caminho no cuidar do próximo."

 

 

Que valores considera que sempre a guiaram ao longo da vida e das missões?

 

"Sinceridade, respeito pelo outro, empatia, curiosidade e a capacidade de reconhecer quando não sei. Ao entrar para a Cruz Vermelha Portuguesa e, mais tarde, para o Comité Internacional da Cruz Vermelha, adotei os seus princípios fundamentais, imparcialidade, neutralidade, humanidade, independência, voluntariado, unidade e universalidade, muitos deles inerentes à própria Enfermagem."

 

Em que momento sentiu que este trabalho passou a ser parte da sua identidade?

 

"Durante o curso de Enfermagem e, de forma definitiva, no final da minha primeira missão em Angola. Na altura, o trabalho humanitário não era uma carreira profissional; as únicas especialidades existentes eram nutrição e cirurgia de guerra. Tudo o que aprendíamos dependia da nossa curiosidade e vontade de saber. No final dessa missão, percebi que era a minha vocação, mesmo sem imaginar que acabaria por construir uma carreira internacional."

 

 

Como começou a colaborar com a Cruz Vermelha e como evoluiu até ao Comité Internacional?

 

"Nos anos 80 integrei a primeira recruta da Delegação da Amadora da Cruz Vermelha Portuguesa. Como socorrista participei em várias operações de emergência, acidentes rodoviários, cheias, fogos, e fui uma das primeiras mulheres da instituição a conduzir ambulâncias. A vontade de saber mais levou-me a candidatar-me à Escola de Enfermeiras da CVP. No final do curso, assinei a disponibilidade para missões humanitárias. Uma colega recusou uma missão para Angola e eu aceitei. Quando cheguei a Genebra, na sede do CICV, durante a discussão do contrato, só dizia que sim a tudo, não fazia ideia dos salários na Suíça. Eu só queria saber quais seriam as minhas funções e em que projeto seria integrada."

 

“Os profissionais de saúde têm uma capacidade de adaptação extraordinária. A ciência e a cultura caminham lado a lado no processo terapêutico. Em contextos de conflito, os profissionais estão sempre sob forte pressão política e militar.”

 

Que países visitou e que comunidades a marcaram mais profundamente?

 

"Trabalhei em 22 países, 20 dos quais no continente africano, acumulando mais de 25 missões. As missões do CICV foram sempre em cenários de guerra ou violência urbana. As comunidades afetadas por conflito armado marcaram-me pela sua resiliência e pela crueldade dos atos cometidos contra civis. A violência sexual como arma de guerra, o estigma das vítimas e a falta de meios para as apoiar eram devastadores. As populações lutam diariamente para sobreviver, reconstruir casas, cultivar terrenos e garantir que os filhos vão à escola, mesmo quando nunca conheceram a paz, como na República Democrática do Congo."

 

 

Viveu momentos de grande tensão. Pode partilhar algum episódio que a tenha marcado?

 

"Vivi vários. Recordo uma emboscada no deserto, quando procurávamos um interlocutor. Assistimos a uma batalha entre forças governamentais e um grupo armado. Fomos identificados pelos militares que recuavam e pediram-nos ajuda para prestar primeiros socorros. Após estabilizar os feridos, seguimos viagem, mas fomos emboscados por indivíduos armados. Nunca tive tanto medo. Fomos levados ao chefe do grupo, que era precisamente o interlocutor que procurávamos. Após explicarmos a missão e verificarem que os feridos transportados não tinham armas, deixaram-nos seguir. A transparência de todo o processo valeu-nos respeito."

 

Há alguma história que nunca esqueceu?

 

"Sim. Um menino de cerca de quatro anos que conheci numa aldeia, curioso por eu usar sempre botas. Meses depois, quando a comunidade se deslocou para a aldeia onde estava o escritório do CICV, reencontrei-o: correu até mim com umas botas nas mãos e um sorriso enorme. Em algumas regiões, o nome de quem ajuda é dado a recém-nascidos ou a objetos. Por isso, existem algumas “Ildas” no continente africano, e na Guiné-Bissau existe uma semente de arroz chamada “Ilda”."

 

Hoje o trabalho humanitário é uma carreira profissional. É preciso formação, vocação, capacidade de lidar com medo, solidão, condições humildes e distância da família. O mais importante é conhecer bem as pessoas que queremos ajudar, os seus costumes, tradições e formas de viver.

