Divulgação em Enfermagem de Reabilitação

 

Construção e validação de um programa de Enfermagem de Reabilitação para a pessoa com fratura da extremidade proximal do fémur

 

Autores: Figueiredo, Ana*; Carvalho, Rogério**; Baptista, Fernando***; Alves, Andreia****; Cortinhas, Maria*****; Carvalho, António******

Enfermeira Especialista em Enfermagem de Reabilitação, Mestre em Enfermagem de Reabilitação

** Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Reabilitação

*** Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Reabilitação

**** Enfermeira Especialista em Enfermagem de Reabilitação

***** Enfermeira Especialista em Enfermagem de Reabilitação

****** Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Reabilitação, Enfermeiro Gestor

 

RESUMO

 

Objetivo: Construir um programa de Enfermagem de Reabilitação para aplicação à pessoa com fratura da extremidade proximal do fémur (FEPF), em contexto hospitalar, proceder à sua validação por Enfermeiros Especialistas em Enfermagem de Reabilitação, e verificar a sua efetividade através da sua validação clínica, após implementação no contexto.

 

Métodos: Trata-se de um estudo quantitativo de nível IV, quase experimental, dividido em três etapas. A primeira integrou a revisão integrativa da literatura que sustentou a conceção do programa e a sua própria construção. A segunda consistiu na etapa de validação de conteúdo do programa, por técnica e-delphi e a terceira consiste na sua implementação em contexto clínico para validação clínica, com participação de dois grupos (intervenção e controlo).

 

Resultados: Oito peritos da área de Enfermagem de Reabilitação participam na construção e validação do conteúdo do programa de enfermagem de reabilitação para a pessoa com fratura da extremidade proximal do fémur, por técnica e-delphi. Neste momento encontramo-nos a concretizar a primeira ronda da referida técnica.

 

Considerações finais: Esperamos brevemente alcançar a validade de conteúdo, reunindo o conjunto de dimensões que este deve integrar, para passarmos à fase seguinte de implementação e validação clínica.

 

Descritores: Fratura da extremidade proximal do fémur; Enfermagem; Reabilitação; Exercício Físico

 

INTRUDUÇÃO

 

As FEPF acarretam marcadas sequelas, das quais se destacam a diminuição da mobilidade e a diminuição da capacidade funcional que por sua vez, converge em diminuição da capacidade de desempenhar atividades da vida diária (AVD), o que se reflete não só em diminuição da qualidade de vida, como também no aumento das taxas de institucionalização dos idosos que sofreram uma FEPF, por exemplo, em lares ou outras instituições (Barbosa, 2013).

 

Existe uma evidente tendência de aumento destas fraturas com a idade, e face ao aumento crescente do envelhecimento da população, será expectável um aumento da ocorrência das FEPF a nível mundial. De acordo com Johnell e Kanis (2006), em 2025, a incidência global anual será de 2,6 milhões, número este que ainda aumentará, de acordo com esta previsão, para 4,5 milhões em 2050.

 

Os estudos neste âmbito revelam que um número significativo destes pacientes não retorna ao estado funcional pré-fratura. Ao final de um ano de pós-operatório, menos de 50% dos sobreviventes podem andar sem ajuda, e apenas 40% podem realizar AVD’s de forma independente (Mendelsohn et al, 2008, Baixinho, 2008; Sousa, 2017).

 

Deste modo, a intervenção de enfermagem de reabilitação à pessoa com FEPF, assume importância em todas as fases, e tem início desde o primeiro momento do internamento, ainda na fase pré-operatória, no entanto, depois do tratamento da fratura, a sua relevância intensifica-se ainda mais, pela premência da mobilização e levante precoce, treino de autocuidado, treino de marcha e outros métodos de reeducação funcional para manter ou recuperar dos défices instalados, visando a restituição da função pré-fratura, maximizando o potencial multidimensional da pessoa, promovendo a autonomia e minimizando a incapacidade e a dependência. Da análise do Regulamento das Competências do Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Reabilitação (OE, 2019), verificamos que os enfermeiros especialistas em enfermagem de reabilitação têm um papel fundamental ao diagnosticarem precocemente as necessidades de saúde das pessoas com necessidades especiais, ao conceberem e desenvolverem planos e programas que maximizem a sua capacidade funcional, desenvolvimento pessoal e participação social.

