A comunicação segura: o fio condutor invisível de todos os cuidados de saúde

  • 17-09-2026

 

No dia em que se assinala a Segurança do Doente, partilhamos o testemunho de Tânia Soares, Presidente do Conselho de Enfermagem Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros.

Para Tânia Soares, a comunicação segura é uma dimensão essencial da qualidade e segurança dos cuidados de saúde. Mais do que transmitir informação, comunicar de forma clara, estruturada e eficaz pode fazer a diferença na continuidade dos cuidados e na proteção dos utentes.

 

No seu artigo de opinião, reflete sobre a importância da comunicação entre profissionais de saúde e sobre o papel do ISBAR enquanto ferramenta fundamental para uma comunicação mais segura e uma verdadeira cultura de segurança nos cuidados.


"A Comunicação segura é o fio condutor invisível de todos os cuidados de saúde"

 

Ao longo do percurso profissional, percebi que havia um fator que atravessava, de forma transversal, todas as fases e todos os contextos dos cuidados de saúde, da prevenção ao diagnóstico, do tratamento ao acompanhamento de longo prazo, do ambulatório ao bloco operatório: a comunicação. Sempre reconheci a comunicação como um processo estruturado através do qual se trocam informações de forma clara e precisa entre os membros de uma equipa. Nos cuidados de saúde, esta ganha uma dimensão ainda mais ampla: envolve a troca de informações, significados e emoções entre profissionais, utentes, famílias e equipas, com o propósito de promover a compreensão mútua, a tomada de decisão informada, a segurança do cuidado e a humanização da assistência. Por isso, quando pensava em segurança dos cuidados de saúde, pensava na prática, em comunicação segura.

 

Vivenciei com alguma frequência, principalmente na práxis em contexto de Cuidados Perioperatórios, durante a realização do acolhimento de utentes, que se verifica a ausência/insuficiência de informação relevante sobre o seu estado clínico, antecedentes ou cuidados de enfermagem prestados. Essa lacuna obrigava, muitas vezes a solicitar a informação junto dos enfermeiros do serviço de origem, a gerir o tempo e a expor o utente a um risco desnecessário, num momento já de si vulnerável. Percebi, com essa experiência repetida, que não era um problema isolado dos contextos cirúrgicos, era um sintoma de um problema transversal a todo o sistema de saúde.

 

"A comunicação é uma competência não técnica, tão determinante para a qualidade e segurança dos cuidados, como qualquer outra competência técnica."

 

A evidência confirmava o que se verifica no ambiente dos cuidados de saúde: a comunicação era uma das causas mais comuns de eventos adversos na área da saúde. Já o relatório "To Err is Human: Building a Safer Health System", há mais de duas décadas, tinha apontado as falhas de comunicação como um fator central nos erros evitáveis; também a Organização Mundial da Saúde identificou a comunicação ineficaz como um dos principais problemas que comprometem a segurança dos cuidados de saúde. A comunicação é uma competência não técnica, tão determinante para a qualidade e segurança dos cuidados, como qualquer outra competência técnica.

 

Foi para responder a este desafio que a Direção-Geral da Saúde emitiu, em Portugal, a Norma n.º 001/2017 "Comunicação na Transição de Cuidados de Saúde", recomendando a normalização da comunicação clínica através da metodologia ISBAR, Identificação, Situação, Background, Avaliação e Recomendações. A DGS preconiza a sua utilização entre profissionais de saúde em todos os níveis de cuidados, considerando-a mesmo prioritária. Mais do que um instrumento que promove a uniformização da comunicação, é também um instrumento que exige a sua implementação ativa, não basta existir "no papel"; tem de ser apropriado, treinado e efetivamente usado no dia a dia das equipas de saúde, para produzir o impacto que se pretende na segurança do utente.

