7.º Meeting da Secção Regional do Sul debateu estratégias para reter enfermeiros e sustentar o futuro da profissão

  • 20-10-2026

 

A Universidade de Évora recebeu, no passado dia 16 de outubro, o 7.º Meeting da Secção Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros, o mais importante encontro anual promovido pela Secção Regional do Sul. Subordinado ao tema “Reter no Presente, Sustentar o Futuro”, o evento reuniu centenas de participantes para um dia de reflexão, debate e reconhecimento, centrado nos desafios da retenção dos enfermeiros, na valorização profissional e na construção de ambientes de trabalho sustentáveis.

 

 

Ao longo do dia, enfermeiros, gestores, académicos e decisores partilharam diferentes perspetivas sobre as condições necessárias para garantir que a Enfermagem continue a atrair, desenvolver e reter profissionais, contribuindo para a sustentabilidade do sistema de saúde.

 

 

 

A sessão de abertura contou com a presença do Bastonário da Ordem dos Enfermeiros, Luís Filipe Barreira, da Presidente do Conselho Diretivo da Secção Regional do Sul, Dora Franco, da Vereadora da Câmara Municipal de Évora, Carmen Carvalheiro, e da Pró-Reitora da Universidade de Évora, Elsa Lamy.

 

 

Na sua intervenção, Dora Franco destacou a importância do tema escolhido para esta edição do Meeting, sublinhando que a retenção dos enfermeiros exige uma abordagem integrada e uma responsabilidade partilhada entre instituições, lideranças e profissionais.

 

 

“Reter enfermeiros é, antes de mais, criar condições para que queiram ficar.”, salientou a Presidente da Secção Regional do Sul, reforçando ainda que a retenção não pode ser encarada apenas como resposta à saída de profissionais, mas como uma verdadeira estratégia de futuro, assente em melhores ambientes de trabalho, valorização profissional, oportunidades de desenvolvimento, qualidade das lideranças e reconhecimento do papel dos enfermeiros nas organizações de saúde.

 

 

Também o Bastonário da Ordem dos Enfermeiros centrou a sua intervenção na necessidade de criar condições que permitam aos enfermeiros permanecer e desenvolver-se profissionalmente em Portugal. “A dedicação dos enfermeiros não pode continuar a compensar as falhas de organização e de planeamento.”

 

Luís Filipe Barreira defendeu que a retenção dos enfermeiros depende de melhores condições de trabalho, de maior reconhecimento profissional e da participação efetiva dos enfermeiros nas decisões relacionadas com a organização dos serviços de saúde, acrescentando que: “O conhecimento de quem cuida tem de estar presente onde se decide.”

 

 

Mesa I

Ambientes de trabalho e satisfação profissional

 

 

O programa científico iniciou-se com a Mesa I – Ambientes de Trabalho e Satisfação Profissional, moderada pela Enfermeira Marta Soares, da ULS Alentejo Central.

 

Durante esta sessão foram abordados temas determinantes para a estabilidade das equipas de enfermagem. Noélia Vieira, da ULS da Lezíria, apresentou uma análise sobre o turnover dos enfermeiros e os fatores que influenciam a saída dos profissionais das organizações.

 

 

O estudo, realizado com mais de mil enfermeiros da região Sul de Portugal, analisou a relação entre a satisfação profissional, o engagement no trabalho e a intenção de turnover. Os resultados demonstram que níveis mais elevados de satisfação e dedicação profissional estão associados a uma menor intenção de abandonar a organização, enquanto a sobrecarga de trabalho, a escassez de recursos e a insatisfação remuneratória aumentam o risco de saída dos profissionais.

 

A retenção de talento surge como um fator estratégico para a sustentabilidade das organizações de saúde. Em primeiro lugar, evita o ciclo de sobrecarga e instabilidade que se gera quando a saída de profissionais aumenta a pressão sobre as equipas remanescentes, potenciando novas saídas. Em segundo lugar, protege o capital intelectual das instituições e reduz os custos associados ao recrutamento, integração e formação de novos elementos, sendo particularmente crítica a retenção de enfermeiros com 5 a 10 anos de experiência, grupo que apresenta maior intenção de abandono.