 

A evidência científica é consensual sobre este facto, e sobre a definição de um programa de enfermagem de reabilitação, com a implementação de intervenções que maximizem a funcionalidade e o desenvolvimento das capacidades da pessoa. Concorre para a obtenção de ganhos em capacidade funcional, ganhos em conhecimento, ganhos em capacidade e consequentemente, diminuição da dependência nos autocuidados da pessoa após FEPF. (Alcobia, 2019; Pino, 2019; Henriques, 2020; Kiunghoon, 2021; Budib, 2022; Che, 2023).

 

Relativamente aos gastos em saúde, em 1990, a Direção Geral de Saúde (DGS, 2008), estimou terem sido gastos 11 M €, ao passo que em 1992, 1994 e 2006, pela mesma patologia foram gastos 22,5 M €, 28 M € e 52 M €, respetivamente. Isto evidencia um aumento significativo da despesa como consequência deste tipo de fraturas. No que concerne aos custos hospitalares das FEPF, os resultados de um estudo apontam para um custo médio de 4100 € por cada internamento (Gullberg et al, 2007). Acresce que, nesta despesa, não estão englobados custos com reabilitação e apoio social relacionado com este tipo de pacientes, bem como custos indiretos (institucionalizações, cuidados continuados, cuidadores familiares em idade ativa).

 

Neste sentido, à luz dos estudos supramencionados, o impacto dos cuidados de Enfermagem de Reabilitação em contexto hospitalar, pós-evento de FEPF, devem ser valorizados e potenciados. A demonstração da efetividade desta intervenção, na manutenção da autonomia e independência funcional da pessoa com FEPF, significa também um caminho de melhoria da qualidade dos cuidados de enfermagem de reabilitação, otimizando todo o processo de internamento e de preparação do regresso a casa e consequentemente, redução de custos em saúde.

 

Para além do exposto, partimos também da inquietação vivenciada durante o nosso exercício profissional enquanto enfermeiros especialistas em enfermagem de reabilitação, em que percepcionamos um défice de uniformização, estruturação e sistematização da prática clínica, levando muitas vezes a níveis consideráveis de aleatoriedade e variabilidade individual na implementação das intervenções de enfermagem de reabilitação a estas pessoas. Assim, considerou-se relevante a construção e validação de um programa de enfermagem de reabilitação a ser aplicado em contexto hospitalar, para a recuperação funcional da pessoa com FEPF. Foram seguidas as orientações do Medical Research Council para o desenvolvimento de intervenções complexas de Craig et. al (2008), e as recomendações para a prescrição de exercício físico do American College of Sportse Medicine  (ACSM ), 2017.

 

Efetuou-se uma revisão da literatura, e foram consultados peritos da área, de forma a aproximar os componentes do programa a ser prescrito à realidade da prática de cuidados de enfermagem de reabilitação e às necessidades das pessoas alvo do programa.

 

OBJETIVO

 

Construir, validar e testar a efetividade de um programa de enfermagem de reabilitação para a pessoa com FEPF, a ser implementado em contexto hospitalar.

 

MÉTODOS

 

Aspectos éticos

O presente estudo está integrado no projeto de investigação mais alargado, intitulado “Efetividade de um programa de enfermagem de reabilitação na recuperação funcional da pessoa com fratura da extremidade proximal do fémur”.  Foi submetido para aprovação da Comissão de Ética (aguardando parecer), seguindo todos os preceitos éticos, nomeadamente participação voluntária, consentimento informado e garantia de anonimato e confidencialidade dos participantes, assim como a informação sobre a possibilidade de abandono da  investigação em qualquer momento, sem qualquer prejuízo.