 

Aprendi a ver o ISBAR exatamente como aquilo que é: um conjunto de cinco componentes-chave que funciona como um auxiliar de memória de fácil execução, capaz de traduzir, em passos simples, uma informação clínica complexa. Com a prática, fui percebendo todas as vantagens que este instrumento reúne: é, antes de mais, um verdadeiro instrumento de uniformização da comunicação, mas funciona também como uma estratégia de compreensão de mensagens entre profissionais de saúde de diferentes formações e experiências. Ajudava-nos a organizar o pensamento antes de comunicar, e a sua estrutura simples torna-o de fácil memorização, mesmo sob pressão. É suficientemente flexível para se adaptar a diferentes contextos clínicos, do bloco operatório à urgência, dos cuidados intensivos ao internamento e, sobretudo, contribui para reduzir os eventos adversos associados às falhas de comunicação em saúde. Permite uma tomada de decisão mais rápida, diminui o tempo utilizado na transferência de informação e facilita a rápida integração de novos profissionais nas equipas, possibilitando uma linguagem comum para comunicar com segurança. Não é, de todo, um instrumento isolado ou de uso restrito a Portugal: o ISBAR é recomendado por várias organizações de saúde a nível internacional e está sustentado pela evidência científica, o que sempre me deu confiança adicional na sua utilização, não se limitando à aplicação de apenas uma norma nacional, mas a uma metodologia validada e reconhecida além-fronteiras.

Tornou-se, desde então, o instrumento de referência utilizado nos serviços de saúde portugueses, para uniformizar a passagem de informação em momentos críticos de transição, como a passagem de turno ou a transferência entre serviços.

 

"O ISBAR não é uma imposição externa, mas um instrumento construído e sustentado dentro da própria profissão, pensado para proteger os profissionais de saúde, mas sobretudo, para proteger quem cuidamos."

 

Este instrumento nunca viveu isolado da nossa profissão, teve, pelo contrário, na Ordem dos Enfermeiros um dos seus principais impulsionadores em Portugal, e isso foi algo que sempre valorizei particularmente. A Ordem dos Enfermeiros deu a este tema uma importância extrema, integrando a comunicação segura e a utilização sistematizada do ISBAR nas suas orientações para a melhoria contínua da qualidade dos cuidados de enfermagem, sendo o enfermeiro um dos elementos da equipa de saúde responsável pela sua implementação e formação das equipas nesta metodologia. É este envolvimento ativo, e não apenas normativo, que faz reconhecer neste instrumento um fator importante para a consolidação da cultura de segurança dentro da profissão. O ISBAR não é uma imposição externa, mas um instrumento construído e sustentado dentro da própria profissão, pensado para proteger os profissionais de saúde, mas sobretudo, para proteger quem cuidamos.

 

Se há uma aprendizagem transversal ao meu percurso profissional, é a de que a segurança dos cuidados não depende exclusivamente da competência técnica. Depende também da capacidade das equipas para assegurar que a informação clinicamente relevante é transmitida, compreendida, confirmada e integrada na tomada de decisão, particularmente nos momentos de transição de cuidados.

 

Neste contexto, o ISBAR constitui uma ferramenta simples e estruturada que facilita uma linguagem comum entre profissionais e reduz a variabilidade na transmissão de informação. Não elimina, por si só, os riscos associados à comunicação, nem substitui o julgamento clínico, a escuta ativa ou uma cultura organizacional de segurança. Oferece, contudo, uma estrutura que ajuda a diminuir omissões e ambiguidades precisamente nos momentos em que a continuidade da informação se torna particularmente crítica.

Mais do que cumprir uma norma, o verdadeiro desafio está em transformar uma metodologia em prática quotidiana: formar, treinar, avaliar a sua utilização e criar condições para que comunicar com segurança seja parte integrante do próprio ato de cuidar.

 

"A segurança dos cuidados de saúde não se limita à técnica de quem cuida, mas também à qualidade da comunicação de quem transmite o que foi realizado e o que falta realizar."

 

Foi também neste percurso que tive, e continuo a ter, o privilégio de contribuir para a formação nesta metodologia. Porque uma comunicação estruturada não é um fim em si mesma: é uma das condições para que cada profissional possa continuar, com segurança, o cuidado iniciado por outro.