Nos tempos que correm, torna-se imperativo que se repense o modo como os serviços de saúde estão organizados para responder cabalmente às necessidades das pessoas, que cada vez mais reivindicam a sua unicidade no modo como vivenciam os processos de saúde-doença. Deste modo, os modelos assistenciais centrados na doença já não se configuram como os mais adequados, pelo que os profissionais de saúde, em geral, devem, num esforço sinérgico com as entidades governamentais, procurar novas formas de responder às necessidades em cuidados de saúde dos cidadãos, numa perspectiva de adequação, responsabilização e rentabilização dos recursos.
Desde sempre que os enfermeiros consideram que as respostas em cuidados de saúde serão mais adequadas se se tiver em conta a família como um todo, ou seja, se toda a unidade familiar for tida como alvo do processo de cuidados, qualquer que seja a intervenção em saúde.
Neste sentido, a Organização Mundial de Saúde (OMS) tem vindo a evidenciar a importância de se implementar metodologias de trabalho que promovam a adopção de um novo paradigma de cuidar, direccionado para família e assente na efectividade (adequação das respostas), integralidade (visão global) e na proximidade do utente com os serviços de Saúde (acessibilidade).
O “Enfermeiro de Família”, como modelo organizativo de cuidados, é, inquestionavelmente, uma mais-valia no âmbito da qualidade dos cuidados prestados à população, com ênfase para a efectividade, proximidade e acessibilidade. De entre os profissionais de saúde que integram as equipas multiprofissionais, a OMS considera que o enfermeiro é aquele que, pela formação específica que detém, está melhor posicionado para avaliar globalmente as necessidades em cuidados de saúde das pessoas e mobilizar os recursos (internos e externos), tendo em conta não só as expectativas dos utentes, mas também a adequação e a rentabilização dos meios.
Assim, o “Enfermeiro de família” tem vindo, progressivamente, a ser implementado em vários países, e é hoje uma realidade em muitos contextos da prática, especialmente na área de Cuidados de Saúde Primários, existindo já várias iniciativas que se aproximam, umas mais, outras menos, do modelo de “Enfermeiro de Família” preconizado pela OMS.
Dos aspectos mais positivos da implementação do “Enfermeiro de família” realçam-se:
. A responsabilização do enfermeiro por um grupo limitado de famílias (300-400), tendo por base uma área geográfica e as eventuais parcerias com as instituições;
. A possibilidade de cada família ter um enfermeiro de referência, tido como uma mais valia para a família, relativamente à acessibilidade a cuidados globais, contínuos e integrados;
. Maior promoção da visita domiciliária como oportunidade de avaliar o contexto onde as pessoas vivem e interagem e, deste modo, detectar precocemente sinais de crise ou de maior vulnerabilidade;
. A criação de sentimentos de “segurança”, “estabilidade”, “suporte/apoio”, por parte das famílias que têm um familiar a vivenciar um processo de doença;
. A implicação de um trabalho de equipa transdisciplinar (que não se esgota na multiprofissionalidade), para responder cabalmente às necessidades das pessoas;
. A prestação de cuidados globais, numa perspectiva de maior proximidade e integralidade, e assente numa relação de ajuda de maior confiança.
O “Enfermeiro de Família” afigura-se, assim, como o elo de referência entre o serviço de saúde e o utente/ família, assumindo a responsabilidade pela prestação de cuidados de enfermagem globais a um conjunto de famílias, nas diversas situações de crise e em todos os processos de saúde-doença. Afirma-se não só como um recurso para a família, mas também como um suporte qualificado nas respostas em cuidados de saúde, em geral, e de Enfermagem, em particular.
Luis Ferreira
Enfermeiro Supervisor do CS Ponta Delgada