 

Referencial teórico-metodológico

 

Tipo de estudo

Estudo quantitativo, quase experimental, com participação de dois grupos (intervenção e controlo), subdividido em três fases: construção do programa de enfermagem de reabilitação, apoiado na revisão da literatura, validação do conteúdo do programa por peritos mediante a técnica e-delphi e aplicação em contexto clínico para validação clínica.

 

Procedimentos metodológicos

 

Cenário do estudo

O presente estudo, reporta-se a um braço qualitativo do referido projeto. Metodologicamente, foi realizado online, via e-mail, por se revelar o método de maior facilidade, celeridade e aceitação para a recolha dos contributos dos peritos.

A técnica Delphi, consiste num processo interativo que recolhe informações de uma determinada área de interesse do investigador através de uma série de questionários enviados aos especialistas para recolher opiniões individuais sobre o tema. Este processo é interativo até o investigador considerar que foi obtido um consenso, uma

convergência das respostas, que representa uma consolidação do julgamento do grupo. Pressupõe-se que o julgamento coletivo, quando bem organizado, é melhor do que o julgamento individual (Okoli et al, 2004). A sua utilização em processos de validação de conteúdo, consiste na construção de consenso de opiniões de um grupo de especialistas, realizado em rondas sucessivas, com o objetivo de avaliar determinado problema ou proposta de intervenção. É preservado o anonimato dos participantes e das respostas individuais, possibilitando a interação das respostas por meio do feedback, a cada ronda, com sínteses do conteúdo técnico-científico, ou seja, prático e teórico, expresso nas opiniões emitidas pelos especialistas (Monteiro e Hora, 2014 Coutinho et al., 2013; Marques e Freitas, 2018). Foram seguidas as fases propostos por Monteiro e Hora (2014):

  • Definição do desempenho do domínio de interesse;
  • Seleção de um painel de especialistas qualificados no domínio;
  • Adequação de um roteiro estruturado para avaliar a correspondência entre os itens e o domínio;
  • Colheita de dados e resumo do processo de correspondência.

 

Fonte de dados

Inicialmente procedemos a uma revisão da evidência mais recente, com a finalidade de identificar as intervenções de enfermagem de reabilitação mais efetivas na recuperação funcional e motora da pessoa com FEPF. Após a revisão da literatura e identificação dos componentes essenciais, construímos um programa de enfermagem de reabilitação para ser implementado em contexto hospitalar, sendo que, este foi apresentado a um painel de peritos, por técnica e-delphi, acompanhado de um questionário em formato Google Forms, enviado por correio eletrónico, para recolher opinião e sugestões de melhoria sobre o conteúdo, estrutura e duração do programa.

Para a seleção dos peritos, recorreu-se à amostragem intencional não probabilística. Os critérios de inclusão utilizados para definição dos participantes desta etapa foram: ser detentor do título de enfermeiro especialista em enfermagem de reabilitação; exercer atividade profissional como especialista há, pelo menos, cinco anos; ter experiência profissional em contexto ortopédico de pelo menos dois anos. Trata-se de um painel de peritos de diferentes localizações geográficas e de diferentes áreas de exercício profissional, nomeadamente da área clínica, ensino e investigação, o que contribui certamente para uma maior riqueza e diversidade dos dados pretendidos.

 

Colheita de dados

O recrutamento dos participantes ocorreu em dois momentos. O primeiro, aconteceu duas semanas antes do envio do questionário, em que os participantes foram convidados a participar no estudo via correio eletrónico. Uma vez aceite o convite, foi disponibilizada informação aos participantes sobre os aspetos essenciais (enquadramento, objetivos e finalidade) da investigação. O segundo momento (envio do consentimento informado e questionário para preenchimento), ocorreu via e-mail com a finalidade de validar o conteúdo, estrutura e duração do programa.

