Dia Nacional do Doente com AVC: um olhar urgente sobre a realidade portuguesa e o papel transformador da enfermagem de reabilitação

  • 31-03-2025

Assinala-se a 31 de março o Dia Nacional do Doente com AVC, uma data simbólica que, mais do que uma simples data no calendário, deve servir como ponto de reflexão coletiva sobre uma das maiores ameaças à saúde dos portugueses. O Acidente Vascular Cerebral (AVC) é, ainda hoje, a principal causa de morte e incapacidade em Portugal, afetando milhares de pessoas todos os anos e gerando um impacto profundo tanto no sistema de saúde como nas famílias e comunidades. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) e a Direção-Geral da Saúde (DGS), em 2020 registaram-se mais de 11 mil mortes por AVC, representando cerca de 10% da mortalidade total. Para além disso, estima-se também que cerca de 200 mil pessoas vivam com sequelas resultantes de um AVC, com mais de metade a necessitar de apoio permanente para atividades básicas do dia a dia. Estes dados refletem não apenas o peso assistencial da doença, mas também o seu impacto económico e social, exigindo medidas urgentes e sustentadas a nível de prevenção, reabilitação e apoio à integração social. Para além das perdas humanas e do sofrimento pessoal, o AVC implica um peso significativo em termos económicos, sociais e psicológicos, exigindo uma resposta articulada que ultrapasse os limites dos cuidados agudos e se estenda à prevenção, reabilitação e reintegração plena das pessoas afetadas. Esta é uma realidade que, por mais conhecida que seja, continua a exigir um compromisso renovado e efetivo por parte das instituições de saúde, dos profissionais e da sociedade civil.

 

Em Portugal, são registados anualmente entre 25 a 30 mil novos casos de AVC, de acordo com dados da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral (SPAVC) e da Direção-Geral da Saúde (DGS). Estes números traduzem-se em três pessoas afetadas por hora, das quais uma acaba por falecer. As restantes, muitas vezes, sobrevivem com sequelas físicas, cognitivas e emocionais que limitam a sua autonomia e qualidade de vida. Cerca de metade dos sobreviventes apresenta incapacidades permanentes, tornando o AVC também na principal causa de dependência funcional em adultos no nosso país. As estatísticas não deixam margem para dúvidas: estamos perante um problema de saúde pública de enormes proporções, que exige intervenção coordenada e multidisciplinar em todas as fases do cuidado às pessoas com AVC.

 

Importa, por isso, destacar o papel absolutamente central dos profissionais de enfermagem, em especial dos enfermeiros especialistas em enfermagem de reabilitação, cuja atuação junto das pessoas com AVC é determinante para a recuperação funcional e a reintegração na comunidade. A sua intervenção estende-se muito para além da fase hospitalar, acompanhando a pessoa desde o internamento até à reintegração plena na comunidade, garantindo uma abordagem centrada na funcionalidade, na autonomia e na continuidade dos cuidados em diferentes contextos de vida. Estes profissionais são agentes facilitadores da transição para o domicílio, capacitadores de famílias e cuidadores, e promotores de um projeto de vida que respeite a dignidade e potencial de cada pessoa/família que sobrevive a um AVC.

  

Conforme reconhecido no Regulamento das Competências Específicas do Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Reabilitação, cabe a estes profissionais intervir na promoção da funcionalidade, no treino de atividades de vida diária, na prevenção de complicações secundárias, na adaptação do ambiente e no empoderamento da pessoa para retomar o controlo da sua vida. São estes enfermeiros que, muitas vezes, dão o primeiro passo para que a pessoa, por exemplo, volte a sentar-se, a caminhar, a comunicar, a alimentar-se sozinho, a vestir-se, a sentir-se parte ativa da sua família e comunidade.

 

Num país onde o número de profissionais especializados em enfermagem de reabilitação é ainda insuficiente face às necessidades, importa refletir sobre a urgência de investir mais neste segmento da profissão. Se é certo que se tem registado evolução positiva nos cuidados agudos ao AVC, nomeadamente com a implementação da Via Verde e das Unidades de AVC, a resposta no pós-agudo e na continuidade de cuidados ainda é desigual e, muitas vezes, insuficiente.

 

Assinalar o Dia Nacional do Doente com AVC deve ser também um apelo à consciência coletiva: prevenir o AVC é urgente, mas dar dignidade à vida após o AVC é imprescindível. E não há dignidade sem reabilitação, sem apoio técnico e humano, sem intervenção especializada. O enfermeiro especialista em enfermagem de reabilitação é uma peça-chave neste percurso, e o seu papel deve ser conhecido, reconhecido e valorizado. Porque cada pessoa com AVC merece mais do que sobreviver: merece a oportunidade de voltar a viver com autonomia, significado e esperança."