Quando nos imaginamos a entrar num hospital, este espaço sugere-nos silêncio, calma, branco, frio, sofrimento, aparelhos grandes e assustadores…imaginem então este cenário aos olhos de uma criança! Para ela, em que tudo é cor, alegria, sorrisos, imaginação, fantasia e brincadeira…podemos imaginar o quanto assustador poderá ser.
A doença, independentemente da gravidade, e consequente hospitalização da criança, apresenta-se como uma situação de crise na vida desta, por vezes a primeira com a qual se depara. O hospital é encarado como um lugar misterioso e, por isso, como fonte de stress, e seja qual for ao motivo da hospitalização, exige da criança o estabelecimento de novas relações com os outros e consigo mesma, bem como constantes adaptações. Nestas situações, a brincadeira é uma excelente forma de as auxiliar a libertar o stress e medo inerentes às mesmas, evitando os efeitos nefastos a curto e a longo prazo que a hospitalização poderá acarretar. Desta forma, é indispensável consciencializarmo-nos de que a brincadeira não deverá findar quando a criança é hospitalizada, pois é essencial ao seu desenvolvimento e bem-estar mental, emocional, e social.
Neste contexto, a brincadeira e os brinquedos devem ser encarados como fundamentais para a melhoria das condições de estadia da criança e das famílias no hospital, tornando o ambiente mais caloroso e mantendo as capacidades afectivas, criativas e sociais num ambiente difícil e destabilizante, permitindo-lhes o desenvolvimento do imaginário através das actividades lúdicas e culturais, canalizando as emoções e atenuando as sequelas psicológicas.
A brincadeira oferece a possibilidade de disfarçar o dia-a-dia no hospital, produzindo uma realidade única e própria, em que alternando entre o mundo imaginário e o mundo real, a criança transpõe a barreira da doença, bem como os limites de tempo e de espaço. Para além disso, a brincadeira permite-lhe extravasar os seus sentimentos, ajudando-a a reflectir sobre a sua situação, criando alternativas de conduta, assumindo, um papel essencial, por exemplo, aquando dos procedimentos dolorosos às crianças. A presença de bonecos, e/ou roupas para se fantasiarem de médicos e enfermeiras (profissionais de saúde com quem têm maior contacto), permitirão também à equipa poder preparar a criança através da brincadeira, mostrando-lhe o que vai acontecer durante a sua estadia no hospital e quais as diferentes intervenções a que será sujeita desmistificando, desta forma, o desconhecido inerente à entrada no hospital.
O enfermeiro, através das 24h de acompanhamento que lhe permitem compreender mais facilmente os receios e ansiedades da criança, bem como da necessidade de a envolver nos cuidados que lhes presta, pode ser considerado o orquestrador que facilita a brincadeira da criança hospitalizada, para além de ser um profissional habilitado para o fazer. Nesta perspectiva, torna-se pertinente que a brincadeira seja utilizada como instrumento essencial no dia-a-dia de enfermagem, pois desta forma estamos a propiciar a comunicação entre a criança e o enfermeiro, promovendo uma relação de confiança e de segurança entre ambos, bem como fazendo emergir as inúmeras qualidades que se destacam do brinquedo terapêutico na criança que se encontra hospitalizada. Na minha opinião, também consolidada pelos diversos autores da área, o brinquedo é uma excelente forma de humanizar o cuidado de enfermagem em pediatria, sendo o brinquedo terapêutico não só importante, mas essencial e indispensável quando se cuida de uma criança hospitalizada.
É, então, imprescindível que os enfermeiros brinquem com as crianças. Estas deverão perceber que são parceiros na jornada que vivenciam - a hospitalização – encontrando-se presentes não só para lhe imporem regras ou infligirem dor e mal-estar (quando estritamente necessário), mas também para sorrir e partilhar as suas alegrias e conquistas nesta fase crítica em que se encontram. Podemos então começar por utilizar a mais simples máscara do mundo: o nariz de palhaço - a que menos esconde e a que mais revela - de forma a podermos ser considerados pelas crianças como verdadeiros Artistas.
Patrícia Pombo Sousa Tavares
Assistente de 2º Triénio da ESEnfPD.
Mestranda em Ciências de Enfermagem (ICBAS/UAç-ESEnfPD)