Envelhecer Ativa(Mente): O Papel do EER na Comunidade
Andreia Lucas
Enfermeira Especialista em Enfermagem de Reabilitação
UCC Al Baiaz – Alvaiázere – ULS Coimbra
Em Portugal verifica-se, como na generalidade dos países europeus, um progressivo processo de envelhecimento populacional, consequência do aumento da esperança média de vida e da diminuição da taxa natalidade. O índice de envelhecimento em Portugal situa-se, atualmente, nos 183,5%, tendo-se verificado um crescimento acentuado destes números, sobretudo na última década (PORDATA, 2024). Estima-se que esta situação continuará a agravar progressivamente, e que o índice de envelhecimento mais do que duplicará nos próximos 40 anos, atingindo os 317 idosos, por cada 100 jovens, em 2080 (INE, 2017).
O aumento na esperança média de vida deve ser acompanhado por um aumento proporcional em anos de vida saudável, exigindo respostas adequadas por parte dos sistemas de saúde e de solidariedade social, e da própria sociedade.
A Direção Geral de Saúde (DGS), com base nas orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS) salienta a importância de todas as medidas que contribuam para a criação de ambientes seguros e de condições que permitam o acompanhamento dos idosos através da vigilância de saúde e promoção de estilos de vida saudáveis, prevenção da doença, gestão dos processos de comorbilidade, inclusão social e apoio em situações de vulnerabilidade e limitação da atividade (Faria et al, 2020).
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Imagem 1 – Aula de Saúde na U+: Literacia em Saúde - utilização da aplicação SNS 24
Foi com este propósito que a Câmara Municipal de Alvaiázere iniciou, em 2010, o Projeto Universidade Sénior de Alvaiázere, designado por U+, que num “contexto de formação ao longo da vida, visa criar e dinamizar atividades educacionais, culturais, sociais e de convívio” destinadas a pessoas com mais de 50 anos de idade (CMA, 2010). Os objetivos principais deste projeto assentam na valorização pessoal e social, promoção da qualidade de vida e redução do risco de isolamento social.
A multidimensionalidade do envelhecimento requer a cooperação de diferentes saberes e competências, pelo que as aulas na U+ são asseguradas por voluntários e parceiros institucionais, das mais diversas esferas da comunidade, que ministram disciplinas como História, Filosofia, Espanhol, Inglês, Ginástica/Hidroginástica, Teologia, Saúde, Meditação, entre outras.
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Imagem 2 – Aula de Saúde na U+: Reminiscência – treino de atenção, memória e linguagem
A Unidade de Cuidados na Comunidade (UCC) Al Baiaz assume a responsabilidade da disciplina de Saúde, assegurando a realização de aulas quinzenais. Tendo por base os objetivos do Projeto U+ e a missão da UCC Al Baiaz, as aulas são planeadas tendo como focos principais a promoção de estilos de vida saudáveis, interação social, bem-estar e qualidade de vida.
No âmbito de programas de envelhecimento ativo, o enfermeiro especialista em enfermagem de reabilitação (EER) possui competências para conceber e desenvolver intervenções que maximizem a capacidade funcional e promovam estilos de vida saudáveis, fomentando simultaneamente a participação social e a criação de um ambiente seguro e inclusivo das pessoas idosas (Faria et al, 2020). Neste contexto, o enfermeiro EER da UCC Al Baiaz assume um papel preponderante no âmbito da disciplina de Saúde da U+, sendo responsável pelo planeamento e implementação da maioria das intervenções realizadas.
Na programação das aulas, o EER da UCC Al Baiaz aposta na diferenciação, inovação e dinamismo, promovendo de forma rotativa atividades centradas na literacia em saúde, estimulação cognitiva e atividade física.
A Literacia em Saúde “implica o conhecimento, a motivação e as competências das pessoas para aceder, compreender, avaliar e aplicar informação em saúde de forma a formar juízos e tomar decisões no quotidiano sobre cuidados de saúde, prevenção de doenças e promoção da saúde, para manter ou melhorar a qualidade de vida durante o ciclo de vida” (DGS, 2019). Tendo como por base este pressuposto, nas aulas de saúde da U+ são abordadas várias temáticas como por exemplo: utilização da APP Saúde 24 (Imagem 1), acesso aos cuidados de saúde, recursos existentes na comunidade, gestão de regime terapêutico, prevenção de quedas, entre muitas outras.
