O aumento do número de pessoas com doenças crónicas na população portuguesa é uma realidade preocupante, nomeadamente pelas suas repercussões a nível social, económico e na saúde em especial. Neste sentido, o potencial dos enfermeiros para contribuírem para a melhoria da saúde da população, através da atenção à prevenção e cuidados na doença crónica, é irrefutável.
A OMS declara que as doenças crónicas são a principal causa de mortalidade e morbilidade do mundo. As doenças cardiovasculares, a diabetes, a obesidade, o cancro e as doenças respiratórias representam cerca de 59% do total de 57 milhões de mortes por ano e 46 % do total de doenças. Esta expansão está associada, directamente, aos processos de industrialização, urbanismo, desenvolvimento económico e globalização alimentar, constituindo um conjunto de factores que influenciam a alteração dos hábitos alimentares e promovem, por exemplo, o sedentarismo, o crescimento do consumo do tabaco, o stress.
Os doentes com quadros crónicos, bem como a sua família, necessitam de um nível de apoio alargado para manterem um melhor estado de saúde. Desta forma, os primeiros carecem de competências de auto-cuidado para gerir problemas em casa, conjugados com cuidados planeados e integrados, de modo a detectar previamente quaisquer alterações no seu estado, para que possam ser rapidamente solucionadas, evitando, assim, a evolução para uma situação aguda.
O bom posicionamento dos enfermeiros especialistas comunitários, que conjugam competências em planeamento em saúde com acções que visam essencialmente a protecção e promoção da saúde, pode fornecer soluções criativas e inovadoras perante a problemática das doenças crónicas, constituindo uma mais-valia para fazer a diferença real no quotidiano dos doentes, das famílias e das comunidades.
Importa salientar que as doenças crónicas também afectam as pessoas jovens, realidade que muitas vezes não é considerada pela sociedade, que tende a encarar as mesmas como «doença de velho». Certamente, com o aumento da idade ocorre uma perda progressiva e irreversível da capacidade do organismo em se adaptar às condições ambientais. No entanto, evitar os hábitos nocivos à saúde, nomeadamente o uso do tabaco e o consumo inadequado do álcool, ou seja, apostar na adopção dos estilos de vida saudáveis desde cedo eleva o potencial de saúde ao longo da vida, reduzindo o risco de desenvolvimento de doenças crónicas.
O Plano Nacional de Saúde 2004-2010 integra programas nacionais na prevenção das doenças crónicas mais prevalentes e incapacitantes, cuja lógica se baseia na obtenção de ganhos em saúde, visando melhorar as práticas dos profissionais envolvidos assim como dotar o doente de meios que lhe permita co-responsabilizar-se pelo controlo da sua doença. Um dos primeiros programas concebidos foi o de controlo da Diabetes, tendo-se registado resultados positivos na redução de internamentos por descompensação diabética e na gravidade associada a estes internamentos.
Não obstante, diante da realidade das doenças crónicas, o que se procura, para além da aposta num paradigma preventivo com incentivo às políticas de saúde que visem a promoção de estilos de vida saudáveis em todos os sectores sociais com participação comunitária, é, fundamentalmente, o sucesso na gestão dessas doenças.
Para tal, cada vez mais os enfermeiros têm um valioso papel, uma vez que a qualidade de vida da pessoa com doença crónica se assume como meta essencial na prestação do seu trabalho. As acções multidisciplinares devem ser centradas no doente/família, favorecendo a aceitação e convivência com a situação de doença, libertando-os de atitudes passivas e de submissão, no sentido de os conduzir para uma condição activa, autónoma e responsável.
Mª de Deus Gaudêncio, Marlene Melo, Nélia Veríssimo, Renata Silva.
Enfermeiras do Curso Pós Licenciatura de Enfermagem Comunitária da ESEPD.