Neste dia Mundial da Criança, e de forma a assinalar esta data, diferentes sectores da sociedade desenvolvem um conjunto de actividades comemorativas. A meta é a de proporcionar às crianças um dia especial em que reine a alegria, a diversão, o riso, a amizade, a brincadeira e o afecto. Mas, não deveriam ser criadas condições para que, no dia-a-dia, todas as crianças pudessem contar com estes “nutrientes” que “alimentam” o seu bem-estar e saúde emocional? Enquanto pais, educadores, cidadãos, temos a responsabilidade de olhar pelas nossas crianças, apoiando o seu crescimento e desenvolvimento, preparando-as para enfrentar e lidar, saudavelmente, tanto com as alegrias, como com as frustrações próprias da vida.
O direito à compreensão e ao amor dos pais e da sociedade (6º princípio consagrado na Declaração dos Direitos Criança) realça a importância dos afectos na vida da criança e no seu desenvolvimento pleno. Assim sendo, e sobretudo neste dia, a Ordem dos Enfermeiros atribuiu um significado particular à temática da parentalidade e dos afectos pelo impacto que provocam na saúde das crianças.
A primeira infância é um período em que se preparam os alicerces para a futura saúde mental dos indivíduos. Nesta fase, e de forma a obter protecção e garantir a sua sobrevivência, a criança necessita de estabelecer laços afectivos fortes e duradouros com as figuras significativas que habitualmente lhe prestam cuidados. Através do processo relacional estabelecido com os pais, a criança irá desenvolver o auto-conceito e a auto-estima. A forma como se sente amada contribuirá para a imagem que tem dela própria, o quanto gosta de si e para a capacidade de gostar dos outros; por isso, os pais assumem um papel primordial na saúde e equilíbrio emocional dos seus filhos. Uma resposta atenta, pronta e adequada por parte das figuras significativas, desde o nascimento, favorece o desenvolvimento de uma vinculação segura, criando um “porto de abrigo”, ao qual a criança poderá recorrer independentemente das situações favoráveis ou adversas que tiver de enfrentar. Esta é a maior herança que os pais podem deixar aos filhos! A sensação de segurança gera interesse, necessidade e motivação, permitindo à criança ficar livre para explorar o meio e desenvolver as suas capacidades intelectuais, criativas, emocionais e morais.
Uma criança que tenha oportunidade de experienciar, desde cedo, interacções emocionais baseadas no carinho, afecto e apoio mais facilmente será afectuosa, solidária, capaz de comunicar e compreender os seus sentimentos e os dos outros, reflectir sobre os seus desejos e desenvolver relações de amizade. É no seio da família que se espera que a criança encontre respostas às suas necessidades de protecção, afecto e sentido de pertença. Contudo, o exercício da “profissão” de pai ou de mãe (parentalidade) constitui-se como um enorme desafio quando se pretende qualidade nos resultados obtidos. Ao exercício da parentalidade está inerente o desempenho de diversas funções, nomeadamente, “assumir as responsabilidades de ser mãe/pai; comportamentos destinados a facilitar a incorporação do recém-nascido na unidade familiar; comportamentos para optimizar o crescimento e o desenvolvimento das crianças; satisfazer as necessidades básicas (alimentação, segurança, afecto, confiança, interacção social)”. Na verdade, implica a aquisição de um conjunto de competências parentais, em constante construção e adaptação, resultantes das mudanças que decorrem da evolução do processo de desenvolvimento dos filhos.
Além do contributo da família, amigos e sociedade, consideramos que o enfermeiro desempenha um papel importante no acompanhamento das famílias durante o exercício da parentalidade e, nomeadamente, no desenvolvimento das competências parentais. A posição privilegiada que ocupa nos serviços de saúde (permanece mais tempo nos serviços, tem um contacto mais próximo com as famílias e é um elo de ligação entre os restantes profissionais) permite-lhe identificar as necessidades e preocupações das famílias, prevenir situações de risco, detectar precocemente maus tratos, negligência e abuso e, fundamentalmente, promover a saúde dos indivíduos.
Assim, neste Dia Mundial da Criança importa reflectir sobre o papel que, enquanto enfermeiros, assumimos no sentido de promover o exercício da parentalidade e a expressão de afectos, contribuindo para o bem-estar emocional das crianças, no presente, e das sociedades, no futuro!
Hélia Soares
Prof.ª na ESE Angra do Heroímo