Em terceiro lugar, a retenção contribui para garantir a segurança, a qualidade e a continuidade dos cuidados prestados aos utentes, reduzindo os impactos negativos da rotatividade frequente. 

O estudo apresentado, conclui que a redução da intenção de turnover depende da promoção da satisfação profissional e do engagement, através da melhoria das condições de trabalho, da valorização remuneratória, do reconhecimento e progressão na carreira, do desenvolvimento de lideranças transformacionais, da garantia de dotações seguras e da promoção do equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.

 

Claudia Rodrigues, da ULS de São José, que refletiu sobre os indicadores estratégicos de retenção e a sua relevância para a gestão das equipas. A encerrar a mesa, André Beja, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa, promoveu uma reflexão sobre a satisfação profissional e os desafios atuais enfrentados pelos enfermeiros.

Os contributos apresentados permitiram analisar de que forma os ambientes de prática influenciam a motivação, o bem-estar e a permanência dos profissionais nos serviços de saúde.

 

 

Mesa II

Planeamento e políticas de retenção

 

 

A manhã prosseguiu com a Mesa II – Planeamento e Políticas de Retenção, moderada pelo jornalista Pedro Benevides, da TVI/CNN Portugal.

 

 

O painel reuniu o Bastonário da Ordem dos Enfermeiros, Luís Filipe Barreira, a CEO do Grupo Luz Saúde, Isabel Vaz, e o economista e professor da Nova SBE, Pedro Brinca. O debate permitiu abordar diferentes perspetivas sobre os modelos organizacionais, os mecanismos de incentivo e as políticas necessárias para responder aos desafios da retenção dos profissionais de enfermagem. Foram discutidas estratégias para tornar as organizações de saúde mais atrativas, sustentáveis e capazes de responder às expectativas das novas gerações de profissionais.

 

Durante a sua participação, Isabel Vaz, Presidente da Comissão Executiva (CEO) do Grupo Luz Saúde, colocou o foco na imperativa valorização da classe, defendendo remunerações adequadas e planos de carreira estruturados que acompanhem a evolução demográfica e clínica do país. Para a responsável do Grupo Luz Saúde, a diferenciação técnica e a especialização contínua são peças fundamentais para dar resposta ao aumento expressivo de comorbilidades e da doença crónica. A gestora destacou igualmente as competências naturais da profissão na liderança e gestão de unidades de saúde, reforçando que, apesar da aceleração tecnológica e digital, o cuidado empático e a vocação inerentes à enfermagem permanecem insubstituíveis pela inteligência artificial.

 

Por sua vez, Pedro Brinca apresentou um diagnóstico económico detalhado e sustentado em números sobre a realidade preocupante da profissão. O economista sublinhou que, entre 2011 e 2023, os enfermeiros registaram uma perda real de poder de compra na ordem dos 6%, alertando que Portugal se situa entre os países da União Europeia onde estes profissionais auferem remunerações mais baixas em paridade de poder de compra. Além disso, evidenciou a contradição de o sistema despender verbas consideráveis no pagamento de milhões de horas extraordinárias para compensar a sobrecarga das equipas, em vez de avançar com contratações permanentes e rácios adequados aos padrões internacionais.

O Bastonário da Ordem dos Enfermeiros, Luís Filipe Barreira, interveio alertando para o desfasamento estrutural entre as necessidades da população e o número real de profissionais nos serviços, o que gera uma sobrecarga constante sobre quem permanece no sistema. Luís Barreira referiu ainda a importância da criação do mais recente Programa OEquilíbrio lançado pela Ordem dos Enfermeiros em setembro de 2026, para apoiar todos os profissionais. Este programa gratuito de apoio à saúde mental dos enfermeiros, surgiu como resposta ao desgaste psicológico dos profissionais e ao aumento do burnout.