 

 

Qual foi a maior lição que aprendeu?

 

"Que tudo o que sei é pouco. Os profissionais de saúde têm uma capacidade de adaptação extraordinária. A ciência e a cultura caminham lado a lado no processo terapêutico. Em contextos de conflito, os profissionais estão sempre sob forte pressão política e militar."

 

Que experiência a transformou de forma irreversível?

 

Um parto complicado, numa aldeia destruída pela guerra, onde foi necessário realizar um procedimento obstétrico antigo para salvar a mãe. Tudo foi feito com consentimento informado e respeito ético. Nem todos vivem no mesmo tempo e os tempos são vividos de formas muito diferentes.

 

 

 "Os profissionais de saúde têm uma capacidade de adaptação extraordinária. A ciência e a cultura caminham lado a lado no processo terapêutico. Em contextos de conflito, os profissionais estão sempre sob forte pressão política e militar"

 

Como era trabalhar com equipas internacionais?

 

"Enriquecedor. As diferentes culturas ajudavam a encontrar soluções criativas. Aprendi francês, novas receitas, músicas, escritores. A convivência nem sempre era fácil, mas o objetivo comum, minimizar o sofrimento das populações, unia-nos."

 

Que dilemas éticos enfrentou?

 

"Na minha primeira missão, abrir 14 cozinhas comunitárias para 7 000 crianças desnutridas foi um choque. Em alguns locais, as mães estavam tão desesperadas que eu não conseguia sair da viatura. A impotência era enorme."

 

 

Porque acredita que a ajuda humanitária é essencial?

 

"Porque minimiza o sofrimento humano e respeita os Direitos Humanos e o Direito Internacional Humanitário. Os projetos devem ser sustentáveis e adaptados às necessidades locais. A responsabilidade ética é enorme."

 

Onde estudou e que memórias guarda da formação?

 

"Gostei muito do curso da Escola de Enfermagem da CVP. A formação era exigente e consciente. No mestrado em Nutrição Clínica na Escola Egas Moniz, aprendi imenso com colegas de diferentes áreas. A minha tese ganhou o 3.º Prémio Nestlé de Nutrição, algo que nunca imaginei."

 

 

Em que instituições trabalhou antes das missões?

 

"Trabalhei em vários hospitais e centros de saúde do SNS, medicina, UCI, urgências, VMER, saúde escolar, consulta do diabético, saúde materno‑infantil e cuidados domiciliários."

 

Que mensagem deixa aos enfermeiros que desejam seguir voluntariado internacional?

 

"Hoje o trabalho humanitário é uma carreira profissional. É preciso formação, vocação, capacidade de lidar com medo, solidão, condições humildes e distância da família. O mais importante é conhecer bem as pessoas que queremos ajudar, os seus costumes, tradições e formas de viver."

 

 

Como cuidava da sua saúde emocional?

 

"No início, cuidava mal. Não tirava férias e acumulava missões. Depois aprendi a parar, fazer exercício e meditação. Mais tarde tive burnout com sinais de PTSD. Após recuperação, fiz mais algumas missões. A minha saída não se deveu ao burnout: a pré‑reforma ocorreu no âmbito de uma reestruturação interna da instituição e da redução de efetivos, um processo que ainda hoje continua em curso."

 

O que a ajudava a manter a força?

 

"Os amigos em Portugal, as cartas, as pessoas que encontrava, os mercados tradicionais, as florestas, as aldeias vazias e a música portuguesa."

 

 

Onde encontrava esperança?

 

"Nas pessoas que assistíamos, na resiliência, no riso das crianças. Com o tempo, aquilo tornou-se o meu normal."

 

Que frase deixaria a quem lê esta biografia?

 

"Não deixem de correr pelo que gostam de fazer, sem deixar de ouvir quem se cruza no vosso caminho. O ser humano é complexo, mas muito interessante de conhecer."

 

 

O que ainda a move, já reformada?

 

"Continuar a aprender e conhecer melhor as pessoas. A vocação não morreu, voltei a ser voluntária da Cruz Vermelha Portuguesa. Em Dezembro vou fazer um curso sobre Saúde nas Prisões, para atualizar conhecimentos."

 

 

Ilda Pina

Enfermeira Humanitária em zonas de guerra