Os enfermeiros e a visitação domiciliária ao recém-nascido: promovendo um Natal saudável em família
A visitação domiciliária é a estratégia que permite aos profissionais de saúde, neste caso os enfermeiros, aproximarem-se do domicílio do utente e da sua família, tornando possível conhecer o seu meio físico e psico-social. Com esta estratégia, procura-se identificar as características sócio-culturais e antecedentes de saúde dos elementos da família, tornando possível detetar precocemente problemas de saúde e/ou necessidades , para assim atuar preventivamente e de forma mais eficaz, no sentido de apoiar, guiar e aconselhar o indivíduo e sua família (Sousa, 1990).
A visitação domiciliária ao recém-nascido é uma das estratégias propostas pelo Governo Regional dos Açores no Programa Regional de Saúde Materna e Planeamento Familiar, no seu Plano Regional de Saúde 2009-2012. Nesse documento, são especificadas as competências de cada área de cuidados, sendo que aos Centros de Saúde/Unidades de Saúde de Ilha cabe “(…) Implementar a visitação domiciliária às puérperas e recém-nascidos.” (Direcção, 2009, p.7).
A finalidade da visitação domiciliária ao recém-nascido é promover a relação de proximidade entre equipa de saúde, mais especificamente o enfermeiro, e a família, bem como conhecer as condições familiares e habitacionais em que a criança se encontra e o seu estado de saúde. Pretende-se, igualmente, despistar eventuais situações de risco e, através da educação para a saúde, minimizá las, encaminhá-las para os serviços mais indicados ou até mesmo eliminá-las.
É uma estratégia com objetivos específicos bem delineados e estruturados, cada um dos quais com atividades que se querem realistas e adequadas áquela família e ao momento atual que vive. Os objetivos são: realizar o exame físico ao recém-nascido; avaliar a dinâmica familiar; avaliar as condições habitacionais e despistar factores de risco relacionados com as mesmas; promover o aleitamento materno e proceder à educação para a saúde de acordo com as necessidades detetadas.
Este tipo de atuação é normalmente realizada na segunda semana de vida da criança, altura em que é feita a segunda avaliação do seu peso. Para tal, já em casa da família, é pedido à mãe (ou outro cuidador) que dispa o bebé, o que proporciona ao profissional de saúde uma excelente oportunidade de observar o seu relacionamento com o bebé e a forma como os cuidados lhe são prestados.
A pesagem do bebé também permite observar as características da sua pele e mucosas, bem como a sua vitalidade e estado nutricional.
Quando o bebé é amamentado, são esclarecidas dúvidas que a mãe tenha, e se possível, observa-se uma das mamadas, pois deste modo é sempre mais fácil confirmar se a técnica da mamada utilizada é a mais correta. Caso seja alimentado com fórmula, observa-se o método de esterilização e o estado de conservação dos biberões e tetinas; e questiona-se sobre a forma como o leite é preparado e onde é conservada a água fervida. Ainda no que respeita diretamente ao recém-nascido, observa-se o local e material do banho e o berço e/ou alcofa onde dorme. E porque em muitas situações está a dormir, aproveita-se para confirmar a posição em que o faz, pois frequentemente é necessário retificá-la, explicando as razões científicas de atualmente se optar por o colocar em decúbito dorsal.
Relativamente às condições habitacionais, pretende-se despistar situações de risco no que respeita à higiene e segurança, tais como a existência de locais com humidade ou a presença de animais domésticos dentro de casa.
Durante toda a visita o enfermeiro observa a dinâmica daquela família, avalia a forma como os pais e irmãos se relacionam com o bebé, e em algumas ocasiões é ainda possível verificar a relação que outros familiares (avós, tios, primos) têm com a família nuclear.
O nascimento de um bebé é habitualmente envolto de muita alegria e curiosidade. Os irmãos e mesmo primos chegados ainda crianças têm uma enorme curiosidade pelo novo pequeno ser e muitas vezes querem participar nos cuidados que lhe são prestados. Por outro lado, esses sentem-se muitas vezes colocados em segundo plano, o que pode potenciar sentimentos de ciúmes. Por isso, a participação nos cuidados ao bebé deve ser permitida, até incentivada, mas com a devida supervisão. Contudo, a presença de crianças pequenas que frequentem um ambiente escolar potencia o risco de transmissão de infeções respiratórias que não pode ser ignorado.
Também outros familiares e amigos querem conhecer o bebé e felicitar os seus pais. Culturalmente até a própria educação assim o obriga, ainda mais na época Natalícia. Todos o querem segurar e todos o querem beijar! E mesmo sabendo que os bebés não devem ser beijados, a realidade é que sabemos que tal será dificil de cumprir, pois estes pequenos seres são mesmo “apetitosos” e irresistíveis!
Assim, sempre que a família está presente, aproveita-se para realizar educação para a saúde. Ou seja, explicar à família os vários riscos a que o bebé fica exposto e aproveitar a presença das avós para fomentar estas preocupações.
Fala-se, por exemplo, do perigo de transmissão de infeções respiratórias e por herpes e como as podemos evitar. Explica-se que o ritual de visitar o bebé recém-nascido aumenta o risco da transmissão destas infeções, o que pode resultar em internamento hospitalar numa fase muito precoce da sua vida, e até potenciar o aparecimento de futuros problemas respiratórios crónicos.
É importante reforçar que a visitação domiciliária ao recém-nascido promove uma maior proximidade enfª/mãe/família, permitindo que a mãe/família sinta uma maior confiança na equipa de enfermagem. Como é sabido, qualquer que seja o nosso cliente, este nunca se encontra isolado. E qualquer cuidado que lhe seja prestado deve sempre ter em atenção as suas condições culturais e familiares, pois é esta família que o influencia e apoia. É válido aproveitar o ainda existente poder matriarcal nas famílias açorianas, incentivando a avó matriarca para a importância de apoiar a mãe na prevenção do famoso e real “baby-blues” e do pai nas suas tarefas de apoiar a mãe e bebé. Mas salientando a importância de não os substituir nos cuidados ao bebé de manter a família nuclear unida e de ser apenas um “porto de abrigo” a quem podem recorrer quando necessário. Assim, estamos também a promover o vínculo pais/bebé, preparando-os para uma parentalidade segura e responsável. E nesta época em especial, para que o Natal seja também a celebração do nascimento daquele bebé naquela família.
Não queremos de forma alguma que o Natal seja celebrado isoladamente, mas é importante que toda a família esteja consciente dos riscos existentes para o bebé e pais e, deste modo, os ajude neste processo tão importante que é ser-se mãe/pai. Acreditamos que assim, nós enfermeiros também possamos ajudar a celebrar de forma responsável e saudável o verdadeiro Natal em família!
Enfª Nádea Amaral
Centro Saúde de Ponta Delgada