Adolescentes, enfermeiro, escola e família
Adolescência é o espaço de transição entre a infância e a idade adulta, com início na puberdade terminando com a independência. Neste sentido, a adolescência é a fase da vida em que se definem os valores para encontrar a própria identidade, sendo esta a descoberta dos diferentes papéis a desempenhar enquanto sujeito individual, amante, profissional, membro de uma sociedade, de uma família…
Este conjunto de transformações na vivência do corpo e na consciência de si próprio, nas relações com os pais, o grupo de pares, os amigos, os adultos e a sociedade, e na forma de encarar o futuro são desencadeadas pela maturação dos órgãos sexuais e pelo desenvolvimento físico e intelectual que culmina no novo ser, o “SER Adulto”.
É também na Adolescência que o jovem questiona as dinâmicas sociais e da vida: a desigualdade social, o racismo, a sexualidade, a homossexualidade, a religião, a liberdade, o trabalho, a violência, o aborto, a violação…
A Educação Sexual na Escola tem vindo a ganhar espaço ao longo das últimas décadas e é reconhecida como necessária, pertinente e urgente em todo processo formativo e educativo dos alunos, quer pela trilogia escola/família/enfermeiros, quer pela sociedade. Aliás, é uma disposição legal (Lei nº 60/2009).
Na realidade, apesar da grande quantidade de informação disponível, os jovens confrontam-se com mensagens, modelos mediáticos contraditórios e por vezes violentos.
Cabe à díade professor/enfermeiro facilitar aos adolescentes, em contexto escolar, o acesso a informações claras e objectivas sobre a sexualidade/afectos, protegê-los contra a violência/o abuso e favorecer o encaminhamento/acesso aos serviços de saúde (Artigo 2.º, Lei nº 60/2009).Neste contexto, todos os jovens têm o direito de receber informações sobre o corpo, as emoções, a sexualidade e o relacionamento sexual, da mesma forma que têm várias oportunidades para expressar sentimentos, desmistificar tabus, aprender, reflectir e debater, para formar a sua própria opinião, os seus próprios valores que contribuem para a construção e formação da sua identidade/independência/autonomia e o reconhecimento de um “Ser único”.
Assim, ensinar/educar para Sexualidade no espaço escola não se limita a colocar em prática as mais diversas estratégias de ensino. Exige o empenho de todos.
O enfermeiro, com toda a sua formação académica e profissional, o seu conhecimento e trabalho com as famílias e a sua postura imparcial, poderá dar um forte contributo aos adolescentes em contexto escolar na educação para a sexualidade/afectos e na articulação da escola/serviços de saúde/família.
Trabalhar com adolescentes é enriquecedor e gratificante quer a nível pessoal, quer do ponto de vista do profissional de enfermagem; por todas as especificidades desta etapa do ciclo da vida que é a Adolescência, a mesma exige da parte do enfermeiro um pensamento crítico, contribui para reformular estratégias de actuação… repensar na educação para a saúde e na educação para a sexualidade e afectos …
Importa ainda reflectir que quando Não se fala de sexualidade, ou seja, quando se opta por Não trabalhar esta temática em contexto escolar, com o envolvimento de todos, o silêncio surge como uma forma de educar pela negativa. A aprendizagem solitária induz a apreender e pensar a Sexualidade como um assunto tabu.
Nesta, como em outras tarefas educativas, ninguém tem o direito de se demitir das suas obrigações. Compete a todos (pais, educadores, técnicos de saúde, comunidade) SER E ESTAR PRESENTE quer pelo exemplo, quer pela participação activa. A cada um de nós compete ouvir, reflectir, apreender, participar e reformular, para que os jovens não estejam sós numa esfera da vida que sendo íntima também é profundamente social.
É urgente que se abram janelas de oportunidade…
Enf.ª Irene Blayer
Centro de Saúde de Angra do Heroísmo