Embora tenha salientado a tendência de redução observada desde 2023 nos pedidos de declaração para o exercício no estrangeiro, o Bastonário da OE salientou que a emigração continua a ser uma ferida aberta e que o esforço de retenção exige muito trabalho por concretizar.


Nesse sentido, além da revisão urgente das carreiras e das tabelas remuneratórias, defendeu a consagração de uma autonomia clínica alargada para a profissão, nomeadamente através da competência para prescrever em áreas e contextos específicos.

 

Mesa III

Liderança e novas gerações

 

 

Durante a tarde realizou-se a Mesa III – Geração Z e Novos Desafios na Liderança, moderada pela Professora Isabel Bico, Diretora da Escola de Enfermagem de São João de Deus da Universidade de Évora.

 

Participaram nesta sessão o Professor Paulo Alves, da Universidade Católica Portuguesa, que abordou a relação entre inovação e retenção; a Enfermeira Constança Nunes, da ULS de São José, que destacou a importância da mentoria entre pares e das alianças relacionais; e a Enfermeira Andrea Filipa Martins, da ULS do Algarve, que refletiu sobre o papel das chefias intermédias na motivação e permanência dos profissionais.

 

A mesa permitiu discutir os desafios colocados pela entrada das novas gerações nas organizações e a necessidade de desenvolver modelos de liderança mais próximos, participativos e orientados para o crescimento profissional.

 

 

Reconhecer o mérito e valorizar a profissão

 

Um dos momentos mais marcantes do 7.º Meeting foi a cerimónia de entrega dos Prémios:

 

Prémios Orçamento Participativo

 

Posição Projeto Autores
1º Crioterapia: Intervenção de enfermagem no pós operatório imediato Inês Isabel Pires Marto Dos Santos
Lara Filipa Martins Butes
Sónia Claro Neto
Vânia Cristina Costa Lopes
2º PalliArte: Cuidar Além da Doença Luciana Isabel Silva Duarte
3º Mais Vida no Domicílio Florbela Maria David da Silva Santos
Geikes Pegoreth
4º Reabilita AVC André Filipe Nunes Quadrado
Beatriz da Conceição Diogo
Cláudia Sofia Félix Soares
Filipa de Oliveira Sobreiro Vital
Gonçalo Miguel Ferreira Marques
Maria Isabel Martins de Jesus Costa
5º Turno Verde: “Comunicação Eficaz na Transição de Cuidados de Enfermagem – ISBAR Digital, Seguro e Sustentável” Helena Isabel Beirão Isidoro Santos

 

 

 

 

 

Prémios de fotografia
Posição Fotografia Autores
1ª Cuidar em Enfermagem: A Arte de Ser Muitos num Só Ana Filipa Martins Serra
2ª Há outro colo à espera Maria Helena Simões Pires
3ª Onde o Cuidado Encontra o Invisível Expedito de Jesus Arellano
     
Posição Menções honrosas Autores
1ª Na Cumplicidade de um Olhar, o Invisível Célia Carina dos Santos Monteiro
2ª O que não se vê Bruno Miguel Pratas dos Santos Martins Poeira
3ª O que de verdade importa! Catarina Pereira Martins

 

 

 

Prémios de Investigação em Enfermagem Mariana Diniz de Sousa

 

