Não Sofra Só…
A dor é uma experiência universal, inalienável da condição humana, sendo no entanto uma experiência subjectiva, complexa, de acordo com as percepções individuais e com as circunstâncias envolventes. Surge nas várias etapas da vida humana e manifesta-se de diferentes formas. Sem dúvida, uma das experiências mais vividas pelo ser humano, mas também uma das mais temíveis.
A dor é algo de inevitável, e o facto de ser compreendida ou não quer pelo próprio quer pelos outros está dependente das características individuais e subjectivas de cada um. A experiência de dor é interior, sendo silenciada no íntimo de cada um e só comunicada ao outro quando se torna insuportável.
A dor não se limita ao corpo físico, pois ela implica o Homem na sua globalidade. Não é só um facto fisiológico: é sobretudo um facto existencial, por isso a mesma dor pode ser sentida de forma diversa em diferentes contextos. O limiar de sensibilidade à dor de cada indivíduo não é o mesmo. A atitude face à dor e os comportamentos de resposta variam consoante a condição social, a cultura, os contextos de vida, a história pessoal e a personalidade. Tudo isso pressupõe organizações psíquicas internas e, portanto, modalidades específicas de lidar com a dor, podendo ir da capacidade de a conter mentalmente, de a elaborar, à necessidade de a expulsar, de a negar ou até mesmo de a desprezar.
A pessoa com dor deve ser cuidada na sua singularidade e beneficiar do tratamento apropriado, de acordo com a intensidade e a natureza da dor, e a qualidade dos cuidados não deve ser prejudicada.
O doente com dor tem uma certa tendência a procurar várias opiniões em busca do alívio da mesma. Acredita que cada novo medicamento que toma será a chave para o seu problema, no entanto, o tratamento tanto pode ser encarado como um “salvador” como olhado com desconfiança, se permitir que as experiências anteriores influenciem o sucesso e/ou agravamento da sua dor.
No cuidado a uma pessoa com dor é importante considerar dois aspectos que são fundamentais para o seu alívio. Em primeiro lugar o profissional de saúde deve acreditar no doente quando este verbaliza sentir dor. Importa ainda neste domínio avaliar os aspectos físicos, mentais e emocionais, independentemente da utilização das escalas de avaliação de dor existentes. Em segundo lugar, o profissional deve atender também à importância da observação dos comportamentos não verbais manifestados pela pessoa e que indicam a presença da dor.
O enfermeiro é o profissional da área da saúde que permanece mais tempo junto ao doente/família com dor pelo que assume um papel de extrema relevância no alívio e conforto da mesma, através de cuidados especiais oferecidos, de modo que ele possa desenvolver a sua capacidade funcional e sobreviver sem dor.
Estar consciente de que a exteriorização da dor implica uma relação social é um factor de extrema importância na actuação do enfermeiro. Assim, a natureza desta relação determinará se e como a dor será revelada e como será percepcionada pelo outro, uma vez que a concepção que têm de dor é influenciada por factores sociais, culturais e psicológicos.
O enfermeiro sabe que a angústia de uma pessoa com dor a torna mais vulnerável, desmobilizando-a da utilização dos seus recursos para lutar contra ela. Por isso, o enfermeiro cuida da pessoa com dor, está presente nos momentos mais dolorosos, ouve a dor do outro, massaja o corpo que dói, estimula os sentidos adormecidos. É esta forma humana de se relacionar que identifica os cuidados de enfermagem e os torna únicos numa equipa multidisciplinar.
Sendo assim, não é de mais referir que o papel do enfermeiro perante a pessoa com dor consiste, idealmente, em encontrar resposta às suas necessidades e queixas, sem fazer juízos sobre a intensidade da dor e sem projectar no outro a sua representação social de dor.
Enf.ª Sandra Silva – Escola Superior de Enfermagem Ponta Delgada