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Imagem 3 – Aula de Saúde na U+: Atividade Física - treino de coordenação, equilíbrio, proprioceção e fortalecimento muscular
A estimulação cognitiva visa melhorar o funcionamento cognitivo e social, e as atividades, de cariz lúdico, são elaboradas de forma a motivar os participantes, abrangendo diversos domínios cognitivos como a aprendizagem, a atenção, o funcionamento executivo, a linguagem, a memória, o processamento visuoespacial e o raciocínio (Parola et al., 2019). Alguns exemplos de atividades realizadas neste domínio são: Pedy-Papper, que combina atividade pedestre com execução de tarefas em diferentes pontos intermédios (sopa de letras, jogo da memória, diferenças em duas imagens semelhantes, entre outros), e a atividade Reminiscência (Imagem 2), na qual os participantes são incentivados a recordar e partilhar histórias marcantes da sua infância.
A adoção de um estilo de vida ativo proporciona inúmeros benefícios à saúde, estando a prática de atividade física consistentemente associada à manutenção da funcionalidade, e ao retardamento do processo de declínio das funções orgânicas que são observadas no processo de envelhecimento (Monteiro et al, 2014). Segundo esta premissa, as aulas de atividade física realizadas no âmbito da disciplina de Saúde da U+, contemplam exercícios de fortalecimento muscular, treino de equilíbrio, coordenação motora e proprioceção (Imagem 3), incidindo sobre a manutenção da capacidade funcional e autonomia dos participantes.
Resultados de vários estudos apontam que os programas de envelhecimento ativo têm efeitos benéficos na qualidade de vida das pessoas idosas envolvidas, tendo-se em consideração a relação da qualidade de vida com aspetos físicos, emocionais e sociais (Azevedo, 2015).
A nível do projeto U+, em janeiro de 2024 foi realizada, na disciplina de Saúde, a avaliação do estilo e qualidade de vida dos alunos através da aplicação do Questionário “Estilo de Vida Fantástico”, que explora os hábitos e comportamentos da população-alvo relativamente aos estilos de vida adequados para a saúde.
Os resultados dos questionários demonstraram que 96% dos participantes obtiveram o score máximo (excelente), o que revela que a larga maioria dos alunos da U+ adota um estilo de vida saudável.
Assim, torna-se evidente a importância do enfermeiro especialista em reabilitação na comunidade, como promotor de programas de envelhecimento ativo que, além de permitirem uma melhor qualidade de vida e ganho de anos de vida saudáveis, contribuem, pela prevenção de complicações e redução de comorbilidades associadas ao envelhecimento, para a própria sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde.
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Imagem 4 – Aula de Saúde na U+: Interação Social e Atividade Física – “Dia Mundial da Atividade Física”, organizado pelo NERCHUC/ ULS Coimbra
REFERÊNCIAS
- Azevedo, M. (2015). O envelhecimento ativo e a qualidade de vida: Uma revisão integrativa [Tese de Mestrado, Escola Superior de Enfermagem do Porto]. Repositório Comum. http://hdl.handle.net/10400.26/10776
- Câmara Municipal de Alvaiázere (2010). Regulamento Universidade Sénior de Alvaiázere. https://www.cm-alvaiazere.pt/pages/619
- Direção Geral de Saúde (2017). Estratégia Nacional para o envelhecimento ativo e saudável: Portugal: 2017-2025
- Direção Geral da Saúde. (2019). Plano de ação para a Literacia em saúde: Portugal: 2019-2021
- Faria A., Martins M., Ribeiro O. & Gomes B. (2020). Impacto de um programa de envelhecimento ativo no contexto comunitário: Estudo de caso. Revista Portuguesa de Enfermagem de Reabilitação, 3(1), 36-41. DOI 10.33194/rper.2020.v3.s1.4.5768
- Instituto Nacional de Estatística (2017). Projeções de população residente em Portugal. https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=277695619&DESTAQUESmodo=2&xlang=pt
- Monteiro, C., Dias, C., Corte-Real, N., & Fonseca, A. M. (2014). Atividade física, bem-estar subjetivo e felicidade: Um estudo com idosos. Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 14(1), 57-76. org/10.5628/rpcd.14.01.57
- Parola, V., Coelho, A., Neves, H., Almeida, M., Gil, I., Mouro, A. & Apóstolo, J. (2019). Efeitos de um programa de estimulação cognitiva em idosos institucionalizados. Revista de Enfermagem Referência, IV, 20, 47-56. doi.org/10.12707/RIV18043.
- PORDATA (2024). Indicadores de Envelhecimento - Portugal. https://www.pordata.pt/Portugal/Indicadores+de+envelhecimento-526