O instrumento de coleta de dados incluía questões relacionadas com a caracterização sociodemográfica e profissional dos peritos, além de um instrumento de avaliação do programa constituído por perguntas objetivas. As questões apresentadas estavam organizadas de acordo com três tópicos:

  1. Conteúdo do programa de enfermagem de reabilitação;
  2. Operacionalização do programa de enfermagem de reabilitação,

III) Duração do programa de enfermagem de reabilitação 

As questões formuladas aos peritos tinham como objetivo identificar os elementos-chave a considerar num programa de enfermagem de reabilitação para promover a recuperação funcional e motora da pessoa com FEPF. Para avaliar a concordância em relação aos conteúdos propostos no programa, os peritos respondiam: concordo totalmente, concordo, discordo, discordo totalmente, sem opinião, sendo que, no final de cada categoria, havia um espaço de resposta aberta, para sugestões ou modificações associadas a cada tópico. Anteriormente, as questões tinham sido submetidas a um pré-teste, tendo sido aplicadas a três elementos externos à equipe de investigação, com as mesmas características dos peritos, para perceber a sua aplicabilidade e a necessidade de reformulação.

 

RESULTADOS

 

Após este processo de validação, esperamos ser possível realizar alterações ajustadas às particularidades da população-alvo do programa, com o intuito de que a versão final seja também, bem compreendida e facilmente utilizada pelos profissionais envolvidos. A participação dos peritos no processo de validação dos conteúdos do programa, permitirá com certeza, o seu aperfeiçoamento e enriquecimento, assegurando-nos que partimos para a próxima fase do nosso projeto com um programa de enfermagem de reabilitação abrangente, contemplando todas as componentes essenciais à melhor recuperação funcional e motora e constituindo a melhor resposta a todas as necessidades da pessoa com fratura da extremidade proximal do fémur.

 

Contributo para a Área de Enfermagem de Reabilitação

Nos últimos anos, têm sido desenvolvidos diversos estudos nacionais e internacionais de prevalência e análise da correlação entre recuperação funcional e motora e a intervenção de reabilitação (Alcobia et al. 2019; Pino, 2019; Henriques, 2020; Kyunghoon, et al., 2021; Che et al. 2023). Neste âmbito e corroborando estes autores, são recomendados programas de Enfermagem de reabilitação multicomponente e baseados na prescrição de exercício físico, o mais precocemente possível. Os diferentes estudos analisados, evidenciaram que os programas de intervenção de exercícios multicomponente (que continham treino de força, resistência aeróbica e treino de equilíbrio) resultaram ser a melhor estratégia para melhorar a marcha, equilíbrio e força, assim como reduzir a taxa de quedas em pessoas idosas, otimizando, a sua capacidade funcional. De facto, a grande maioria dos estudos que demonstravam melhorias na marcha, equilíbrio e risco de queda usaram o treino de exercícios multicomponente como estratégia de intervenção e obtenção de melhores resultados (Lee, 2022; Rocha et al, 2022, Asplin, 2017).

No entanto, os programas de reabilitação convencional, que decorrem em contexto clínico, nem sempre estão estruturados, sistematizados e imbuídos desta intencionalidade, emergindo a necessidade de serem desenvolvidos, validados e implementados programas de enfermagem de reabilitação com maior efetividade clínica, que demonstrem os ganhos de capacidade funcional e independência da pessoa com FEPF.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Da revisão da literatura e submissão a um grupo de peritos, e através de uma análise parcial dos dados já obtidos, resulta um programa de Enfermagem de Reabilitação multicomponente, adaptado às necessidades individuais da pessoa com FEPF, no sentido da sua recuperação funcional e motora. O programa contempla a prescrição de exercício físico pelo EEER, tendo em conta as várias dimensões da função física, segundo Kisner Colby e Borstad (2017), nomeadamente, desempenho muscular, resistência cardiovascular, mobilidade/flexibilidade, controlo neuromuscular/coordenação, estabilidade e equilíbrio corporal. A próxima etapa visa a concretização de um estudo-piloto, por meio da implementação do programa em contexto hospitalar.

 

REFERÊNCIAS

 

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