Posição Projetos vencedores Autores
1ª O Ensino do Cuidado Espiritual na Licenciatura em Enfermagem em Portugal Ana Filipa Baptista Afonso
Sara Cristina Correia Gomes Sitefane
Silvia Maria Alves Caldeira Berenguer
Isabel Cristina Mascarenhas Rabiais
2ª Entre o Saber e o Fazer: Cuidados Neuroprotetores em Neonatologia na Perspetiva dos Enfermeiros: Um estudo de Focus-group Ana Rita Da Conceição Pereira
Fátima Isabel Frazão Prior
Luísa Barros
Maria Isabel Dias da Costa Malheiro
3ª Burnout e Bem-Estar Psicológico em Profissionais de Saúde Mental: Estudo de Viabilidade de um Programa Psicoterapêutico de Enfermagem Pedro Miguel da Cruz Henriques
Ricardo Jorge de Barros Romeira Picoito
Sandra Cristina Fernandes Felismino Sampaio de Andrade
Nicole Oliveira Carvalho
Olga Maria Martins de Sousa Valentim

 

 

Posição Menções honrosas Autores
1ª Funcionalidade, sintomas depressivos e qualidade de vida em pessoas mais velhas em cuidados de longa duração do setor social: proposta de abordagem estratificada dos cuidados de Enfermagem António José Marmelo Lista
César João Vicente da Fonseca
Lara Manuela Guedes de Pinho
2ª Configuração multidimensional dos comportamentos negativos entre enfermeiros: implicações para a gestão em Enfermagem Nuno Novais Martins Santos
Mafalda Sofia Cardoso Inácio
Patrícia Maria Marques Costa
Pedro Ricardo Martins Bernardes Lucas
3ª Barreiras e facilitadores da adesão aos medicamentos na transição hospital-casa: estudo qualitativo com pessoas idosas e cuidadores Isa Raquel Brito Santos Pereira Félix

 

 

 

 

 

 

 

Seguiu-se a cerimónia de atribuição das medalhas comemorativas dos 25 anos de inscrição na Ordem dos Enfermeiros, durante a qual cerca de 200 enfermeiros foram homenageados pelo seu percurso profissional e pelo contributo prestado à sociedade ao longo de um quarto de século de exercício profissional.

 

 

 

 

 

 

O Bastonário da Ordem dos Enfermeiros destacou o papel destes profissionais na construção da Enfermagem portuguesa e na formação das gerações mais jovens. “Há enfermeiros que hoje cuidam melhor porque aprenderam convosco.”

 

Luís Filipe Barreira sublinhou igualmente que a dedicação demonstrada ao longo dos anos deve ser acompanhada pelo reconhecimento das organizações e pela criação de melhores condições de exercício profissional. “A dedicação merece condições para continuar. Merece equipas seguras, carreiras valorizadas e respeito pela experiência.”

 

Dirigindo-se aos homenageados e às suas famílias, deixou ainda uma mensagem de reconhecimento e gratidão: “Depois de tantos anos a amparar os outros, merecem sentir-se amparados.”

O programa integrou ainda um momento musical de Cante Alentejano, homenageando a identidade cultural da região anfitriã e proporcionando um momento de celebração e convívio entre todos os participantes.

 

 

A sessão de encerramento contou com a participação do Enfermeiro Sérgio Branco, Presidente do Conselho de Enfermagem da Ordem dos Enfermeiros, da Enfermeira Tânia Soares, Presidente do Conselho de Enfermagem da Secção Regional do Sul, do Enfermeiro Ângelo Marinho, Secretário do Conselho Diretivo da Secção Regional do Sul, da Professora Isabel Bico e do Enfermeiro Nelson Mestrinho, Enfermeiro Diretor da ULS Alentejo Central.

 

O 7.º Meeting da Secção Regional do Sul terminou reafirmando a necessidade de continuar a investir na valorização da profissão, na melhoria dos ambientes de trabalho, no fortalecimento das lideranças e na construção de soluções que garantam a sustentabilidade da Enfermagem para as próximas gerações.

 

Em nome da Secção Regional do Sul da Ordem dos Enfermeiros, deixamos um agradecimento a todos os participantes, oradores, moderadores, parceiros institucionais e enfermeiros que contribuíram para o sucesso deste encontro. A vossa presença reforça o compromisso coletivo com uma Enfermagem mais forte, mais valorizada e preparada para os desafios do futuro.

 

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